Marcela Sanchez: Difamando Sotomayor

Marcela Sanchez*

No sábado, 30 de maio, um homem de 48 anos de Nova York, telefonou para os serviços de emergência da cidade e disse que pretendia "explodir" a juiza Sonia Sotomayor, a indicada pelo presidente Obama à Suprema Corte. A polícia prendeu o homem e o enviou ao Hospital Bellevue para avaliação psiquiátrica, onde permanece até o momento.

Apesar de uma ameaça como esta não ter sido anteriormente informada, ela não seria incomum para latinos proeminentes e organizações latinas, ambos alvos frequentes do que se transformou em um tipo de racismo bastante escancarado e extremamente feio.

Na sede em Washington do Conselho Nacional de La Raza, um grupo de defesa hispânico, as evidências chegam com a pontualidade de um relógio. Sempre que os críticos mais duros da organização a mencionam na mídia, o número de telefonemas e e-mail desagradáveis dispara. No ano passado, um homem foi condenado na Carolina do Norte por enviar por e-mail uma ameaça de morte aos membros do La Raza.

"Eu nunca vi tamanha aceitação popular do tipo de retórica antilatina como a vista agora", disse Frank Sharry, o fundador da Voz da América, a campanha de comunicação que promove a reforma da imigração. Os latinos são chamados de criminosos, portadores de doenças e uma ameaça ao país, e poucos rejeitam as acusações, ele disse.

É claro, aqueles que destilam veneno insistem que não têm nada contra os latinos como pessoas, que seus alvos são os imigrantes ilegais, e que o único interesse deles é preservar a regra da lei. Mas a facilidade com que muitos destes comentaristas redirecionaram sua retórica contra Sotomayor revelou sua verdadeira intolerância étnica.

Em uma entrevista na "CNN", Tom Tancredo, um ex-deputado republicano e candidato presidencial que concorreu com uma plataforma anti-imigração, chamou Sotomayor de "racista" devido à sua antiga afiliação ao La Raza, que ele chamou de "Ku Klux Klan latina sem os capuzes ou nós de forca".

Mark Krikorian, o diretor executivo do Centro para Estudos da Imigração, questionou sua "assimilação" aos Estados Unidos em um texto postado no blog do site do "National Review", pelo fato dela "acentuar a pronúncia da sílaba final de Sotomayor não ser natural em inglês".

Mais recentemente, uma comentarista conservadora chamada Debbie Schlussel afirmou que Sotomayor foi escolhida apenas por ser descendente de porto-riquenhos e crescido na pobreza no Bronx, Nova York. A comentarista decidiu começar a se referir a ele como "ministra J-Lo".

Sob a maioria das circunstâncias, nós todos ficaríamos melhor ignorando esta exibição de ignorância e falta de civilidade. Afinal, se este é o máximo que as pessoas podem criticá-la, Sotomayor será facilmente confirmada pelo Senado e este capítulo feio será rapidamente esquecido.

Mas os ataques satanizadores e difamadores têm consequências muito além da possibilidade dos eleitores latinos poderem rejeitar o Partido Republicano.

Em uma pesquisa feita pela Bendixen and Associates divulgada no mês passado, quase dois em três latinos disseram acreditar que a retórica anti-imigrantes aumenta a discriminação contra todos os latinos nos Estados Unidos. Além disso, três entre quatro concordaram que as crenças anti-imigrantes estão se tornando mais comuns.

Diante destes resultados, não causa surpresa o fato dos dados de crimes federais mostrarem um aumento de 40% nos ataques contra latinos entre 2003 e 2007. John Amaya, um advogado do Fundo de Defesa Legal e Educacional Mexicano-Americano, disse que "está constatado que há correlação entre o calor do debate acerca da imigração e a violência". Amaya disse que este clima também promove impunidade, já que muitos latinos temem denunciar os ataques de que são vítimas.

"Muito poucas pessoas são inspiradas diretamente a cometer crimes de ódio por retórica de ódio", disse Phyllis Gerstenfeld, a presidente do departamento de justiça criminal da Universidade Estadual da Califórnia, em Stanislaus. Ainda assim, ela acha que a retórica cria "um clima geral no qual é OK atacar certas pessoas".

Durante sua audiência de confirmação no Senado, Sotomayor provavelmente enfrentará uma linha de questionamento muito mais civilizada. Àquela altura, ela poderá dizer que lamenta ter depreciado a sabedoria dos homens brancos em um discurso agora famoso de 2001, na Universidade da Califórnia, em Berkeley -uma apologia difícil de ser feita durante a atual campanha de difamação.

E quem sabe, talvez no final deste processo, mais pessoas no país rejeitarão os absurdos ditos contra Sotomayor. Talvez mais pessoas perceberão que os latinos são diversos -alguns são imigrantes (apesar de muitos não serem); alguns falam espanhol e pronunciam seus nomes de acordo; mas todos têm o direito de ser respeitados.

O potencial de uma melhoria como esta é um poderoso motivo secundário para os latinos, o segmento da população americana que cresce mais rapidamente, deverem ser gratos pela indicação de Sotomayor.

*Marcela Sanchez é uma jornalista sediada em Washington desde o início dos anos 90. Suas colunas são distribuídas para vários jornais há mais de seis anos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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