Sinais de esperança: a maré está mudando contra os extremistas no Paquistão?

*Moni Mohsin

Em uma livraria inteligente em Islamabad, sou conduzida em uma visita por Ashfaq Ahmad, seu gerente entusiasmado.

"Aqui está ficção, lá está história, viagem, política..." Ele faz uma pausa diante de um livro com uma foto na capa de Mahmoud Ahmadinejad, o presidente do Irã, o tocando de forma reverente. "E isto", ele diz, "ISTO é que chamo de homem".

"Por quê?" eu pergunto.

"Ele não recebe ordens de ninguém. Diferente de nossos líderes. Pah! Escravos dos americanos."

Ahmad não é o único no Paquistão em sua admiração por políticos como Ahmadinejad. Desde que George W. Bush declarou guerra ao terror em setembro de 2001, um consenso se formou de que as potências ocidentais são inimigas do Islã. Como prova, os paquistaneses apontam para as invasões ao Iraque e Afeganistão, assim como a recente guerra em Gaza, comumente vista como patrocinada pelos Estados Unidos.

A guerra contra o terror é, portanto, entendida como uma guerra contra o Islã. Mas o que mais enfurece os paquistaneses é que ao se aliarem aos americanos e tolerarem os ataques por aviões não-tripulados americanos em seu território, seus líderes traíram sua religião e abriram mão de sua soberania. Esta "escravidão" e "covardia" é fonte de tamanha raiva e vergonha que um "patriota" agora é automaticamente definido como alguém antiamericano e pró-Islã. Portanto, os extremistas islâmicos são pequenos Davis lutando contra o Golias americano e, independente de quão extrema seja sua agenda, a luta deles é uma resposta legítima à injustiça americana.

Diferente dos filhos de camponeses pobres e marginalizados, pessoas como Ahmad não são o eleitorado natural dos extremistas. Nascido em uma família rural pobre, Ahmad ascendeu por conta própria à classe média nos 20 anos em que o conheço. Seus filhos frequentam escolas particulares. Ele vive em uma casa confortável, dirige um pequeno carro e vota no Partido do Povo Paquistanês secular. Portanto, Ahmad é, por ideologia e circunstância, contrário aos extremistas que destruiriam sua livraria e demoliriam a escola de seus filhos. Mas tamanho é o seu antiamericanismo que mesmo Ahmad se vê proferindo superficialidades populares.

Quando o Hotel Marriott de Islamabad sofreu um atentado a bomba em setembro passado, matando 54 e ferindo 266 civis, muitos profissionais liberais de alta renda conhecidos meus culparam não os extremistas, mas o governo do presidente Asif Ali Zardari. Se o governo não tivesse bombardeado os esconderijos dos extremistas a pedido dos Estados Unidos, eles argumentavam, eles não teriam sido forçados a promover represálias. Logo, a violência extremista é reativa e somos um alvo automático. Os principais partidos de oposição ganham capital político empregando o mesmo argumento. A paz voltará, eles argumentam cinicamente, quando nos livrarmos deste governo que está nos forçando a travar a guerra americana.

Enquanto isso, setores da mídia que promovem o nacionalismo linha-dura rotineiramente filtram o aumento do extremismo pelo prisma conveniente da arrogância americana e da raiva muçulmana justa. Por exemplo, o recente ataque terrorista mortal contra uma academia da polícia, nos arredores de Lahore, foi explicado por um colunista de um grande jornal popular como sendo uma vingança pelo apoio do governo à política para o Afeganistão e Paquistão do presidente Barack Obama.

O que é obscurecida na crítica é a agenda dos extremistas islâmicos. Aqueles que condenam a repressão do Taleban e sua constante anexação do território paquistanês são rotulados de simpatizantes dos americanos.

Sinalizando seu descontentamento com o Ocidente, os paquistaneses agora enfatizam agressivamente sua identidade religiosa. A sociedade se tornou visivelmente mais ortodoxa. Eu nasci no Paquistão e vivi lá até meus 30 anos. Durante minhas visitas frequentes ao país, eu testemunhei pessoalmente as mudanças.

Minhas amigas de escola do Convento de Jesus e Maria em Lahore, cujas mães vestiam saris curtos naquela época, agora vestem hijab. Na Universidade do Punjab, antes um centro de idéias esquerdistas, os cafés são segregados e o departamento de inglês teve que lutar para manter no currículo os sonetos de amor de John Donne e "Rape of the Lock" de Alexander Pope.

Três mesquitas recém-construídas fazem o chamado à oração por altofalantes em alto volume contra a casa vizinha de um amigo. Há dez anos, ele teria pedido para que abaixarem o volume. Hoje, isso seria imprudente.

O comércio agora fecha por duas horas no meio do dia às sextas-feiras, para as orações obrigatórias. Em janeiro, quando estive lá da última vez, eu protestei contra um lojista que bateu a porte na minha cara quando eu estava entrando.

"Somos muçulmanos", ele respondeu. "É nosso dever rezar."

Nunca foi assim. As pessoas sempre rezaram, jejuaram e deram esmolas - mas sem estardalhaço.

A tolerância por pontos de vista diferentes diminuiu. Os liberais são suspeitos. Quando questionei a interpretação literal dos textos sagrados - digamos, a praticidade do sistema bancário sem cobrança de juros em uma economia global- meus conhecidos me mandaram furiosamente calar a boca. Está decretado no Alcorão, eles disseram. Fim da discussão.

Mas nem tudo está perdido. Paralelamente às posturas linhas-duras, há uma tradição pluralista mais antiga que, apesar de ameaçada, não está extinta. Por exemplo, a imprensa é livre aqui. Apesar das publicações liberais serem condenadas pelos conservadores e ameaçadas pelos militantes, elas mesmo assim florescem. Pessoas como Ahmad continuam se sacrificando para ensinar inglês e informática aos seus filhos. Ignorando abertamente as ordens dos clérigos, eles devoram filmes de Bollywood e frequentam os templos dos santos sofistas. Eles também continuam gostando de esportes "ocidentais" como críquete e hóquei.

Pode ser prematuro considerar isto como uma mudança na maré, mas pela primeira vez um ataque terrorista provocou condenação de todo o país, quando jogadores de críquete do Sri Lanka, que concordaram em jogar no Paquistão quando todas as outras equipes estrangeiras se recusaram, foram alvo em Lahore, em março. À medida que os extremistas aumentavam a violência em cidades antes pacíficas, alguns de seus cidadãos começaram a entender e articular as implicações sombrias do entrincheiramento do Taleban.

Ainda mais encorajador, na eleição nacional do ano passado, os partidos religiosos foram trucidados. Isso me dá esperança de que, no final, o extremismo não se enraizará no Paquistão. Os liberais não se manifestam com mais força porque é da natureza do liberalismo ser passivo, assim como a agressividade é natural para os militantes. Mas caso Ahmad fosse forçado a viver sob o regime repressivo de Ahmadinejad, ele reveria rapidamente sua opinião a respeito de seu herói e descartaria sua passividade. Ou é o que digo a mim mesma.

*Moni Mohsin é uma escritora baseada em Londres que nasceu e cresceu no Paquistão. Ela é autora de "The End of Innocence" e do recém-lançado "The Diary of a Social Butterfly".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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