Bebendo sangue: novas maravilhas do mundo de Alice

Larry Rohter

Em vez do País das Maravilhas (ou Wonderland, em inglês), o País Subterrâneo (Underland). Em vez de uma Alice criança, entediada mas esperta, temos uma Alice rebelde e guerreira de 19 anos, matando o monstruoso Jabberwocky com uma espada mágica. Em outras palavras, a segunda versão da Disney da fantasia de Lewis Carrol é um mundo à parte, tanto em relação à animação de 1951 quanto ao texto original da era vitoriana.

Dirigido por Tim Burton, “Alice no País das Maravilhas”, uma mistura de filme em 3D e animação que estreia na sexta-feira, pretende ser uma visão contemporânea e subversiva da aclamada história. Com a atriz australiana Mia Wasikowska, de 20 anos, que atuou na primeira temporada de “In Treatment” da HBO, no papel de Alice, o filme começa com uma proposta indesejada de casamento antes de passar para o submundo, ou Underland, onde estão Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco e Helena Bonham Carter como a Rainha de Copas.

Desde que “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e sua sequência, “Alice Através do Espelho”, foram publicadas pela primeira vez há quase 150 anos, a história de Alice foi recontada em muitas versões e muitos mídias, incluindo musical, anime, videogame e diversos filmes e adaptações para a televisão. Mas para Burton, a própria abundância e a familiaridade do material “na cultura e no subconsciente” foi um incentivo – e não um empecilho – para assumir o projeto.

“Vi quase tudo, mas para mim nunca houve uma versão que funcionasse especialmente bem, de que eu gostasse mais ou que me surpreendesse”, disse ele este mês numa entrevista por telefone desde Los Angeles. “Sempre terminavam parecendo a história de uma menininha sem noção andando por aí com um bando de esquisitos. E o fato de que não havia nenhuma versão definitiva também ajudou. A animação da Disney não era exatamente excepcional. Então não senti nenhuma pressão para fazer algo parecido ou melhor.”

Linda Woolverton, a roteirista do filme, teve uma atitude parecida. Ela disse que quando começou o roteiro, “pesquisou bastante sobre a moral vitoriana, sobre como as meninas tinham que se comportar, e então fez exatamente o contrário”. Como ela diz: “eu estava pensando mais em termos de um filme de ação e aventura com uma protagonista mulher” do que numa donzela vitoriana.

“Sinto que é muito importante mostrar mulheres fortes, com força de vontade”, acrescenta, “porque as mulheres e meninas precisam de mais modelos de comportamento, e é isso que a arte e os personagens são. As meninas que fortes têm a oportunidade de fazer suas próprias escolhas, escolhas difíceis, e determinar seu próprio caminho.”

Essa ênfase na autoestima e na elevação moral é uma característica do trabalho de Woolverton – e da própria Disney – há muito tempo. Originalmente roteirista de programas de televisão como “Ewoks”e “Teen Wolf” e também autora de alguns livros para jovens adultos, ela escreveu os roteiros de “A Bela e a Fera” e “O Rei Leão” e também contribuiu com “Mulan”, todos da Disney.

Assim, o rio de lágrimas que Alice derrama, confusa, depois de chegar ao País das Maravilhas no texto original de Carroll, foi cortado da história. “Eu não podia fazer ela se desmanchar daquele jeito”, diz Woolverton. Da mesma forma, um desenho de John Tenniel, ilustrador que trabalhou com Carroll, que mostrava um menino lutando contra o monstro Jabberwock, como antes era chamado, foi transformado numa imagem de Alice em ação.

Essa leitura de Alice, “de que as mulheres estão se virando sozinhas”, vem também com uma conclusão que parece mais inspirada em Joseph Conrad do que em Carroll. Recusando-se a casar, Alice decide mostrar sua coragem viajando para um entreposto comercial que a companhia de seu pai planeja abrir na China. País que, sob a força do exército britânico, foi obrigado a legalizar o comércio de ópio, ceder Hong Kong e permitir que seus cidadãos fossem enviados para o exterior como escravos.

“Não estamos preocupados em ser historicamente acurados num filme como este”, disse Richard D. Zanuck, um dos produtores. “É um filme de entretenimento em que a heroína parte para outra aventura no final, e, a menos que eu esteja errado, pessoas de todas as nacionalidades irão gostar dele como entretenimento, e não tentar interpretá-lo.”

A “Alice” da Disney é muito próxima de uma versão pynchonesca para um canal de ficção científica na qual Alice é uma instrutora de artes marciais que vai resgatar seu namorado que foi sequestrado pela conspiração do Coelho Branco e levado para um País das Maravilhas transformado em cassino.

