A equação da imprensa

David Carr

Então tudo se resume a isso: até o presidente dos Estados Unidos sente pena dos jornalistas.

Todo presidente elogia a imprensa livre durante o jantar dos correspondentes da Casa Branca. Mas no jantar deste ano, que aconteceu em uma noite de sábado, a admiração do presidente Barack Obama parecia mesclada a um pouco de pena. "Um governo sem uma imprensa livre e enérgica de todos os tipos não é uma opção para os Estados Unidos da América", disse ele.

Isso dói. Talvez na semana que vem, os três setores do governo possam colaborar com a liquidação e queima de estoque cuja receita salvará o jornalismo.

O jantar foi o segundo evento da semana passada no qual representantes da mídia dividiram a mesa com políticos. O primeiro foi uma audiência convocada pelo senador John Kerry na quarta-feira para discutir soluções possíveis para todo o setor. Foi o tipo de sessão que deveria resultar em uma cobertura áspera por parte dos repórteres mais críticos, exceto pelo fato de que o setor em pauta era a própria imprensa.

Dada a aparente disposição do governo de ajudar os setores atingidos pela crise, talvez parecesse razoável procurar alguma forma de alívio para as dificuldades da imprensa. James M. Moroney III, vice-presidente-executivo do A.H., belo e editor do jornal "The Dallas Morning News" também compareceu, sugerindo ao comitê do Senado que os prejuízos dos últimos anos deveriam ser colocados lado a lado com os lucros dos anos anteriores, garantindo um tratamento especial para o setor na forma de uma redução nos impostos.

Durante a reunião, Moroney sugeriu que o governo deveria aprovar uma legislação que garantisse aos jornais "compensações razoáveis" por parte das empresas de internet que reproduzem seu conteúdo sem pagar por isso.

O senador Benjamin L. Cardin, democrata de Maryland, entrou com um projeto de lei chamado Ato de Revitalização dos Jornais, que trataria os jornais como entidades sem fins lucrativos com um tipo de situação fiscal semelhante à de igrejas, hospitais e redes de rádio e televisão públicas. Em troca da posição mais privilegiada do país, o setor abriria mão de algo que parece ser um dos fundamentos da imprensa verdadeiramente livre: o direito de apoiar candidatos ao governo.

Sou a favor de os jornalistas terem uma participação ativa no Capitólio, principalmente agora que metade dos repórteres que costumavam circular por lá sumiram, deixando boa parte do governo por conta própria. Mas deixar que o setor peça esmola para o mesmo governo que fiscaliza parece algo desesperado e temerário: uma cura que pode ser pior do que a doença.

Ninguém está dizendo que a situação é não é desesperadora. Apesar de Marissa Mayer, vice-presidente da Google, ter dito calmamente aos senadores do comitê liderado por John Kerry que "ainda é muito cedo", sabemos que não é bem assim. Nos últimos seis meses, cinco das maiores empresas jornalísticas dos EUA declararam falência.

Mas como é que isso pode se tornar um item na agenda de um governo eleito? Apesar de toda a estima que temos por nós mesmos, é difícil elaborar um argumento econômico racional para garantir favores especiais para uma parte relativamente pequena da economia norte-americana.

Alan D. Mutter, dono do blog Reflections of a Newsosaur [algo como "Reflexões de um Noticiossauro"], observou que, juntos, os jornais "empregam apenas 0,2% da força de trabalho do país e geram apenas 0,36% do PIB".

Em outras palavras, não somos, como os banqueiros e a indústria automobilística que cobrimos com tanta ferocidade, grandes o suficiente. Ninguém no comitê mencionou isso, mas será que não cabia à imprensa, no tempo das vacas gordas, usar seus lucros para investir em seus negócios e sobreviver a uma crise que já vinha se anunciando por mais de uma década? E não foi a própria imprensa que correu para os braços dos incorporadores da internet e agora pede uma intervenção do governo para o que mais parece uma negociação que deu errado?

Steve Coll, ex-gerente editorial do jornal "The Washington Post", que hoje escreve para o "The New Yorker", sugeriu que o Congresso deveria reduzir as restrições às instituições jornalísticas que querem se transformar em entidades sem fins lucrativos e começar a substituir a capacidade de reportagem perdida com a crise financiando o fortalecimento da Corporação para a Imprensa Pública (CIP).

Depois de assistir ao governo anterior tratar a CIP como um brinquedo, é difícil imaginar que o governo norte-americano faria um trabalho melhor do que muitos outros veículos de imprensa controlados pelo Estado em todo o mundo.

Grandes publicações e grandes jornalistas foram atingidos duramente pela crise atual, mas ninguém - nem mesmo o governo norte-americano, ou principalmente ele - pode nos devolver a uma época em que os interesses econômicos da imprensa e o interesse geral da população estavam perfeitamente alinhados.

Ajudas do governo, incluindo uma situação fiscal especial, poderão matar o jornalismo independente, e não salvá-lo. Uma imprensa livre que serve ao bel prazer do governo é uma diminuição das intenções de seus fundadores, e não uma imprensa livre.

David Simon, antigo repórter do jornal "The Baltimore Sun" e criador de séries de televisão como "The Wire", resumiu assim a situação quando falou ao microfone:

"O jornalismo de excelência pode e deve morder qualquer mão que tente alimentá-lo", disse. "E deve morder a mão do governo com mais força ainda."

Tradução: Eloise De Vylder

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