Operação para consertar o telescópio Hubble vira tema de filme nos EUA

Dennis Overbye

  • NASA / Warner Brothers via The New York Times

    Em uma cena do "Hubble 3D", os astronautas Andrew J. Feustel (direita), e John M. Grunsfeld, fazem reparos no Telescópio Espacial Hubble

    Em uma cena do "Hubble 3D", os astronautas Andrew J. Feustel (direita), e John M. Grunsfeld, fazem reparos no Telescópio Espacial Hubble

O que passa pela cabeça de um astronauta quando as coisas dão errado e ele está flutuando no espaço, a mais de 560 quilômetros acima da Terra? 

No sexto dia de uma missão em maio passado, para reparar e reabilitar o Telescópio Espacial Hubble, Michael J. Massimino, um astronauta, especialista em robótica e bombeiro honorário de Nova York, estava pronto para retirar um corrimão da lateral do famoso telescópio. 

Sob o corrimão, atrás de um painel protegido por 111 parafusos minúsculos, se encontrava um espectrógrafo quebrado que necessitava de reparo eletrônico para voltar a realizar suas funções, entre as quais estudar planetas distantes. Massimino treinou por anos para realizar esta “cirurgia cerebral” em órbita, mas antes, após a remoção de um parafuso crucial, ele teve que recorrer à força bruta. 

Os pensamentos de Massimino, ele lembrou recentemente durante um almoço em Nova York, voltaram para sua infância e ao dia em que seu tio Frank não conseguia remover o filtro de óleo do seu carro. A certa altura, seu pai atravessou a rua e voltou com uma chave de fenda imensa. Ele a espetou no filtro e a usou como alavanca para removê-lo. Após fazer força e xingar, “ele finalmente fez a coisa se mover”, disse Massimino. “Foi em que pensei quando estava fazendo força no corrimão do Hubble.” 

Ele reviveu aquele momento em conversas e entrevistas no ano passado. Agora, o mundo todo também poderá acompanhar. 

Quando o Atlantis, comandado por Scott D. Altman, partiu do Cabo Canaveral, Flórida, com mais sete astronautas e milhares de quilos de ferramentas e instrumentos de reposição, ele transportou uma câmera especial IMAX de 260 quilos, que registrou toda a ação, incluindo o esforço cósmico de Massimino, em 3D. 

Em 19 de março, “Hubble 3D”, um filme de 40 minutos sobre o reparo do Hubble, dirigido por Toni Myers e com narração de Leonardo DiCaprio, estreou nos cinemas IMAX e centros de ciência por todos os Estados Unidos. 

Além do lançamento de estremecer do ônibus espacial e dos astronautas brincando na nave espacial, o filme exibe passeios pelas imagens do Hubble. Em IMAX e 3D, os cabos dos astronautas penteiam seu cabelo em algumas cenas e em outras as estrelas atingem seu rosto como gotas de uma chuva de verão. Uma cena mostra uma imagem do Hubble que eu não tinha visto antes, de um disco de poeira protoplanetária que parece um anel de cabelo, ou um ninho, cercando uma estrela recém-nascida na nebulosa de Órion –talvez o Gênese lá. 

Na última imagem do filme, em uma teia cósmica de luz formada por galáxias em grande escala, o universo parece brilhar como um cristal surgindo das sombras. 

Algumas das cenas do filme foram convertidas em 3D usando truques digitais, disse Myers, mas cerca de oito minutos foram registrados por um único rolo de filme de 1.645 metros daquela câmera no compartimento de carga do ônibus espacial, operada remotamente pelo piloto, Gregory C. Johnson. 

Registrando imagens da esquerda e direita em quadros alternados de filme correndo de lado pela câmera a 48 quadros por segundo, oito minutos era todo o tempo que podiam capturar. A equipe IMAX passou muitas horas com os membros da tripulação enquanto ensaiavam a missão em um tanque de água, para assegurar que pegariam os momentos cruciais. 

O filme resultante, disse Myers, é a culminação de 25 anos enviando câmeras IMAX em ônibus espaciais e treinando mais de 100 astronautas para operá-las. 

Transformado em uma espécie de astro da mídia pelo filme, Massimino é visto não apenas consertando o telescópio, mas também conversando com seus companheiros no espaço. Ele também tem viajado para promover o filme e recentemente soou o sino de encerramento do pregão da Bolsa de Valores de Nova York. 

