Marcela Sanchez: América Latina tem uma rota estreita pela frente

Marcela Sanchez

Se pudesse, a América Latina daria um tapinha nas próprias costas.
Analistas de instituições públicas e privadas, especialistas políticos e econômicos, todos parecem concordar: uma combinação incomum de intervenções governamentais e reformas pró-mercado adotadas na América Latina desde meados da década de noventa permitiu que a região enfrentasse bem a pior recessão global dos últimos 80 anos. Nada mal, considerando-se que a América Latina é vista por muitos como a região mais econômica e financeiramente volátil do mundo.

Neste ano, o produto interno bruto médio da América Latina e do Caribe sofrerá uma queda de cerca de 2,5%, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). A queda, modesta em comparação àquela amargada pelas nações mais industrializadas, será provocada em grande parte pela contração econômica do México, de mais de 7%. No ano que vem, com o Peru e o Brasil liderando a recuperação, o crescimento do produto interno bruto da região deverá saltar para 3% - mais de um ponto percentual acima do crescimento médio das nações mais ricas.

Mas mesmo se a América Latina retornar aos níveis recordes de crescimento exibidos pela região nos últimos anos, a prosperidade está ainda distante. O crescimento foi alto para os padrões latino-americanos, mas a renda per capita ainda não cresceu significativamente. Na verdade, quando comparados aos habitantes de outras regiões do mundo, os latino-americanos estão em uma situação pior do que aquela em que se encontravam 30 anos atrás.

Com a exceção do Chile e do Brasil, as rendas individuais em toda a América Latina em 2005 ficaram atrás não só daquelas das economias mais avançadas do mundo, mas também de economias de mercado emergente em patamares similares de desenvolvimento social, segundo o mais recente livro do Centro para o Desenvolvimento Global - uma instituição com sede em Washington -, "Growing Pains in Latin America" ("Dores Crescentes na América Latina"). Em 1975, por exemplo, países como Argentina, México e Venezuela apresentavam rendas per capita médias bem superiores às de outros países em estado similar de desenvolvimento. Em 2005, a renda per capita do México caíra para apenas um pouco acima da média, enquanto a da Argentina e a da Venezuela despencaram para bem abaixo.

"A América Latina não chegará a lugar algum se não crescer muito", afirmou em uma entrevista a editora e principal autora do livro, Liliana Rojas-Suarez. "Quando se tem uma torta pequena, não importa em quantos pedaços a dividamos, ela continuará sendo uma torta pequena".

No atual período pós-crise, o comércio deverá ser uma das melhores opções da América Latina - ou mesmo a única opção - para que a torta cresça ainda mais rapidamente. Mas mesmo se a demanda por commodities como o petróleo, a soja ou o cobre retornar a níveis anteriores à crise, o comércio não será capaz de promover tal crescimento, porque a região é incapaz de competir no cenário mundial.

Parte do problema reside na educação. Apesar dos níveis recordes de investimentos em educação nos últimos anos, os estudantes na América Latina continuam apresentando um desempenho inferior à média mundial.
Isso se traduz em trabalhadores menos produtivos e em exportações menos diversificadas.

E a infraestrutura deficiente da região significa um peso adicional para as companhias, que têm que arcar com custos mais elevados e enfrentar um tempo maior para que os produtos cheguem aos mercados. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), se os portos e aeroportos da região fossem tão eficientes quanto os dos Estados Unidos, e se houvesse maior competição entre os fornecedores de serviços de transporte, os custos com transportes seriam 30% menores. Porém, os investimentos em infraestrutura na América Latina equivalem, em média, a 2% do produto interno bruto - enquanto que, a China, por exemplo, investe 9%, segundo Antoni Estevadeordal, diretor de integração comércio do BID.

Além do mais, as tentativas governamentais de melhorar a competitividade - para não mencionar as iniciativas para obter novos acordos comerciais - exigem uma considerável vontade política, que poucos na região são capazes de demonstrar neste momento. No mês passado, o presidente mexicano Felipe Calderón pediu ao Congresso do seu país que aprovasse legislações que implicariam em mudanças radicais em vários setores, incluindo educação, serviços públicos e trabalho. Mas poucos acreditam que Calderón encontrará muito apoio político para quaisquer dessas medidas, embora seja muito necessário que a indústria mexicana se torne competitiva e que as exportações do país sejam mais diversificadas. Cerca de 80% das exportações mexicanas seguem para os Estados Unidos, de forma que o México foi mais duramente atingido do que qualquer outro país latino-americano pela recessão global. Mas, conforme diz o embaixador mexicano Arturo Sarukhan, "com a exceção dos bebês, ninguém gosta de mudanças".

De fato, conforme Rojas-Suarez enfatiza no seu livro, neste momento a América Latina está avessa a reformas, o que é uma consequência da sua "combinação única que consiste em ser a região mais democrática e mais desigual do mundo".

Com um crescimento econômico pífio e uma sensação generalizada de que os benefícios têm sido injustamente distribuídos, o descontentamento com as reformas econômicas é generalizado na América Latina. Isso só resulta que as condições políticas sejam mais inóspitas para novas reformas, e faz com que muitos países sejam tomados por uma espécie de paralisia.

Na verdade, essa paralisia não se restringe à América Latina. Ao se considerar que a Rodada Doha de Desenvolvimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) para a liberalização comercial está parada há 14 meses, e que o acordo de livre comércio entre Estados Unidos e Colômbia encontra-se empacado no Congresso norte-americano há quase 16 meses, as perspectivas de aumento da integração não parecem muito boas.

Entretanto, os especialistas estão apontando para a Ásia como a nova fronteira comercial para a América Latina. Se isso for verdade, a América Latina tem uma longa jornada pela frente para que possa tirar vantagem disso. Para os líderes regionais, o primeiro desafio será convencer os cidadãos de que uma nova rodada de reformas é melhor do que não promover reforma alguma.

(Marcela Sanchez é jornalista residente em Washington desde o início da década de noventa, e colunista há mais de seis anos).

Tradução: UOL L

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