Marcela Sanchez: Imigração e a nova matemática política

Marcela Sanchez

Você está cansado de questões polêmicas e polarizadoras, que lançam Estados norte-americanos republicanos contra democratas e fazem com que seja impossível encontrar denominadores comuns? Bem, fique tranquilo. É hora de uma reforma da imigração ampla, bipartidária e criadora de consenso!

Sério. Tudo bem. Começar o debate agora não provocará um apocalipse, apesar do fervor dos poucos e barulhentos indivíduos que efetivamente demonizaram os imigrantes e desviaram a atenção do país da verdade sobre a imigração.

Vejam que tanto os democratas quanto os republicanos desejam consertar o sistema de imigração - e não querem fazer isso simplesmente deportando os imigrantes. Uma pesquisa de opinião feita pelo Benenson Strategy Group no início deste ano revelou que três em cada quatro entrevistados desejavam que o Congresso tomasse uma providência quanto a essa questão. A mesma pesquisa revelou que 68% dos entrevistados desejavam a criação de uma rota para que aqueles indivíduos que hoje em dia vivem ilegalmente nos Estados Unidos possam obter a cidadania. O Pew Research Center revelou um consenso similar em março e abril deste ano, em uma pesquisa na qual 63% dos entrevistados apoiaram a naturalização de imigrantes.

É preciso que nos lembremos também de que a reforma ampla da imigração não é uma ideia nova - ela foi bastante discutida nos últimos anos, e já houve acordo quando a várias questões problemáticas. De fato, em 2006 um projeto de lei de imigração amplo foi aprovado com facilidade no Senado com o voto favorável de 38 democratas, 23 republicanos e um independente.

E o presidente Obama e importantes lideranças republicanas também desejam tal reforma. Ou pelo menos foi isso o que eles disseram ao se reunirem na Casa Branca, quando Obama reconheceu os esforços dos senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham e a disposição manifestada por eles de enxergar além da "política de curto prazo".

Assim, a população, os políticos e grupos de interesse tão diversos como sindicatos trabalhistas, câmaras de comércio e comunidades religiosas desejam a reforma. Subitamente deixou de ser um absurdo dizer que agora é o "momento apropriado" para uma reforma, conforme observou recentemente Hilda Solis, a secretária do Trabalho dos Estados Unidos. Simon Rosenberg, da instituição progressista de pesquisas políticas e sociais NDN prevê que a reforma ampla da imigração contará com "mais apoio bipartidário do que qualquer legislação atualmente cogitada".

Ah, sim, você diz que o otimismo é uma coisa boa - mas não há dúvida que a economia atrapalha tudo. Com o índice de desemprego em torno de 10%, este não seria exatamente o momento errado para falar em receber de braços abertos trabalhadores estrangeiros no mercado de trabalho dos Estados Unidos?

Este é um ponto importante, e ele indica o motivo exato pelo qual algumas organizações trabalhistas têm repudiado sistematicamente a reforma da imigração. No passado, a AFL-CIO, a maior federação trabalhista dos Estados Unidos, criticou duramente um plano proposto de trabalhadores temporários. Isso assustou muitos democratas que poderiam ter apoiado tal proposta.

Mas atualmente a AFL-CIO está por trás do primeiro projeto de lei apresentado à Câmara dos Deputados nesta temporada: a Lei de Reforma Ampla de Imigração para a Segurança e a Prosperidade dos Estados Unidos, de 2009, apresentada pelo democrata Luiz Gutierrez, do Estado de Illinois. A federação apoia o projeto de lei porque, em vez de ampliar os programas de trabalhadores temporários, ele propõe que os futuros fluxos imigratórios baseiem-se nas determinações de uma comissão independente.

Mas não há dúvida que qualquer reforma ampla da imigração gerará uma oposição intensa, ou mesmo generalizada. Alguns norte-americanos continuam acreditando que os imigrantes estão lhes tomando o país. Combinem isso ao crescente ceticismo nos últimos meses quanto à capacidade do governo federal de enfrentar efetivamente problemas cruciais, e parece quase certo que o debate sobre a imigração será acalorado.

A proposta de Gutierrez também gera preocupações quanto a uma potencial cisão dentro do Partido democrata. Ao explicar os seus motivos para a apresentação do projeto de lei neste momento, Gutierrez manifestou desapontamento com a Casa Branca. ""Nós ficamos esperando que a proposta fosse abraçada pelo Congresso e pelo nosso presidente", escreveu Gutierrez no jornal "The Huffington Post" em 14 de dezembro último. "O momento para esperar acabou".

Não faz muito tempo que Rahm Emanuel, o chefe de gabinete de Obama e ex-congressista, envolveu-se diretamente com as iniciativas para paralisar uma reforma ampla da imigração na Câmara. Emanuel afirmou que fez tal coisa para proteger democratas vulneráveis em subúrbios conservadores. Mas alguns especialistas em imigração, incluindo Frank Sharry, fundador e diretor-executivo do grupo pró-imigração e de esquerda America's Voice, estão convencidos de que os cálculos políticos mudaram e de que a visão de Emanuel evoluiu com esses cálculos. Emanuel certa vez observou que um presidente democrata teria que esperar um segundo turno para enfrentar a questão da imigração. Mas Sharry prevê que a reeleição de Obama dependerá "de uma forma significante dos votos de eleitores latinos em 2012".

O cálculos políticos podem ter mudado também para os republicanos. Em uma análise das 22 batalhas eleitorais congressuais mais disputadas de 2008, a America's Voice descobriu que os vencedores em 20 delas fizeram campanha pela reforma da imigração.

Se os republicanos acreditarem, assim como muitos observadores, que o seu partido foi punido devido ao seu tom estridente anti-imigração nos últimos anos, eles poderão achar insensato se opor desta vez a uma reforma ampla.

Tradução: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos