Chávez e suas confusas prioridades de segurança na Venezuela

Marcela Sanchez

  • Juan Barreto/AFP

    Hugo Chávez desfila em comemoração aos 8 anos de seu retorno ao poder, depois do golpe de Estado que, em abril de 2002, o manteve fora da presidência por 48 hora

    Hugo Chávez desfila em comemoração aos 8 anos de seu retorno ao poder, depois do golpe de Estado que, em abril de 2002, o manteve fora da presidência por 48 hora

Os que visitam Caracas com frequência já conhecem o exercício. Se aterrissam à noite no Aeroporto Internacional de Maiquetía, precisam tomar um táxi e esperar que outro transporte de passageiros apareça para fazerem juntos o percurso até a capital venezuelana.

Essa é a prática mais prudente e segura. De outra forma, corre-se o risco de ser presa fácil de sequestradores, que espreitam ao longo da estrada de 22 km e retêm suas vítimas em casebres até que paguem um resgate.

No entanto, esse não é o único problema de segurança na Venezuela. O país sul-americano tem hoje uma das taxas de sequestros mais altas do mundo. Em 2009, o volume desses delitos aumentou entre 40 e 60% em relação ao ano anterior, segundo o Departamento de Estado dos EUA. Na maioria são os chamados sequestros "expressos", que duram cerca de 24 horas mas são muito lucrativos para os criminosos.

Também em 2009 houve 16.047 homicídios. Esse recorde é quase o quádruplo do registro de assassinatos de uma década atrás, segundo o Observatório Venezuelano de Violência, que afirma utilizar as cifras oficiais mais conservadoras. Infelizmente, a impunidade também cresceu em proporções semelhantes nos últimos dez anos. Só 1.491 detenções por homicídios ocorreram no ano passado, em comparação com 5.017 registradas em 1998.

Claramente, entende-se que a situação da criminalidade do país exige maior atenção, mas também análise e investimentos sérios.

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, dedicou seus 11 anos de governo a melhorar a situação dos pobres. Apesar de todos os seus reveses, sua revolução socialista conseguiu, por exemplo, que a disparidade de renda na Venezuela seja a menor de toda a América Latina. Mas, enquanto busca garantir o bem-estar social, ignorou a segurança pública.

Chávez perseguiu, em troca, uma política quixotesca de segurança nacional, em vez de melhorar a proteção aos cidadãos. Seu governo investiu bilhões de dólares em novas armas e outros equipamentos militares, assim como no treinamento de milhares de milícias camponesas como reforços para as forças armadas. Ele fez tudo isso diante da possibilidade, entre outras coisas, de uma suposta agressão estrangeira.

Há algumas semanas, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, anunciou um novo acordo com a Venezuela para a aquisição de US$ 5 bilhões em armamentos. Desde 2005, Chávez gastou mais de US$ 10 bilhões em compras semelhantes, o que põe a Venezuela muito à frente como maior comprador de armas da América Latina.

As prioridades de segurança confusas e o desperdício de valiosos recursos não é tudo. A Venezuela não pôs fora de serviço os equipamentos militares obsoletos que foram substituídos. Com procedimentos inadequados para seu registro e frequente inventário, estes podem facilmente terminar no mercado negro e nas mãos de malfeitores.

Segundo Matt Schroeder, diretor do Projeto de Monitoramento da Venda de Armas da Federação de Cientistas Americanos, em Washington, esse armamento pode "abastecer elementos criminosos na Venezuela e vazar pela região", uma preocupação séria para a vizinha Colômbia, que ainda enfrenta vários grupos rebeldes ilegais.

Os elevados níveis de impunidade, somados ao excesso de armamentos e ao fato de que os venezuelanos possuem entre 9 e 15 milhões de armas de fogo são simplesmente uma receita para aumentar o crime.

Para enfrentar a situação, o governo Chávez lançou no mês passado o Dispositivo Bicentenário de Segurança Cidadã. Com essa nova estratégia, busca melhorar a segurança das 36 municipalidades mais afetadas pela violência de rua. Em dezembro passado, Chávez também criou uma nova polícia federal para encarar a endêmica corrupção policial.

Mesmo assim, alguns especialistas afirmam que esses esforços não são suficientes. Em uma entrevista recente ao jornal local "El Nacional", o especialista em segurança Fermín Mármol García disse que houve "12 planos de segurança em dez anos de revolução", mas não a vontade política para enfrentar o crime organizado. Quarenta anos antes que Chávez chegasse ao poder, acrescentou, houve um total de 304 sequestros; desde 1999 foram 2.655. "Algo aconteceu em nossa sociedade", afirma.

É típico de Chávez culpar os outros; a Colômbia, por exemplo. E é verdade que grupos ilegais colombianos têm histórico de sequestro na nação venezuelana. Também é provável que alguns dos sucessos colombianos em segurança tenham significado a mudança de elementos criminosos e narcotraficantes para países como a Venezuela.

Mas o fato é que a onda de criminalidade nesse país é, sobretudo, resultado de um enfraquecimento interno das instituições. O governo nacional, segundo o sociólogo Roberto Briceño León, diretor do Observatório Venezuelano de Violência, desarmou algumas forças policiais locais por motivos políticos. Além disso, declarou o acadêmico em uma entrevista, estabeleceu um pobre exemplo como o "primeiro a quebrar as normas", solapando assim a base jurídica do país.

Enquanto isso, na frente da segurança, a prioridade de Chávez é armar-se contra os inimigos que ele acredita ter, afirmou Briceño. Nesse sentido, não há uma política destinada a proteger a população, mas simplesmente a seus seguidores.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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