Massimino nasceu em 1962 e cresceu em Franklin Square, Long Island, a cerca de três quilômetros do Queens. Filho de um inspetor do Corpo de Bombeiros de Nova York, ele é o tipo de astronauta que leva a base do batedor (de beisebol) do Shea Stadium consigo para o espaço. Sua inspiração para ingressar no programa espacial, ele disse, veio do companheirismo entre os astronautas no filme “Os Eleitos”, de 1983, baseado no livro de Tom Wolfe. 

“Algo a respeito de seus laços estreitos e de como defendiam uns aos outros chamou minha atenção”, ele lembrou. “Meu verdadeiro interesse não estava em voar, mas na camaradagem entre um grupo de pessoas, em estar lá no alto e poder ver a Terra.” 

Para entrar no programa, Massimino se matriculou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde obteve um Ph.D. em robótica em 1992. Ele entrou para a Nasa em 1996 e teve sorte em ser selecionado para a quarta missão de reparos do Hubble, em 2002, na qual realizou duas caminhadas espaciais. Ele levou consigo todo tipo de lembranças do corpo de bombeiros e da Autoridade Portuária em homenagem às vítimas dos ataques terroristas do 11 de Setembro. 

A missão de maio passado, a última ao telescópio, reuniu Massimino com parte da tripulação de 2002, incluindo Altman, que liderou a missão anterior, e o reparador veterano do Hubble, John M. Grunsfeld. Entre os deveres de Massimino estava o de se tornar a primeira pessoa a usar o Twitter do espaço. 

Realizar entrevistas em vídeo no voo foi ideia dele, ele disse, inspirado pela queixa de um tripulante de que as entrevistas individuais feitas pela Nasa eram secas demais. Nada da camaradagem e do bom humor que ele desfruta com seus colegas transparecia. “Nós somos engraçados e consertamos coisas, mas éramos retratados de um modo extremamente formal. Eu queria que as pessoas nos vissem como somos.” 

“Foi fácil fazer isso, bastou apenas filmar as coisas e enviar”, ele disse. 

Quando o Atlantis foi lançado em 11 de maio, o Hubble estava em más condições, funcionando precariamente com uma câmera com 17 anos e um roteador de dados de apoio. Cinco caminhadas espaciais estavam planejadas e no final, apesar dos anos de treinamento e engenharia, nenhuma delas foi fácil. 

Um momento ruim ocorreu fora do campo de visão da câmera durante a primeira caminhada espacial de Massimino na missão. Enquanto ele revirava o compartimento de carga à procura de um giroscópio sobressalente para substituir um que não servia, ele carregava em seu ombro um cabo de força necessário para reparar a câmera principal do Hubble, a Câmera Avançada para Levantamentos. 

“De alguma forma, o gancho se soltou”, ele recordou. “Eu olhei para o alto e vi o cabo indo embora.” Só havia um; sem ele a câmera não poderia ser reparada. Ele a pegou bem a tempo. 

O pior momento, entretanto, ocorreu dois dias depois, quando não conseguiu soltar o último parafuso que segurava o corrimão, que bloqueava o espectrógrafo quebrado. “Aquilo foi um pesadelo para mim”, ele disse. “Eu me senti horrível.” 

“As chances de encontrarmos vida em outros planetas estavam naquele momento reduzidas a zero.” 

Felizmente, quando ele o arrancou, o corrimão soltou de forma limpa. “Eu passei do ponto mais baixo em que já estive ao mais feliz que já estive do lado de fora de uma nave espacial”, ele disse. 

No final, a missão foi brilhantemente bem-sucedida. Semanas depois de soltarem novamente o telescópio no espaço, uma das novas câmeras instaladas no Hubble registrou imagens das galáxias mais distantes já vistas, de uma época apenas 500 milhões de anos após o Big Bang.

Com o encerramento do programa do ônibus espacial neste ano ou no próximo, Massimino disse que há pouca chance dele voltar ao espaço tão cedo. 

Ver a Terra do espaço, ele disse, era sua atividade favorita e assistir ao filme traz isso de volta. “Aqueles foram os momentos mais memoráveis da minha vida. Você não quer esquecer.” 

E quanto ao corrimão teimoso? Massimino disse que ele atualmente se encontra em um escritório no Centro Goddard de Voo Espacial, em Greenbelt, Maryland, aonde trabalham os engenheiros encarregados pelo Hubble. “Eles me permitiram ficar com ele por um dia, mas eu tive que devolver”, ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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