Marcela Sanchez: como poderia ser uma política pragmática de Obama para a América Latina

*Marcela Sanchez

O respeitado ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, James Baker, e o ex-parlamentar democrata Lee Hamilton, diretores do Grupo de Estudos do Iraque, elogiaram recentemente a abordagem realista e pragmática das relações internacionais por parte de Barack Obama. Em uma entrevista com Jim Lehrer em um canal de televisão público, eles disseram que Obama ouve, entende o que o interlocutor fala e, a seguir, pergunta: "O que devo fazer para que isso seja concretizado?".

Conforme se pode suspeitar, Baker e Hamilton não falavam sobre o contexto das relações dos Estados Unidos com a América Latina. Eles se referiam ao Irã, à Síria e ao processo de paz no Oriente Médio. Mesmo assim, como Obama deverá se encontrar com todos os líderes latino-americanos, exceto um, nas próximas cinco semanas, começando pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, existe a esperança de que o presidente dos Estados Unidos adotará essa postura pragmática para melhorar as relações com os seus vizinhos do sul.

E como é que ele conseguiria que isso fosse feito? Não sabemos o que cada presidente individual sugerirá, mas Obama faria bem se tomasse medidas para melhorar a imagem dos Estados Unidos e reduzir o sentimento anti-americano que tornou-se particularmente intenso durante os anos Bush.

A eleição de Obama foi, por si só, um passo positivo. Atualmente ele é mais popular do que alguns líderes regionais nos seus próprios países e as ideias politicas dele estão mais alinhadas do que as do seu predecessor com uma América Latina inclinada para a esquerda.

Em termos de política, Obama poderia causar um grande impacto inicial com relativa facilidade e com um gesto simbólico, com o começo da suspensão do conjunto complexo de restrições a Cuba. Segundo um novo relatório sobre a política dos Estados Unidos para as Américas, divulgado nesta semana pela Inter-American Dialogue, uma instituição de pesquisas políticas de Washington, "nada seria melhor para demonstrar a intenção do atual governo de adotar uma nova abordagem em relação à América Latina".

Isto é politicamente viável agora, um fato que foi demonstrado por recentes acontecimentos no Congresso. As emoções quanto à questão continuam fortes, mas pequenas concessões à viagem de familiares e ao comércio agrícola aprovadas pelo Congresso nesta semana pavimentaram o caminho para que Obama suspenda a proibição de viagens e a restrição ao envio de dinheiro pelos cubano-americanos, algo que poderá ocorrer no final deste mês.

Após Cuba, a tarefa de melhorar a imagem dos Estados Unidos será mais complicada. Para pelo menos uma dúzia de países na América Latina e no Caribe, "a política de imigração dos Estados Unidos é a questão mais urgente nas suas relações bilaterais com Washington", segundo a Inter-American Dialogue. O atual foco no policiamento e em muros, e não na correção de um sistema que encoraja a imigração ilegal, é visto por essas nações como desumano e ofensivo.

Tentativas feitas nos últimos anos no sentido de aprovar uma ampla reforma da imigração fracassaram no Congresso e a atual recessão econômica só deverá complicar as futuras iniciativas. Mesmo assim, no mês passado, em uma estação de rádio de língua espanhola, Obama reafirmou o seu compromisso com a reforma, tendo prometido que começará a elaborar uma legislação para o setor "dentro dos próximos meses".

É claro que ele não fez isso por motivos vinculados à política externa, mas sim porque essa é uma questão doméstica urgente. Por exemplo, as autoridades dos governos estaduais e municipais afirmam que a ausência da reforma nacional da imigração compromete a capacidade deles de garantir a segurança e a saúde públicas, o desenvolvimento econômico e a coesão comunitária.

As políticas anti-drogas dos Estados Unidos, uma peça central nas relações com a região nas últimas duas décadas, são um outro problema para a imagem dos Estados Unidos. Para que haja progresso nessa área seria preciso que Washington se empenhasse mais em reduzir o consumo de drogas nos Estados Unidos, mas que também intensificasse os esforços no sentido de controlar o fluxo enorme de dólares e armas para o sul. Este fluxo alimenta o aumento da criminalidade e da violência que afeta praticamente todos os países ao sul do Rio Grande.

Um problema tão maciço exigiria medidas coordenadas e proporcionais que não temos presenciado para além da Colômbia. Até o momento, a escolha de Obama para o cargo de czar do setor anti-drogas tem sido aclamada como o prenúncio de uma mudança. Ao aceitar a sua indicação, Gil Kerlikowske disse: "O sucesso dos nossos esforços para reduzir o fluxo de drogas depende bastante da nossa capacidade de reduzir a demanda por elas".

É claro que a imagem não é tudo, e o fato de o presidente ser popular não é uma garantia de uma boa política. Mas uma boa imagem dos Estados Unidos na América do Sul poderia resultar da adoção de boas políticas concretas. Tais políticas também fariam sentido para Obama no campo doméstico, ao se levar em conta que atualmente o fortalecimento da imagem dos Estados Unidos no exterior também parece ser uma prioridade para muitos norte-americanos.

Em uma nova pesquisa divulgada nesta semana pelo liberal Centro para o Progresso Americano, mais de dois terços dos norte-americanos afirmaram que uma imagem positiva dos Estados Unidos no Mundo é algo necessário para que se alcancem as metas de segurança nacional do país. Igualmente popular mostrou-se a crença em que os Estados Unidos assumiram um papel demasiadamente grande na solução dos problemas do mundo e que agora o país deveria se concentrar mais no campo interno.

As mudanças necessárias para melhorar a imagem dos Estados Unidos na América Latina não ocorrerão facilmente. Mas isso poderá ser mais fácil do que parece, ao se levar em conta que cada mudança proposta se baseia em fortes motivações internas.


*Marcela Sanchez é jornalista em Washington desde o início da década de 1990 e é colunista há mais de seis anos.

Tradução: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos