BP admite que vazamento de petróleo poderá ser maior do que o esperado

John M. Broder, Campbell Robertson e Clifford Krauss

Em Washington, D.C. (EUA)

Em uma reunião a portas fechadas com membros do Congresso dos Estados Unidos, um alto executivo da BP admitiu nesta terça-feira (04/05) que a acidentada plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México poderá vazar até 60 mil barris de petróleo por dia, o que é uma quantidade mais de dez vezes superior à atual estimativa.

A dimensão do problema aumentou drasticamente desde que a plataforma explodiu e tombou nas águas do golfo. Agora, a discussão da BP com Capitol Hill (o congresso norte-americano) certamente resultará na intensificação das pressões sobre a companhia, que está enfrentando uma crise similar àquela que a Toyota Motor Company amargou com a aceleração descontrolada dos seus automóveis: apesar dos esforços para controlar o dano à sua reputação de “cidadã corporativa”, o problema da companhia pode estar piorando.

Em meio à crescente incerteza a respeito do tamanho do vazamento, e de quando ele poderá ser contido, a pressão sobre a BP intensificou-se em frentes múltiplas na terça-feira, com a ação de moradores frustrados da costa do Golfo do México e de autoridades de âmbito nacional, estadual e municipal que exigem mais providências por parte da companhia.

A empresa cogitou fazer uma ampla campanha publicitária, mas altos executivos da BP rejeitaram a ideia antes mesmo que esta entrasse na fase de planejamento. “Segundo o nosso ponto de vista, grandes manifestações de arrependimento não têm muita credibilidade”, explicou Andrew Gowers, um porta-voz da BP.

Em vez disso, a companhia enviou executivos para participarem de reuniões de nível municipal na região afetada, e recorreu a meios de comunicação social discretos para divulgar os seus esforços de limpeza, bem como as medidas para organizar trabalhos de voluntários.

 

O Comitê de Energia do Senado dos Estados Unidos convocou executivos da BP e da Transocean Ltd., a operadora da plataforma, bem como vários especialistas técnicos da indústria petrolífera, para uma audiência na semana que vem. No dia seguinte, o Subcomitê de Fiscalização e Investigações do Comitê de Energia e Comércio da Câmara fará uma outra audiência, para a qual executivos graduados da BP, da Transocean e da Halliburton foram convocados a comparecer, afirmou uma porta-voz do comitê.

O painel de investigação, que examinará os possíveis problemas que provocaram as explosões na plataforma, bem como o grau de eficácia das medidas de contenção e limpeza, provavelmente será o primeiro dentre vários, declarou o deputado Bart Stupak, democrata pelo Estado de Michigan, que é o diretor do subcomitê.

Uma investigação federal independente da explosão está sendo conduzida pela Guarda Costeira e pelo Serviço de Gerenciamento de Minerais.

Em uma coletiva à imprensa na terça-feira, David Rayney, o vice-presidente da BP para a produção no Golfo do México, disse que a companhia está utilizando várias técnicas nunca antes tentadas para conter o vazamento de petróleo a 1.500 metros de profundidade.

Na coletiva, Rainey e diretores da Transocean e da Halliburton, que era responsável por obras com cimento na plataforma, também admitiram que não saber qual é a probabilidade de que o petróleo ejetado pelo vazamento seja capturado pelas chamadas correntes circulares do Golfo do México e transportado através da ilhas Keys, na Flórida, para o Oceano Atlântico. “O que nós ouvimos hoje da BP, da Halliburton e da Transocean foram várias narrativas envolvendo os piores cenários possíveis, sem que fosse apresentada qualquer solução para o melhor cenário possível”, afirmou o deputado Edward J. Markey, democrata pelo Estado de Massachusetts, que é diretor do Subcomitê de Energia e Meio Ambiente do Comitê de Energia da Câmara.

Autoridades federais falaram da possibilidade de um vazamento de mais de 100 mil barris diários, caso o poço continue despejando petróleo descontroladamente, mas não se sabe qual é a probabilidade de que tal situação venha a ocorrer.

Também na terça-feira, o diretor-executivo da companhia, Tony Hayward, disse ao senador Bill Nelson, democrata pela Flórida, que o vazamento sem dúvida provocará um prejuízo econômico de mais de US$ 75 milhões (R$ 132 milhões), o que é o atual teto para a responsabilidade financeira por acidentes no setor de prospecção de petróleo.

