Marcela Sanchez: O sentido de um show

Marcela Sanchez

No início do século 19, Ludwig van Beethoven começou a compor uma sinfonia que pretendia dedicar a Napoleão Bonaparte, herói da Revolução Francesa. Contudo, quando soube que Napoleão tinha se coroado imperador, Beethoven furiosamente riscou o título da composição, "Sinfonia Bonaparte" e substituiu-o por "Sinfonia Eroica, composta per festeggiare il sovvenire d'um grand'uomo" -sinfonia heroica, composta para celebrar a memória de um grande homem. Aos olhos do compositor, Napoleão morrera.

A Terceira Sinfonia de Beethoven não depôs Napoleão, é claro. A obra, contudo, revolucionou a música sinfônica e iniciou o romantismo musical. Nos últimos dois séculos, moveu e inspirou milhões de pessoas com sua beleza e profundidade.

A história ilustra como a arte pode transcender a política -algo que vale lembrar diante da atual controvérsia em torno do astro pop colombiano Juan Esteban Aristizabal, conhecido como Juanes.

O vencedor do Grammy Latino pela 17ª vez nunca se esquivou de questões sociais: suas músicas há muito ajudam a aumentar a consciência global para o conflito interno da Colômbia, particularmente para a praga das minas terrestres. No ano passado, ele se apresentou ao longo da fronteira da Venezuela com a Colômbia, na esperança de promover maior compreensão e solidariedade entre dois povos cujos atuais líderes não se dão.

Desde que anunciou seu plano de promover um show em nome da paz em Havana no dia 20 de setembro, Juanes tem sido amplamente criticado e chegou a receber uma ameaça de morte. Exilados cubanos radicais estão revoltados que Juanes pense em se apresentar em Cuba -especialmente na Plaza de La Revolucion, onde o Partido Comunista faz seus comícios.

O show, dizem os críticos, serve apenas para legitimar o regime comunista de 50 anos e seu tema de "paz" é uma alienação. O que Cuba realmente precisa é de um "concerto para a democracia, em defesa das liberdades civis individuais, pela liberação dos prisioneiros políticos, por eleições livres e pela expulsão dos ditadores", de acordo com a escritora cubana Zoe Valdes.

A controvérsia dominou a mídia em língua espanhola. CDs de Juanes foram queimados nas ruas de Miami. O Grupo de Estudo de Cuba até contratou uma pesquisa no Sul da Flórida para avaliar o que os cubanos americanos achavam do evento.

Muitos artistas proeminentes, políticos e ativistas emitiram declarações em apoio ao show. Mais recentemente, um grupo de dissidentes presos na ilha disse que era uma "grande oportunidade" para a reconciliação entre todos os cubanos.

Aldo Civico, diretor do Centro de Resolução de Conflitos Internacionais da Universidade de Columbia e assessor de Juanes, acredita que é precisamente esse tipo de mensagem que o cantor quer transmitir: "Que além de nossas diferenças políticas, somos um único povo."

Apesar de toda a importância que defensores e críticos estão dando ao evento, apesar de quanto o relacionam com suas mais altas aspirações ou piores temores, o fato é que é apenas um show. De verdadeiro interesse político foram as mudanças em Washington que o tornaram possível.

Como colombiano, Juanes tem liberdade de viajar para Cuba. Já outros músicos e membros da produção envolvidos no show são cidadãos americanos e exigem permissão especial do governo norte-americano -o que teria sido quase impossível de obter durante o governo Bush.

O governo Obama, contudo, tornou claro que favorece tais conexões interpessoais. Até o mês passado, o Departamento do Tesouro tinha concedido o mesmo número de licenças para apresentações públicas em Cuba quanto em todo o ano de 2008, e mais cubanos tiveram permissão para entrar nos EUA. A secretária de Estado Hillary Clinton defende o show e, de acordo com Civico, ela até brincou durante o jantar com Juanes que desejava que pudesse ligar para ele toda vez que houvesse alguma briga de fronteira para ser resolvida.

Louis Head, que trabalhou décadas para promover a cultura cubana nos EUA, acredita que o show de Juanes está apenas começando. Em uma entrevista de Albuquerque, Head, que trabalha para a organização sem fins lucrativos US-Cuba Cultural Exchange, disse que eles "estão realmente esperançosos com a forma que o governo Obama está avançando".

Apesar do show possivelmente transmitir uma mensagem política, Juanes não é político, e esperar mais dele não teria sentido. Sua contribuição, assim como no show Colômbia-Venezuela, será ajudar as pessoas a se sentirem bem.

É exatamente isso que Zarin Mehta, presidente da Filarmônica de Nova York, aspira fazer quando a orquestra sinfônica dos EUA for a Cuba no final de outubro. "Queremos simplesmente ir e tocar e deixar os outros se preocuparem com a política", disse ele. "Isso é problema deles."

Tradução: Deborah Weinberg

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