Marcela Sanchez: Congressista dos EUA faz apelo desesperado para não mudar nada em Cuba

Marcela Sanchez*

Se existia alguma dúvida de que estes são tempos de desespero para os indivíduos anti-Castro de linha dura, a deputada Ileana Ros-Lehtinen deixou as coisas claras de uma vez por toda.

Ros-Lehtinen, a mais importante parlamentar republicana do Comitê de Assuntos Externos da Câmara, quis nos fazer acreditar que a suspensão da proibição de viagens a Cuba, imposta em 1961, representaria de alguma forma uma grande ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. Como? Transformando Cuba em um refúgio para criminosos e permitindo que o regime de Castro transformasse turistas em traidores.

Ela forneceu dois exemplos na reunião de 18 de novembro último: a fugitiva norte-americana Joanne Chesimard, que fugiu para Cuba há mais de 20 anos, após ser condenada pelo assassinato de um policial estadual de Nova Jersey; e Ana Belen Montes, que foi condenada por espionar para Cuba em 2002.

Em uma tentativa de reforçar o seu argumento, a congressista deixou de mencionar que os cubano-americanos já podem viajar para a ilha quando quiserem, e que qualquer estadunidense pode viajar para a Coreia do Norte, o Irã, o Afeganistão, enfim, para qualquer país do mundo, menos Cuba.

Não é de se admirar que a maioria dos norte-americanos esteja cansada desses argumentos exagerados e da postura generalizada de linha dura em relação a Cuba. Segundo uma pesquisa divulgada pela WorldPublicOpinion.org em abril, 70% dos norte-americanos apoiam as viagens a Cuba e 69% são favoráveis ao restabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Ainda mais sintomático é o fato de que 59% dos cubano-americanos entrevistados em uma pesquisa da Bendixen & Associates em setembro passado mostraram-se favoráveis à suspensão da proibição de viagens a Cuba - um aumento de 13% em relação a 2002.

Em 2003, uma legislação no sentido de suspender a proibição foi aprovada tanto na Câmara controlada pelos republicanos quanto no Senado. Mas antes que o presidente Bush pudesse cumprir a sua promessa de vetar a legislação - e, portanto, garantir para si os votos dos cubano-americanos da Flórida -, o líder da maioria na Câmara, Tom DeLay, liquidou a medida a portas fechadas.

O presidente Obama tem para com os elementos de linha dura anti-Castro uma dívida política muito menor do que qualquer um dos seus antecessores nas últimas décadas, e ele já fez alguns pequenos gestos no sentido de suavizar a política dos Estados Unidos em relação a Cuba. Segundo Dan Erikson, especialista em Cuba da Inter-American Dialogue, e autor do livro "The Cuba Wars" ("As Guerras de Cuba"), Obama de fato "daria um suspiro de alívio" se a última legislação, a Lei de Liberdade de Viagem para Cuba, ou algo similar fosse aprovada. Isso permitiria que Obama exibisse progressos quanto à sua promessa de "conferir às relações entre Estados Unidos e Cuba uma nova direção", deixando que, enquanto isso, o Congresso assumisse essa briga.

Erikson acredita que a legislação provavelmente será aprovada na Câmara, mas poderá ficar estancada no Senado. O maior obstáculo existente é o democrata Robert Menendez, de Nova Jersey, filho de imigrantes cubanos e apoiador antigo da proibição. Segundo um novo relatório da Public Campaign, uma organização sem fins lucrativos que defende a reforma do sistema financeiro, Menendez arrecadou quase US$ 150 mil (R$ 260 mil) neste ano junto a elementos de linha dura anti-Castro para o Comitê de Campanha Senatorial Democrata, que ele preside.

O relatório revelou que nos últimos anos esses elementos têm utilizado com frequência cada vez maior grandes doações financeiras políticas como "o último instrumento em seu arsenal" para manter intacta a atual política dos Estados Unidos em relação a Cuba. Embora eles possam ter efetivamente modificado os votos de um punhado de congressistas nos últimos anos, os seus dólares só poderão conter a mudança da opinião pública - e o poder da lógica - durante algum tempo.

Basta ver o caso de Howard L. Berman, democrata pela Califórnia e presidente do Comitê da Câmara para Assuntos Internacionais: apesar de ter recebido US$ 10 mil (R$ 17,3 mil) em contribuições de apoiadores do embargo, este congressista declarou-se favorável à suspensão da proibição das viagens a Cuba.

Em um artigo publicado em 17 de novembro no jornal "The Miami Herald", Berman e o senador Richard Lugar, o principal republicano do Comitê de Relações Externas do Senado, argumentou que a suspensão dessa proibição seria uma medida bem recebida na tentativa prolongada e frustrante de promover mudanças democráticas em Cuba. Os viajantes norte-americanos atuariam como embaixadores dos valores democráticos, escreveram os dois parlamentares, e os seus dólares "poderiam auxiliar a economia informal e o pequeno setor de trabalhadores autônomos autorizado pelo Estado, fortalecendo uma importante base para a independência do sistema autoritário cubano".

Mas, provavelmente, esse tipo de raciocínio não passa de esperança. As viagens não se constituem em uma receita mágica para promover a democracia. O turismo norte-americano não gerou democracia na China, nem o turismo europeu democratizou Cuba. Mesmo assim, já é hora de eliminar essa injustificável exceção à liberdade dos norte-americanos de viajar.

Viajar - liberdade de deslocamento - é um direito de todos os cidadãos em uma democracia. Se os Estados Unidos mantiverem esse princípio, talvez o país possa recuperar a estatura moral neste debate e trazer o foco de volta para as restrições injustificadas impostas pelo regime de Castro.

Conforme disse em uma entrevista o deputado William Delahunt, democrata por Massachusetts e co-autor da Lei de Liberdade de Viagem a Cuba: "Se quisermos falar sobre esses direitos, temos que vivenciá-los".

*Marcela Sanchez é uma jornalista sediada em Washington desde o início dos anos 90. Suas colunas são distribuídas para vários jornais há mais de seis anos.

Tradução: UOL

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