Marcela Sanchez: Um pedido para o combate às armas ilegais nas Américas

Marcela Sanchez

O presidente do México, Felipe Calderón, parece estar perdendo sua batalha contra o crime organizado. Nos últimos dois anos e meio, a violência do crime custou as vidas de 12 mil pessoas e agora até mesmo alguns membros do próprio partido de Calderón estão questionando a resposta do presidente ao problema.

Barack Obama provavelmente reforçará seu apoio a Calderón durante a cúpula norte-americana em Guadalajara, México, em 9 e 10 de agosto, onde se encontrará com Calderón e com o primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper. O encontro de cúpula também fornecerá a Obama uma oportunidade de reassumir o compromisso dos Estados Unidos com o combate mais amplo contra o tráfico ilegal de armas.

A proliferação de armas ilegais é atualmente uma grande preocupação entre os líderes latino-americanos. Armas leves e pequenas não estão sendo distribuídas apenas ao crime organizado no México, mas também para gangues e guerrilheiros na América do Sul e Central.

Em nenhum outro lugar essas armas são mais letais. Apesar da América do Sul contar com 14% da população mundial, ela sofre com cerca de 40% de todos os homicídios com arma de fogo, segundo um recente relatório do projeto Pesquisa de Armas Leves, com sede em Genebra. Um relatório de 2004 da organização acrescenta que, em toda a região, a taxa desses homicídios é "cinco vezes maior do que a média mundial".

Felizmente, a ofensiva de Calderón provocou uma cooperação sem precedente entre as agências de manutenção da lei americanas e mexicanas. Agora, quando as autoridades mexicanas apreendem uma arma usada em um crime e determinam que ela veio dos Estados Unidos, elas notificam o Birô de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos americano. Graças a este compartilhamento de informação, mais de 1.400 réus foram processados nos tribunais americanos por crimes envolvendo mais de 12 mil armas de fogo.

A cooperação aumentará ainda mais por meio da Iniciativa Mérida, um pacote de três anos de assistência antidrogas, no valor de US$ 1,6 bilhão, para o México e a América Central, que George W. Bush deu início no ano passado e Obama agora está dando continuidade. No final de 2009, as autoridades mexicanas deverão ter acesso a uma versão em espanhol do sistema de rastreamento de armas do Birô de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos. Um recente relatório do Departamento de Justiça americano disse que o sistema dará à polícia mexicana "um melhor quadro das rotas de tráfico de armas de fogo, tendências e organizações em ambos os países".

Pela primeira vez, os Estados Unidos estão começando a controlar o volume de armas traficadas pelo Rio Grande. Mas o Departamento de Segurança Interna acredita que a maioria das armas usadas pelos criminosos no México vem de outras fontes que não os Estados Unidos.

Nós sabemos, por exemplo, que os cartéis das drogas mexicanos estão usando armas que não são obtidas facilmente nos Estados Unidos. Um depósito de armas apreendido no ano passado no México incluia granadas, vários lançadores de granadas e um lançador de foguete antitanque. "Não dá para comprar legalmente um míssil antitanque em uma loja de armas americana", disse Matt Schroeder, um especialista em armas da Federação dos Cientistas Americanos, com sede em Washington. "E eu duvido que muitas granadas sejam roubadas de depósitos americanos."

Se não vêm dos Estados Unidos, então de onde? A Guatemala é uma provável suspeita. A Pesquisa de Armas Leves classifica a Guatemala, a vizinha do México ao sul, como "o país mais altamente armado" da América Central, com pelo menos 1,5 milhão de armas ilegais em circulação.

Outra possível fonte é a Venezuela, devido ao retrospecto notoriamente ruim do país de monitoramento de armas. Os colombianos há muito sabem que as armas usadas pelas forças guerrilheiras entram pela fronteira que o país compartilha com a Venezuela.

De fato, o mais recente impasse diplomático entre a Colômbia e a Venezuela ocorreu devido à posse pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia de lançadores de foguete antitanque de fabricação sueca comprados pela Venezuela. Alguns especialistas se perguntam quando as organizações criminosas adquirirão alguns dos novos e altamente sofisticados mísseis antiaéreos portáteis russos, comprados recentemente pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Há, é claro, outros vazamentos de armas na região. Em 2001, milhares de rifles pertencentes ao exército da Nicarágua foram enviados para as Forças Unidas de Autodefesa da Colômbia. Mas os indivíduos ligados ao caso não puderam ser processados, porque estavam na Guatemala e no Panamá e nenhum país possuia lei para combater o tráfico ilegal de armas entre fronteiras.

Os Estados Unidos devem retomar a liderança nesta área e demonstrar sua seriedade ao cumprirem plenamente os acordos internacionais. Para começar, os Estados Unidos devem finalmente ratificar a "Convenção Interamericana Contra a Fabricação Ilícita e Tráfico de Armas de Fogo, Munição, Explosivos e Outros Materiais Relacionados", que foi apresentada em 1998.

O próximo passo, segundo Bruce M. Bagley, um especialista veterano em tráfico de drogas e segurança da Universidade de Miami, seria na esfera global, com os Estados Unidos apoiando um tratado da ONU para armas leves. Antes, disse Bagley, os Estados Unidos foram "os principais oponentes" desse tratado.

Os pedidos para uma trégua no México são compreensíveis. Mas a coexistência com o crime organizado não é uma opção. "Se recuar, eles ficarão mais fortes", disse Bagley. "Eles não irão embora."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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