Sequelas da política externa

Robert Kagan*

A equipe de política externa do presidente Barack Obama tem trabalhado arduamente para apresentar as suas políticas ao mundo como sendo uma ruptura radical com a era Bush. No sentido mais amplo, isso tem sido absurdamente fácil: Obama conquistou o mundo instantaneamente.

No entanto, quando se trata de políticas de verdade, vender a ideia de que há uma mudança radical tem exigido um certo esforço - e uma ajuda da imprensa. Assim, o "New York Times" relatou que houve uma "mudança" drástica na política para a China, e que agora existe um "contato rigoroso e persistente", como se os dois governos anteriores estivessem fazendo uma outra coisa nos últimos 15 anos.

Uma outra manchete do "New York Times" alardeava um novo "tom mais suave em relação à Coreia do Norte", com base na sugestão da secretária de Estado, Hillary Clinton, de que os Estados Unidos teriam uma "grande abertura para trabalhar com Pyongyang - tão logo os norte-coreanos concordassem com "o desmantelamento e a desnuclearização, verificáveis e completos, do seu arsenal". Impressionante.

A mídia também anunciou uma mudança drástica na abordagem do governo de Obama na condução da "Atividade Anteriormente Conhecida como Guerra Contra o Terrorismo". "A 'Guerra' de Bush Contra o Terrorismo Chega a um Fim Abrupto", anunciou em 23 de janeiro o "Washington Post", e matérias subsequentes proclamaram uma transformação do "poder duro" em "poder suave", da ação militar em diplomacia - ainda que o governo Obama estivesse enviando 17 mil soldados ao Afeganistão, aumentando significativamente os ataques com aviões não tripulados Predator no Paquistão e concordando com um cronograma para a retirada das tropas do Iraque praticamente idêntico ao que teria sido ordenado por um terceiro mandato Bush (com o mesmo secretário de Defesa).

Fatos semelhantes são a insistência do governo em vincular as propostas instalações de defesa anti-mísseis na Europa à "ameaça" representada pelo Irã, e a sua oferta para negociar a aquiescência da Rússia a esse plano ou até mesmo a compartilhar tecnologia de defesa anti-mísseis. Tudo isso é amplamente comemorado como sendo "notícias novas".

Mas o secretário de Defesa, Robert Gates, deu início a essas negociações com Moscou há mais de um ano.

Quanto ao Irã, a ênfase nas cenouras, na forma de vantagens políticas e econômicas caso Teerã deixe de buscar a produção de armas nucleares, e nos porretes, na forma de sanções internacionais e isolamento se o país não renunciar aos programas de armamentos atômicos, não se constitui exatamente em uma novidade. Acrescente-se a isso a justificável hesitação do governo, não obstante a retórica da campanha, em manter negociações diretas e de alto nível para, em vez disso, concentrar-se em contatos de escalão intermediário ou em reuniões multilaterais sobre questões como o Afeganistão e o Iraque, e não é de se surpreender que as autoridades iranianas estejam questionando o que há de novo na abordagem atual.

Até o momento, Obama tomou decisões em geral ponderadas quanto ao Afeganistão, ao Iraque, ao sistema de defesa anti-mísseis e ao Irã. Juntamente com a linguagem dos punhos descerrados e dos botões de reiniciar, as metas e premissas básicas da política norte-americana não mudaram. Se o mundo enxergar nisto uma revolução, tanto melhor. O que quer que funcione.

Mas existe uma outra área na qual o governo alega ter rompido com o legado de Bush, sem entretanto ter feito isso. E eu gostaria que tivesse. Trata-se da questão da democracia e dos direitos humanos. Desde a cerimônia de posse de Hillary Clinton no Departamento de Estado, quando ela falou dos três Ds - defesa, diplomacia e desenvolvimento - mas não de um terceiro, a democracia -, a imprensa tem feito um grande alarido a respeito deste suporto rompimento com a "agenda da liberdade" do governo Bush (as importantes observações do vice-presidente Biden sobre o quarto D, em Munique, no mês passado, foram ignoradas porque não se encaixavam com as linhas da notícia).

Assim, Peter Baker, do "New York Times", escreveu: "Obama parece propenso a retornar a uma política norte-americana mais tradicional de lidar com o mundo como ele é, e não como deveria ser". Deixem de lado o quanto esta sentença é engraçada até mesmo para quem tem pouco conhecimento da história e das tradições norte-americanas - vocês se lembram de Woodrow Wilson, Franklin Roosevelt, Harry Truman, John Kennedy, Jimmy Carter, Ronald Reagan, Bill Clinton? A questão mais interessante é saber se o governo Bush algum dia buscou seriamente uma "agenda da liberdade".

Conforme o meu colega da Carnegie e proeminente especialista em democracia, Thomas Carothers, observa, a ideia de que o governo Bush engajou-se em um esforço maciço para promover a democracia em todo o mundo é quase que em sua totalidade um mito. Embora todos os presidentes dos Estados Unidos das últimas três décadas tenham se engajado em algum tipo de promoção da democracia, ele escreve: "O lugar da democracia na política externa de Bush não foi maior, e, de certas maneiras, foi até menor, do que o que ocupou nas políticas externas dos seus antecessores".

Ele de fato forneceu um apoio importante a democracias trôpegas como na Ucrânia, na Geórgia e no Líbano. Mas Bush ignorou o desmantelamento sistemático da democracia na Rússia. Assim como a secretária Hillary Clinton, ele não deixou que os diretos humanos atrapalhassem as suas negociações com a China. O governo Bush apoiou o homem forte do Paquistão, Pervez Musharraf, até o final amargo. Ele evitou exigir que o presidente Hosni Mubarak do Egito promovesse eleições livres e justas em 2005, e qualquer ardor que tenha tido após as pressões favoráveis a democracia no Oriente Médio foi arrefecido significativamente após a eleição do Hamas em 2006.

Enquanto isso, ele trabalhou estreitamente com ditadores no Cazaquistão, Azerbaijão, Arábia Saudita e nos Estados do Golfo Pérsico. Com exceção do Iraque e do Afeganistão, onde o seu apoio intenso ao progresso da democracia foi minado por vários anos de estratégia militar fracassada, é difícil identificar muitos locais onde a "agenda da liberdade" tenha sido algum dia seriamente implementada.

O mundo seria um local melhor e mais seguro caso as políticas do governo Bush tivessem sido mais condizentes com a sua retórica. Mas, de qualquer maneira, conforme observa Carothers, a ideia de que "uma grande correção realista pós-Bush é necessária representa uma grave incompreensão dos últimos oito anos". Seria irônico, para dizer o mínimo, se, no seu desejo para distinguir-se de Bush nessa questão, o governo Obama acabasse replicando Bush. Viva la revolución!



*Robert Kagan é membro da instituição Carnegie Endowment for International Peace e do Fundo Marshall Alemão. O seu último livro é "The Return of History and the End of Dream" ("O Retorno da História e o Fim do Sonho").

Tradução: UOL

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