Marcela Sanchez: Para a Venezuela e a Colômbia, um novo tipo de impasse

Marcela Sanchez

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, adora uma boa briga, e no início de novembro ele dirigiu sua ira mais uma vez para a Colômbia, advertindo sobre uma guerra iminente entre os dois países. "Preparem-se para a guerra", Chávez instruiu seus comandantes militares em um pronunciamento na televisão em 8 de novembro.

Dias depois ele recuou em seus comentários, alegando que suas palavras foram manipuladas. Mas em 21 de novembro Chávez anunciou a iminente chegada de 300 tanques da Rússia e mais uma vez disse a seus seguidores que deviam se preparar para o combate.

Certamente é difícil levar Chávez a sério. Anos de suas exibições de poder ensinaram os colombianos a esquecer as bravatas e remendar as relações danificadas o suficiente para manter os negócios do dia a dia. Mas hoje a Colômbia está mais tensa do que nunca.

Chávez cumpriu sua ameaça feita em julho de cortar o comércio bilateral, uma medida que foi desastrosa para a Colômbia. A Venezuela é seu segundo maior parceiro comercial, e em setembro as exportações colombianas caíram 52%, em comparação com o mesmo mês do ano passado. Carolina Barco, embaixadora da Colômbia nos EUA, disse em uma entrevista que a perda de empregos resultante é motivo de "grave preocupação".

Chávez coloca a culpa totalmente nos EUA. Ele está aborrecido com um acordo entre os EUA e a Colômbia, que entrou em vigor em 30 de outubro, aumentando o acesso das forças norte-americanas a sete bases militares colombianas. Para resolver esse impasse, Chávez disse que os EUA precisam apenas "retirar as bases ianques".

Mas até agora a resposta dos EUA para Chávez foi muda e vaga. Membros do governo Obama pediram um diálogo aberto e se ofereceram para fazer a mediação entre a Venezuela e a Colômbia, para ajudá-las a superar suas diferenças.

Essa oferta deixa muito a desejar, no que diz respeito à Colômbia. Onde está a indignação dos EUA? Onde está o apoio inequívoco a seu maior aliado na região? Como os EUA podem atuar como mediadores quando causaram o problema, para começar? Os EUA não estão claros sobre sua posição?

O ex-presidente colombiano César Gaviria, falando recentemente em nome de seus colegas ex-presidentes e ex-autoridades de alto nível, manifestou "surpresa" diante da reação aparentemente indiferente de um país amigo. Escrevendo no jornal "El Tiempo", o colunista colombiano Enrique Santos Calderón questionou o valor da amizade dos EUA, lembrando a advertência de Henry Kissinger: "Pode ser perigoso ser inimigo dos EUA, mas ser seu amigo é fatal".

Talvez seja por bons motivos que a reação dos EUA ao conflito foi discreta. Ao parecer neutros, os EUA evitam fazer o jogo de Chávez. Os colombianos sabem muito bem que as tensões tendem a escalar quando autoridades norte-americanas reagem à retórica incendiada de Chávez - como aconteceu muitas vezes durante a presidência de George W. Bush.

Mas, como a atual disputa pode ter duras consequências econômicas, a Colômbia acha que os EUA poderiam fazer mais para recompensar sua cooperação - em outras palavras, finalmente ratificar o acordo de livre comércio EUA-Colômbia.

Os dois países iniciaram negociações para o livre comércio há mais de cinco anos. Em 2006, eles assinaram um acordo que foi emendado e reassinado no ano seguinte para refletir as preocupações dos congressistas democratas sobre direitos trabalhistas e padrões ambientais na Colômbia.

Em 2008, a politicagem em ano eleitoral apenas complicou as coisas, quando os então candidatos Barack Obama e Hillary Clinton desejavam parecer mais duros sobre negociações comerciais que "matavam empregos". Finalmente, cerca de um ano e meio atrás, a maioria democrata na Câmara dos Deputados engavetou indefinidamente o acordo EUA-Colômbia.

Hoje, autoridades do Comércio em Washington reconhecem timidamente que como 2010 é um ano de eleição para o Congresso todos os acordos comerciais provavelmente serão adiados para 2011. Barco admite essas considerações políticas internas e diz que as respeita plenamente. Mas insiste que nas atuais circunstâncias é "urgente para a Colômbia ser capaz de contar com o acordo de livre comércio com os EUA".

Ainda assim, talvez haja mais que considerações domésticas em jogo. Os EUA continuam sendo um grande apoiador da Colômbia. O programa de ajuda Plan Colombia foi implementado dez anos atrás, e US$ 6 bilhões depois continua forte. E certamente os EUA não querem desperdiçar o que pode ser sua relação mais frutuosa na região. Mas o governo Obama também tem séria relutância a fazer qualquer coisa que possa reforçar o presidente colombiano, Álvaro Uribe. O popular líder colombiano ainda não declarou se vai disputar um terceiro mandato no ano que vem, o que seria ilegal de acordo com a Constituição do país.

Os colombianos estão certos em imaginar o dia, em um futuro não muito distante, em que poderão gozar os frutos de um acordo de livre comércio com os EUA. Mas também precisam saber que a silenciosa busca de um terceiro mandato por seu líder pode prejudicar esse acordo e, de fato, as relações da Colômbia com seu aliado mais próximo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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