Exilados cubanos querem que EUA e Cuba expandam relações

Damien Cave Em Miami (EUA)

A principal organização de exilados cubanos está pedindo à Casa Branca que expanda as relações com o governo de Cuba, e que destine uma quantidade bem mais elevada de dinheiro norte-americano público e privado ao povo cubano.

Uma proposta de 14 páginas redigida pelo grupo, a Fundação Nacional Cubano-Americana, propõe aquilo que o documento chama de "uma ruptura com o passado" que "daria um novo rumo à política dos Estados Unidos para Cuba".

Autoridades da Casa Branca e membros da fundação dizem que a proposta consiste na base de uma discussão que está em andamento no governo Obama, e que é a mais significativa rejeição do grupo a uma abordagem nacional em relação à Cuba que a própria organização ajudou a criar, e que tem sido definida pela hostilidade e pelo contato limitado com a ilha.

Integrantes da fundação descrevem a proposta como uma tentativa de redirecionar a atenção que está voltada para Fidel e Raul Castro, focalizando-a no povo cubano.
"Durante 50 anos temos tentado mudar o governo cubano, o regime cubano", diz o presidente da fundação, Francisco J. Hernandez, um veterano da invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961. "Neste momento, o que temos que fazer é deslocar a ênfase para o povo cubano - porque ele é que modificará as coisas em Cuba".

A proposta não chega a propor o fim de um embargo comercial de 47 anos que os Estados Unidos impõem sobre Cuba. Hernandez afirma que o embargo deve continuar em vigor até que o governo cubano conceda "mais liberdade e direitos humanos ao povo da ilha". Mas ele também descreve o embargo como "apenas um símbolo" que "não é mais uma coisa importante".

Em uma reviravolta em relação aos princípios que nortearam a fundação do grupo, ele afirma que a política norte-americana deveria concentrar-se não em sanções, mas em políticas pró-ativas que dirijam recursos para a ilha.

Além de recomendar um aumento do limite de dinheiro que os cubano-americanos possam mandar para os seus parentes em Cuba - algo que o governo Obama diz que pretende implementar -, o grupo declara no documento que a proibição de ajuda monetária por parte do governo norte-americano, imposta em 1997, deveria também ser rescindida.

Ele defende um aumento do auxílio privado aos grupos pró-democracia, e um plano para "permitir que os cubano-americanos e outros, mediante uma licença oficial, enviem dinheiro, material de construção e implementos agrícolas e forneçam serviços a empresários independentes e privados".

O documento também pede que os Estados Unidos encorajem as viagens a Cuba para fins culturais, acadêmicos e humanitários, com um retorno aos padrões que vigoravam em 1999, antes de o governo Bush estabelecer limites mais rígidos.

E ele identifica várias formas de ação diplomática. Por exemplo, o texto diz que as reuniões semi-anuais entre autoridades cubanas e norte-americanas para discutir a migração de pessoas da ilha, suspensas em 2004, deveriam ser restabelecidas; e que a Casa Branca deveria abolir as restrições que limitam a viagem de funcionários da Seção de Interesses de Cuba, em Washington, a um raio de 40 km a partir de seus escritórios, caso o governo cubano concorde em suspender uma restrição similar que é aplicada aos diplomatas norte-americanos em Havana.

Robert Pastor, professor de relações internacionais da American University, afirma que o documento é surpreendente, tanto pelas suas novas ideias quanto pelo repúdio às políticas que o grupo antigamente apoiava.

"Este documento diz basicamente que os esforços anteriores fracassaram - que o embargo não funcionou", diz Pastor, que foi assessor de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter para a América Latina. "Isto, vindo da Fundação Nacional Cubano-Americana, é uma declaração bastante significativa".

Pastor diz que a mudança de tom poderia ajudar o governo Obama a atingir a sua meta declarada de criar relações mais abertas com Cuba. O ímpeto para tal mudança tem se acumulado. Durante a campanha presidencial, assessores de Barack Obama classificaram a política do presidente George W. Bush em relação a Cuba de "um erro crasso sob o ponto de vista humanitário e estratégico". Como presidente, Obama recentemente ordenou que fosse feita uma ampla revisão da política dos Estados Unidos em relação a Cuba.

Vários membros do Congresso também redigiram projetos de lei no sentido de suspender a proibição de todas as viagens a Cuba, e, nesta semana, uma delegação parlamentar que se reuniu separadamente com Raul e Fidel Castro afirmou que o regime indicou que deseja estabelecer melhores relações com os Estados Unidos.

Pastor diz que a fundação parece disposta a tornar-se uma parceira em um maior relacionamento entre Estados Unidos e Cuba, mas ele manifesta ceticismo quanto ao plano do grupo de enviar à ilha dinheiro do governo federal ou de organizações vinculadas aos exilados cubanos.

"A proposta de apoiar a sociedade civil em Cuba é teoricamente desejável segundo a perspectiva dos Estados Unidos, mas ela não é pragmática porque o governo cubano a vê como uma nova estratégia de mudança de regime", afirma Pastor, que visitou a ilha em março. "Ela é contraproducente porque faz com que os dissidentes pareçam ser instrumentos de Miami, em vez de patriotas independentes".

No Café Versailles, um restaurante no bairro de Little Havana, em Miami, que há muito tempo é um ponto de encontro dos inimigos de Fidel Castro, a proposta foi recebida com críticas familiares e acaloradas. Enquanto exibia pinturas do interior de Cuba, que estavam à venda na sua van no pátio de estacionamento, Rodolfo Prometa, 64, era incapaz de ocultar a sua ira.

"Eu abriria as portas para Cuba", gritou ele. "Mas eu faria isso com o uso da força, para remover completamente o sistema e criar uma democracia".

Frometa diz que teve o filho, o irmão e o pai assassinados pelo regime de Castro. Ele foi condenado em 1994 devido a acusações de que ele e um cúmplice tentaram comprar um míssil Stinger para atacar a ilha e passou 41 meses na prisão.

A fundação provavelmente também enfrentará a oposição dos quatro republicanos cubano-americanos que representam a Flórida no Congresso - o senador Mel Martinez e os deputados Mario e Lincoln Diaz-Balart, e Ileana Ros-Lehtinen. Todos eles são oponentes históricos do relacionamento com Cuba, a menos que o regime cubano atenda a condições estritas.

Nenhum deles retornou as ligações telefônicas ou mensagens de e-mail para comentar a proposta. Hernandez, no entanto, garante que a fundação não se deixará intimidar pela velha guarda à que pertenceu no passado. "Temos que nos adaptar", diz ele. "E é isso o que temos feito".

Tradução: UOL

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