Augusto Boal, 78, um diretor que deu voz às plateias

Por Bruce Weber

O diretor e teatrólogo brasileiro Augusto Boal, que criou formas de teatro interativo e politicamente expressivo sob o rótulo de Teatro do Oprimido, morreu no sábado (dia 2) no Rio de Janeiro. Ele tinha 78 anos.

A causa da morte foi insuficiência respiratória, disse Elisa Nunes, assessora do hospital Samaritano no Rio, informou a Associated Press.
Boal sofria de leucemia.

Enquanto diretor e dramaturgo, Boal tinha um interesse especial pela relação entre o espectador e o ator, e sua carreira foi uma busca constante por uma parceira maior entre ambos. Em sua filosofia, a vida e o teatro são intimamente relacionados; os cidadãos comuns são atores que simplesmente não têm consciência de que estão numa peça, e todos podem fazer teatro, até quem não tem formação. Em seu trabalho, o público normalmente se tornava um participante ativo da própria encenação.

O Teatro do Oprimido, que Boal criou no começo dos anos 70 e que se tornou um movimento internacional com seguidores em mais de 40 países, tem uma motivação tanto política quanto artística. Suas produções têm como tema a injustiça, principalmente nas comunidades pobres ou desfavorecidas politicamente, cujas vozes raramente são ouvidas. Ao longo dos anos, Boal desenvolveu vários formatos.

O movimento, brechtiano em seu engajamento social, tem seu nome derivado da "Pedagogia do Oprimido", manifesto educacional de 1968 escrito pelo filósofo Paulo Freire. O Teatro do Oprimido cresceu a partir do trabalho de Boal no Teatro de Arena, em São Paulo, entre
1955 e 1971. Nos anos 60, o dramaturgo criou o chamado Teatro Jornal, em que ele e seus colegas iam para fábricas e igrejas, incentivavam a discussão de assuntos cobertos pelos jornais e ajudavam as pessoas a dramatizá-los.

Outras variações do tema vieram em seguida. Uma delas foi o Teatro Invisível, no qual os atores, fingindo espontaneidade, representavam uma cena preparada num lugar público - um restaurante ou praça movimentada - atraindo inevitavelmente a participação dos cidadãos.
Outra foi o Teatro Fórum, em que uma peça sobre um problema social transformava-se no começo de uma negociação; a plateia era encorajada a sugerir diferentes formas de resolução para a peça e até mesmo a subir no palco para ajudar a interpretá-la.

Considerado subversivo pela ditadura militar brasileira, Boal foi preso por vários meses em 1971 e depois exilado. Ele morou na Argentina, em Portugal e na França enquanto o Teatro do Oprimido se expandia, retornando ao Brasil depois que a democracia foi restaurada em 1985.

Nos anos 90, ele trabalhou por três anos na prefeitura do Rio de Janeiro. Lá ele aplicou seu princípio teatral e político básico - o monólogo é a ferramenta da opressão, e o diálogo é a ferramenta da democracia - ao trabalho no governo.

"Esse livro tenta mostrar que o teatro é necessariamente político", escreveu Boal em "Teatro do Oprimido", sua influente obra teórica publicado em 1974, "porque todas as atividades do homem são políticas, e o teatro é uma delas".

Boal nasceu no Rio, de pais portugueses, em 1931. Estudou engenharia química, mas se interessou pelo teatro desde a infância, e esse interesse ficou mais forte quando ele foi para a cidade de Nova York no começo dos anos 50. Ele frequentou a Universidade de Columbia, onde estudou tanto química quanto dramaturgia e encenou suas primeiras peças. Voltou ao Brasil em 1955 e, deixando a carreira científica de lado, foi trabalhar no Arena. Seu primeiro trabalho lá como diretor foi uma adaptação de "Ratos e Homens", de John Steinbeck.

"Como eu não era diretor, não tinha medo de dirigir", dizia ele sobre seus primeiros trabalhos, de acordo com um estudo biográfico feito por Frances Babbage.

Boal foi casado duas vezes. Ele deixou a mulher Cecília e dois filhos, Julian e Fabian.

Boal também escreveu muitos livros, incluindo "Jogos para Atores e Não Atores", que descreve exercícios e técnicas para integrar atores e espectadores, e a autobiografia "Hamlet e o Filho do Padeiro".

Intelectual afetuoso e professor entusiasmado, Boal foi um pioneiro que passou seus últimos anos de vida divulgando sua concepção do teatro como um espaço com oportunidades iguais para profissionais e amadores. "Acho que qualquer um pode fazer teatro", dizia ele. "Até mesmo os atores. E pode-se fazer teatro em qualquer lugar. Até mesmo no teatro."

Isso não quer dizer que ele desdenhava as formas convencionais ou o teatro profissional. Na verdade, Boal dirigiu obras de Shakespeare e outras peças durante sua carreira. Mas ele almejava mais do que o convencional. Em uma entrevista à televisão em 2005, Boal mencionou que, em "Hamlet", Shakespeare diz que o teatro é um espelho da vida.

"Acho isso muito bonito", disse Boal. "Mas eu gostaria de ter um espelho mágico no qual, se não gostamos da imagem que temos na nossa frente, podemos entrar e transformar nossa imagem, para depois voltar com a imagem transformada."

(Tradução: Eloise De Vylder)

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