Nelson e dois senadores democratas de Nova Jersey, Frank R. Lautenberg e Robert Menendez, criaram uma projeto de lei para elevar esse teto para US$ 10 bilhões (R$ 17,6 bilhões), e para garantir que os novos limites sejam aplicados a este vazamento.

Embora a BP continue admitindo a sua responsabilidade por acabar com o vazamento e limpar as áreas atingidas, a empresa está sendo acossada por autoridades governamentais e advogados civis que estão redobrando os esforços no sentido de garantir que as obrigações legais da companhia sejam nitidamente definidas e estritamente cumpridas.

Procuradores-gerais de cinco Estados da região do Golfo do México estão redigindo uma carta à BP que apresentará as suas exigências. Na carta, eles deverão pedir à BP que defina especificamente o que ela quer dizer com a sua declaração repetida de que deseja pagar indenizações “legítimas”, um termo que o procurador-geral do Alabama, Troy King, afirmou ser inaceitavelmente nebuloso.

Eles também deverão pressionar para que seja criado um fundo para que tenha início o pagamento de indenizações a governos estaduais e municipais, bem como a moradores das regiões atingidas.

Os procuradores solicitaram a criação de tal fundo em uma reunião com diretores da BP no último domingo, e no dia seguinte a BP anunciou que indenizações de US$ 25 milhões (R$ 44 milhões) seriam destinadas aos quatro Estados com maior probabilidade de serem afetados, a fim de ajudá-los nas suas medidas de preparação para a chegada da mancha de óleo. Mas King afirmou que “isso não será suficiente”.

Por ora, os padrões climáticos parecem estar mantendo a gigantesca mancha de petróleo no alto-mar, e esta situação deverá permanecer por vários dias, evitando temporariamente um desastre na costa – e fazendo com que a BP seja poupada de novas críticas que certamente emergiriam com a chegada da mancha ao litoral. Uma cúpula de contenção está sendo preparada para ser colocada sobre a fonte de vazamento mais intenso.

A BP intensificou bastante o seu lobby em Capitol Hill, tendo desembolsado quase US$ 16 milhões (R$ 28 milhões) nesta iniciativa em 2009, o que representou mais do triplo do que a companhia gastou com essa atividade dois anos antes, segundo dados compilados pelo Centro de Política Responsiva, um grupo de fiscalização.

Mas esse dinheiro não modificou a opinião pública.

Os principais gerenciadores de crise da companhia foram enviados para o Golfo do México. Gowers, o porta-voz da BP, declarou que a companhia está atualmente “cogitando fazer algumas propagandas dirigidas nos Estados afetados” a fim de explicar como se deve solicitar indenizações e de que forma os cidadãos devem apresentar-se como voluntários para o trabalho de limpeza.

Hayward também deu uma coletiva na terça-feira a repórteres de jornais da costa do Golfo do México e à agência de notícias “The Associated Press”, na qual afirmou que deseja “conquistar os corações e mentes” da população.

Hayward tem sido um convidado frequente de programas matutinos de entrevistas, nos quais transmite uma mensagem constante: “Esse não foi o nosso acidente, mas nós somos sem dúvida alguma responsáveis pelo petróleo e pela limpeza”.

Os especialistas em propaganda dizem que essa é uma mensagem de natureza mista.

“Esta é uma situação cercada de ironia, e na qual se percebe hipocrisia”, diz Abbey Klaassen, diretor-executivo da agência Advertising Age. “Existe uma linha tênue entre aquilo que eles desejam dizer por motivos legais e aquilo que o consumidor deseja ouvir, que é: “Mea culpa. Nós aceitamos a responsabilidade, nós faremos a limpeza e isso jamais voltará a acontecer”.

A BP está lidando com um público especialmente cético e vigilante no Golfo do México, onde a população acostumou-se a embates frustrantes com companhias de seguros e agências governamentais nos cinco anos que se passaram desde o furacão Katrina.

“Nós estamos nos preparando para o pior”, diz Jim Hood, procurador-geral do Estado do Mississippi, referindo-se tanto ao vazamento em si quanto à possibilidade de intensas batalhas legais. O Estado tem tirado fotos e feito vídeos das área costeiras, e contado peixes e pássaros, afirma Hood, a fim de possuir um registro daquilo que existia antes da chegada do petróleo.

*Sewell Chan, em Washington, contribuiu para esta matéria.

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