Os estudiosos de Carroll dizem que novas leituras como esta e o filme de Burton não são uma surpresa, uma vez que Alice e sua história são bastante maleáveis. “Os livros são uma espécie de teste de Rorschach, uma tela em que cada um projeta suas próprias ideias”, diz Jenny Woolf, autora de “O Mistério de Lewis Carroll”, uma biografia lançada este mês. “Eles são uma espécie de história em quadrinhos verbal, cheia de personagens que, embora sejam vívidos, são pouco mais do que esboços.”

Nos anos 60, isso levou a leituras psicodélicas de Alice, exemplificadas pela música “White Rabbit” do Jefferson Airplane e por uma produção muito elogiada da BBC em 1966, dirigida por Jonathan Miler e com músicas de Ravi Shankar, que acabou de ser lançada em DVD. Nos anos 70, uma “Alice” pornográfica também foi rodada, e mais recentemente surgiu o “American Magge's Alice”, um videogame que traz uma Alice vingativa confinada a um hospício, com a possibilidade de uma sequência prevista para 2011.

“O que é de fato interessante sobre essas versões recentes é que todas elas são um pouco violentas”, diz Jan Susina, autor de “O Lugar de Lewis Carroll na Literatura Infantil” e especialista em cultura vitoriana que dá aulas na Universidade Estadual de Illinois. Ele observa que o cantor Marilyn Manson também tem um projeto de filme em andamento em que ele pretende interpretar Carroll. “Uma vez que cada geração e cultura coloca seu próprio brilho à história, isso sugere algo a respeito da nossa cultura.”

Considerado inapropriado para crianças pequenas, esta segunda versão de “Alice no País das Maravilhas” da Disney tem um tom um pouco sombrio e ameaçador, tanto no roteiro quanto na aparência, que estava ausente na versão animada. Mesmo antes de Alice se tornar uma guerreira numa batalha maniqueísta entre o bem e o mal, vestida com uma armadura e bebendo o sangue de seus inimigos derrotados para voltar ao seu estado natural, ela passa por um fosso cheio de cabeças para se infiltrar no castelo da Rainha de Copas.

“Sabe, a obra original foi considerada muito sombrio e é assustadora para muitas crianças que a leem”, disse Zanuck. “Se tivéssemos feito um filme para todos os públicos, teríamos destruído a história original. Mas você perceberá que não tem nenhum sangue, mesmo quando ela corta a cabeça do dragão no fim, e que há uma atmosfera mágica no filme.”

Apesar de Burton ter feito muitos filmes com elementos fantásticos, desde “Os Fantasmas se Divertem” (1998) e “Edward Mãos de Tesoura” (1990), “Alice” é o primeiro de seus filmes feitos para 3D. Mas diferente do atual sucesso “Avatar”, que foi filmado com câmeras 3D, Burton usou câmeras comuns durante as filmagens e depois converteu o material em 3D na fase de pós-produção.

James Cameron, diretor de “Avatar”, criticou a escolha, que pode às vezes produzir imagens que parecem mais planas e não tão nítidas quanto as conseguidas com a técnica usada em “Avatar”. Sem mencionar o nome de Cameron, Burton defendeu sua decisão.

“As pessoas podem escolher o lado que quiserem, mas eu fiz do jeito que achei que era melhor para esse projeto”, disse. “Não queríamos que esse filme levasse dez anos, e quando vi a diferença e pensei no tempo que tínhamos para fazer esse filme, não fazia sentido usar [câmeras 3D]”.

Burton também disse que vê sua versão de “Alice no País das Maravilhas” como travessa, surreal e cômica, mas essencialmente benigna. “Eu meio que saí do meu caminho normal para não fazer um filme muito sombrio”, diz ele, acrescentando que sua atitude foi: “Não vamos distorcer muito isso, vamos deixar [a história] ser o que é.”

Ao longo dos anos o impacto de “Alice no País das Maravilhas” se fez sentir em outras obras de literatura infantil que também se transformaram em filmes, desde “O Mágico de Oz” até as “Crônicas de Nárnia” de C.S. Lewis. Então não é uma surpresa tão grande que as referências a esses mundos pareçam surgir na versão feita para 2010.

“Fui influenciado por tudo isso, desde os mitos gregos até 'Nárnia' e 'O Senhor dos Aneis'”, diz Woolverton. “No final tudo se resume ao bem e o mal neste mundo, à ideia de que há pessoas que representam o positivo e outras que caíram num sistema de valores mais sombrio e mau. Isso é algo que vai para Bruno Bettelheim. Mas também acho que, quando você conta uma história que vai para uma lugar sombrio, você precisa tirar seu público de lá depois.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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