Caso de francesa acusada de participar de sequestro no México traz à tona problemas da polícia e Justiça mexicana

Elisabeth Malkin, Na Cidade do México (México)

Três anos atrás, os telejornais matutinos daqui noticiaram a prisão de uma francesa e do seu namorado mexicano em uma batida policial que resgatou três vítimas de sequestro da fazenda na qual o casal morava. A mulher, Florence Cassez, foi julgada pela prática de sequestro e outros crimes, e acabou condenada a 60 anos de prisão. Ao que parecia, o caso estava encerrado.

Mas, durante toda essa história, Cassez, 34, afirmou ser inocente. O namorado dela, Israel Vallarta, que confessou o crime, disse que ela não sabia de nada. E quanto às imagens da televisão mostrando os policiais invadindo a fazenda? Descobriu-se que a operação policial foi encenada um dia após o casal ter sido preso e os reféns libertados.

O caso voltou às manchetes de jornal daqui porque o presidente Nicolas Sarkozy da França deseja que Cassez volte para casa - e só faltou dizer isso diretamente durante uma visita de Estado ao México no mês passado. Na França,os telenoticiários e entrevistas na cadeia falam de uma história de caso amoroso transformado em pesadelo devido à atuação suspeita da justiça mexicana.

Segundo um tratado internacional, Cassez poderia renunciar ao seu direito de entrar com novas apelações e pedir para retornar à França para cumprir a sua pena. Mas existe uma oposição quase generalizada aqui à ideia de mandá-la de volta ao seu país de origem. Pelo tratado, a França poderia modificar a sentença dela, e há a suspeita de que assim que ela entrasse em território francês, seria rapidamente libertada da cadeia. E poucos aqui acreditam nas suas alegações de inocência.

O caso de Cassez acabou emaranhando no trauma dos mexicanos em relação aos sequestros, um crime que tornou-se um símbolo da onda de insegurança do país. A incompetência da polícia e dos promotores, bem como a corrupção e a negligência, significam que pouquíssimos crimes serão solucionados. O paradoxo é que quando as autoridades dizem que o crime foi solucionado, a opinião do povo sobre os suspeitos endurece instantaneamente - não importando o quão imperfeito tenha sido o processo.

"Em um clima generalizado de impunidade, a sociedade torna-se muito conservadora", diz Guillermo Zepeda, especialista em segurança do Centro de Pesquisa para Desenvolvimento, um grupo de estudo de políticas com sede na Cidade do México. "Eles querem que os poucos casos que são resolvidos sejam exemplares".

Em menos de 2% dos crimes o suspeito apresenta-se a um juiz, afirma Zepeda. Isto deve-se em grande parte ao fato de os mexicanos terem tão pouca fé em qualquer aspecto do sistema de justiça criminal que apenas 12% dos crimes são denunciados. "No México, acreditar que alguém é culpado é um ato de fé", diz Zepeda.

A mais forte prova contra Cassez foi o depoimento das três vítimas, nenhuma das quais foi capaz de ver as faces dos seus sequestradores. O relato mais vívido foi feito por Cristina Rios Valladares, que foi resgatada com o filho, à época com 11 anos de idade, e um jovem chamado Ezequiel Elizalde, no dia da prisão de Cassez, após 52 dias de cativeiro. Em uma carta que Rios enviou aos jornais, ela descreve Cassez a ameaçando com uma voz de sotaque francês. "A voz dela ainda penetra nos meus ouvidos até hoje", disse Rios.

Agustin Acosta, o advogado de Cassez, diz que Rios não identificou Cassez como integrante do grupo de sequestradores durante as suas primeiras declarações à polícia logo após ter sido resgatada. Mas Elizalde a identificou, com base no seu cabelo avermelhado, e disse que ela ameaçou decepar-lhe a orelha ou o dedo.

Os depoimentos das vítimas e o fato de Cassez morar na fazenda já se constituem em provas suficientes para a maioria dos mexicanos. E isso inclui uma das vozes mais influentes do país na questão de crime e castigo: Alejandro Marti, um empresário cujo filho de 14 anos foi sequestrado e assassinado no verão do ano passado.

"O procurador conta com provas indubitáveis", diz Marti, que criou uma fundação para trabalhar pela reforma policial e judiciária depois do assassinato do filho. "De onde se pode tirar a conclusão de que a famosa madame Cassez é inocente?".

Marti admite que há problemas com o sistema de justiça criminal mexicano. Mas, segundo ele, o caso de Cassez é um dos fáceis. "A encenação feita pela política para as câmeras de televisão é apenas um detalhe que não modifica os fatos básicos", afirma o empresário.

O homem que admitiu ter encenado a ação policial, Genaro Garcia Luna, é atualmente o secretário de segurança pública e figura central na iniciativa do presidente Felipe Calderon para combater os cartéis de narcotraficantes e o crime organizado. No momento das prisões, ele era o chefe da tropa de elite da polícia que realizou a operação.

Acosta, o advogado de defesa, diz que a exibição da operação encenada nas redes televisivas ditou o clima do processo contra Cassez. "A primeira imagem, a de um sequestrador, é muito difícil de mudar", diz ele. "O impacto da mídia é fortíssimo".

Juntamente com Marti e outros grupos de cidadãos formados pelas famílias das vítimas, os insatisfeitos legisladores mexicanos uniram-se para exigir que Calderon não permita que Cassez retorne à França. Sarkozy e Calderon concordaram em deixar a decisão a cargo de uma comissão binacional que estudaria as maneiras como o caso poderia ser resolvido segundo o tratado, conhecido como Convenção de Estrasburgo.

Cassez, que passa grande parte do seu tempo na cadeia lendo cartas de apoio que recebe da França, aguardará pelo relatório da comissão antes de decidir se entrará com o seu último recurso no México, ou se pedirá para retornar à França.

Ela mantém os detalhes principais da sua história. Cassez chegou ao México em 2003 para morar e trabalhar com o irmão, que à época morava aqui com a sua mulher mexicana. Por meio dele, ela conheceu Vallarta no ano seguinte. O casal deu início a um relacionamento difícil que alienou os amigos dela, que perceberam que Vallarta estava em apuros.

Ela passou o verão de 2005 na França, mas Vallarta ligou para ela, e pediu-lhe que retornasse ao México para morar na fazenda. Cassez arrumou um emprego em um hotel e procurou um apartamento perto do trabalho.
Embora ela tenha dito no seu depoimento à polícia que o casal tinha se separado, Cassez afirmou que fez refeições com Vallarta e encontrou-se com a família dele nos dias que antecederam a prisão. Ela contou que durante aquele período ele a deixou sozinha na fazenda e viajou.

As vítimas do sequestro foram encontradas em uma cabana separada, com um único aposento, na área da fazenda. No seu depoimento, Vallarta afirmou ter levado os sequestrados de um outro cativeiro para a fazenda porque os seus cúmplices ameaçavam machucar as vítimas. A polícia não conseguiu prender nenhum outro membro da quadrilha de sequestradores.

"O meu caso está repleto de incoerências", disse Cassez em uma entrevista no ano passado à revista francesa "Le Point". "Até uma criança de 12 anos perceberia isso".

Tradução: UOL

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