Marcela Sanchez: Norte-americanos vão ao médico no estrangeiro para economizar

Marcela Sanchez

Como cidadã americana naturalizada há quase quatro anos, eu não costumo me preocupar com questões de assimilação -eu geralmente me sinto em casa. Fora querer visitar minha família e amigos, há apenas um motivo para às vezes eu querer voltar para meu país natal: o atendimento de saúde.

Por que precisamos da reforma do sistema de saúde

Alex Brandon/AP
É disso que trata a reforma. Se você não tem plano de saúde, você finalmente terá opções de custo acessível e de qualidade assim que aprovarmos a reforma. Se você tem plano de saúde, nós asseguraremos que nenhuma seguradora ou burocrata do governo fique entre você e o atendimento que você precisa. Se você gosta de seu médico, você poderá consultar seu médico. Se você gosta do seu plano de saúde, você poderá manter seu plano de saúde. Você não terá que esperar em filas. Não se trata de colocar o governo encarregado do seu plano de saúde. Eu não acredito que ninguém deve ficar encarregado de suas decisões de atendimento de saúde exceto você e seu médico -não burocratas do governo, nem seguradoras

Barack Obama, em artigo no NYT
Não me entenda mal. Eu estou convencida de que o atendimento de saúde nos Estados Unidos é excepcional -mas também é excepcionalmente caro. Como muitos dos meus amigos imigrantes, eu percebi que, mesmo somando a passagem aérea e outras despesas, conseguir atendimento médico no meu país natal pode ser milhares de dólares mais barato.

Essa compreensão não é exclusiva dos imigrantes. Diante da alta constante dos custos do atendimento de saúde e de maiores despesas dedutíveis, os americanos estão fazendo mais pesquisa e descobrindo que procedimentos como uma substituição de joelho, por exemplo, que custa mais de US$ 40 mil nos Estados Unidos, pode ser feita por menos de US$ 9 mil na Índia. Em muitos casos, esses pacientes pró-ativos conseguem negociar com seus planos de saúde, economizando tanto para a seguradora quanto para o segurado.

Segundo a consultoria Deloitte LLP, 750 mil cidadãos americanos viajaram para o exterior para atendimento médico em 2007. Neste ano, a empresa estima que o número será próximo de 1,2 milhão, e 1,6 milhão no próximo ano.

Para os imigrantes, custos mais baixos não são o único apelo. Elmer Huerta, um oncologista do Peru, popular entre os latinos da área de Washington, D.C., chama isso de "empatia cultural". Além das barreiras de linguagem, explicou Huerta, os imigrantes latinos valorizam um tipo de atendimento mais personalizado: médicos que são mais acessíveis, mais dispostos a fornecer orientação em vez de simplesmente apresentar uma lista de opções.

No atual debate sobre a reforma do sistema de saúde americano, a questão da imigração está sendo usada para distorcer fatos e instigar o medo irracional, visando principalmente minar o esforço. Uma ideia errada é a de que os imigrantes ilegais acabarão recebendo atendimento de saúde gratuito.

A verdade é que nem a Casa Branca e nem o Congresso estão considerando a inclusão de imigrantes sem documentos no novo plano. Os projetos de lei tanto da Câmara quanto do Senado negam explicitamente quaisquer subsídios para pessoas que estejam vivendo no país ilegalmente. Na verdade, a principal preocupação dos defensores dos imigrantes é a de que mesmo os imigrantes legais não terão direito a assistência federal em planos de saúde, caso estejam vivendo nos Estados Unidos há menos de cinco anos.

Sem causar surpresa, alguns são fortemente contrários à ideia de promover soluções de atendimento de saúde no exterior. A alternativa para uma falta de atendimento "não deve ser uma viagem de 1.600 quilômetros", disse Jennifer Ng'andu, vice-diretora do Projeto de Política de Saúde do Conselho Nacional de la Raza, uma organização de defesa e direitos civis latinos. "Ela deveria estar bem aqui, em casa."

Mas permanece o fato de que, por anos, pessoas nascidas no exterior que vivem neste país têm encontrado uma alternativa estrangeira atraente.

"Nós temos indivíduos que já estabeleceram um padrão de viagem para atendimento, porque atende suas necessidades culturais e de comunicação", disse Ana Andrade, vice-presidente de programas latinos da Health Net da Califórnia. Em 2000, a empresa lançou a Salud con Health Net, que oferece aos moradores da Califórnia a opção de receber atendimento no México. "Ao expandir as opções de serviço", ela disse, "nós estamos atendendo uma necessidade que existe e que aumenta o atendimento e melhora a saúde desses indivíduos".

Na Health Net, o custo médio de segurar uma família de quatro, cujo tratamento ocorre principalmente nos Estados Unidos, é de US$ 990 por mês. Se forem tratados por médicos no México, o custo médio é de US$ 606 por mês. Se parentes adicionais viverem no México, eles também podem ser cobertos pela mesma apólice.

Desde 1972, a Western Growers oferece benefícios semelhantes para milhares de produtores rurais na Califórnia e Arizona. Organizada como uma cooperativa sem fins lucrativos, a associação inclui atualmente 200 médicos e 12 hospitais em sua rede provedora mexicana.

Esses programas são geograficamente limitados. Mas segundo Paul Keckley, diretor executivo do Centro Deloitte para Soluções de Saúde e autor do relatório "Turismo Médico, Consumidores em Busca de Valor", mais e mais planos de saúde americanos estão começando a oferecer planos com opções de tratamento no exterior além do México.

Inicialmente, as empresas relutavam em fazê-lo, temendo criar tensão com os médicos e hospitais locais, disse Keckley em uma entrevista. Mas a oferta dessas planos de atendimento tem crescido constantemente em resposta à demanda por indivíduos e empregadores.

Se a meta final é a de que a maioria das pessoas deste país tenham acesso a atendimento de saúde bom e de custo acessível, um plano que ofereça opção de tratamento no exterior faz muito sentido -e pode, de fato, vender-se sozinho.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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