Obama e latinos depois da reforma da saúde

Marcela Sanchez

  • Doug Mills/The New York Times

    Presidente Barack Obama defende reforma da saúde em discurso em Strongsville, Ohio (EUA)

    Presidente Barack Obama defende reforma da saúde em discurso em Strongsville, Ohio (EUA)

Há razões suficientes para se pensar que o eleitorado hispânico tem muitos motivos para estar contente com o desempenho do presidente Obama em seu primeiro ano de governo.

O tema da saúde é o melhor exemplo para ilustrar isso. Antes da reforma, um em cada três latinos não tinha seguro. Graças à histórica nova lei, alguns deles se beneficiarão a partir do fim de junho, quando muitas pessoas com condições de saúde preexistentes, que não estão seguradas, ou sem recursos suficientes para pagar, contarão com novas opções de seguro. Pequenas empresas com menos de 25 trabalhadores também poderão solicitar uma redução em seus impostos, se ajudarem os funcionários a pagar a cobertura de saúde.

No campo da educação também estão se abrindo oportunidades: uma nova lei vai permitir que hispânicos com poucos recursos frequentem a universidade. Além disso, instituições que educam essa população, assim como aquelas que historicamente serviram aos negros e indígenas americanos, receberão US$ 2,55 bilhões em assistência direta.

Isto é invejável, sobretudo se levarmos em conta que a saúde e a educação tendem a aparecer entre as principais preocupações dos hispânicos. Mas em um tema crítico como a imigração o governo Obama nada fez para impressionar os hispânicos.

Até pouco tempo atrás, o chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel, parecia inclusive evitar o tema. Quando lhe perguntaram sobre a imigração e outras prioridades do governo em uma entrevista em 25 de março, Emanuel mencionou tudo: a reforma financeira, energia, o financiamento de campanhas, Iraque e Afeganistão, menos imigração.

Pode-se garantir que não foi um descuido. Emanuel sabe perfeitamente que Obama prometeu abordar a reforma migratória integral em seu primeiro ano de governo. Pior ainda, o tratamento que o governo deu às atuais leis migratórias foi menos que plausível.

Durante algum tempo, a Casa Branca esteve dizendo que mudaria as prioridades de aplicação da lei governamental e se concentraria em deportar os imigrantes ilegais considerados perigosos ou com histórico criminal violento. Embora essa mudança tenha sido inicialmente aplaudida, não pareceu durar muito. Em 27 de março, o jornal "The Washington Post" informou que as autoridades migratórias estabeleceram cotas mínimas de deportação, o que motiva agentes federais a expulsar do país trabalhadores sem documentos mesmo sem qualquer ficha criminal.

Na opinião de María Rodríguez, diretora executiva da Coalizão Imigrante da Flórida, isto é semelhante a prender "babás e jardineiros", enquanto se desperdiçam recursos que poderiam ser melhor utilizados para proteger a nação de ameaças mais sérias. Rodríguez e outros ativistas afirmam que o Serviço de Imigração e Aduana dos EUA (CIE na sigla em inglês) está fora de controle e que seu diretor, John Morton, deveria ser demitido.

A imigração é um assunto muito pessoal para os latinos. Entre os eleitores hispânicos registrados, 45% são cidadãos naturalizados, 30% têm pais imigrantes e 11% têm avós imigrantes. Em uma pesquisa divulgada recentemente pela firma Bendixen e Amandi, dois em cada três eleitores latinos registrados informaram ter um amigo, um parente, um vizinho ou um companheiro de trabalho sem documentos.

Embora a imigração não seja a única preocupação política dos latinos, tende a convocar e mobilizar a comunidade mais que outros assuntos. Foi assim em 21 de março, quando cerca de 200 mil pessoas marcharam em Washington para pressionar a favor de uma reforma migratória integral.

"A imigração é um tema de família, é um tema crucial", afirmou em uma entrevista Frank Sharry, diretor executivo do grupo pró-imigrante America’s Voice. "É por isso que 200 mil pessoas participaram [dessa manifestação], mas não o fizeram a favor da reforma da saúde", acrescentou.

A falta de ação para emendar a lei migratória ou a frustração pela forma como se fazem cumprir as leis de imigração não vão levar os latinos a unir-se ao Partido Republicano, já que este pouco fez para mudar sua reputação contra os imigrantes. No entanto, talvez os afaste das urnas.

Segundo a Latino Decisions, uma firma de pesquisas especializada no voto latino, de todos os grupos eleitorais chaves na vitória de Obama em 2008, "os eleitores latinos parecem demonstrar menos entusiasmo em torno da votação das eleições legislativas de 2010". Este mês a firma descobriu que só 49% dos eleitores hispânicos registrados afirmam estar muito entusiasmados para participar das eleições de novembro; isto é, 18 pontos percentuais abaixo do manifestado nas eleições legislativas de 2006.

Essa indiferença pode ter consequências significativas. Segundo pesquisas de boca de urna, os latinos tiveram um papel crítico na eleição de Obama. Cerca de 70% votaram nele em 2008, dando-lhe a margem de vantagem em quatro estados cruciais: Colorado, Novo México, Nevada e Flórida.

Em 2010, esse grupo poderia ter um papel maior. Segundo a Bendixen e Amandi, os latinos ocupam pelo menos um quarto de quase um em cada cinco distritos eleitorais do Congresso (79 ao todo, incluindo 54 com representantes democratas).

A população hispânica não espera que uma reforma legislativa ampla seja obtida rapidamente e considera difícil o clima político em Washington. Mas a falta de progresso na imigração continuará custando o apoio aos candidatos, tanto democratas quanto republicanos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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