Médico americano encontra formas criativas de ajudar haitianos

Paul Grondahl

Em Porto Príncipe (Haiti)

Ela estava com o olhar fixo e distante e se mexia de maneira robotizada, arrastando os pés enquanto era levada por uma vizinha para uma clínica gratuita dirigida por Bob Paeglow.

“Bon jour”, disse Paeglow, mas sua saudação em francês não obteve resposta. A mulher estava magra e pálida.

Ela balançava o rosto rígido para frente e para trás, como um navio sendo jogado por um mar agitado. Paeglow não conseguia imaginar que estava acontecendo por trás daqueles olhos de zumbi e expressão catatônica.

Barbara Reynolds, uma haitiana de 16 anos adotada por um casal de Nova York, traduzia o crioulo para Paeglow.

O nome da paciente era Esther Maurice, 35 anos de idade. Ela ficou presa vários dias nos destroços de sua casa, que caiu durante o terremoto de 7.0 graus de magnitude do dia 12 de janeiro que matou sua mãe e pai. Miraculosamente, Maurice sobreviveu e foi resgatada. Mas aqueles dias aterrorizantes, temendo a morte enquanto sua energia se esvaia, deixaram-na profundamente traumatizada.

“Ela não fala desde o terremoto”, disse a vizinha em crioulo. “Ela perdeu a cabeça.”

Durante oito horas na segunda-feira, Paeglow tratou de mais de 120 haitianos pobres que não tinham seguro nem podiam pagar por atendimento médico. Os pacientes que vieram se consultar tinham idades variadas, de crianças a idosos. Vários reclamaram de depressão, batimentos cardíacos irregulares, dores de barriga e uma sensação vaga de medo e letargia gerada pelo terremoto.

“A psique humana tem um limite, e o terremoto levou muitas pessoas para além desse ponto”, disse Paeglow, que dirige uma clínica geral em Albany, NY, onde está acostumado a tratar de pacientes traumatizados pela violência das ruas e das gangues.

“É como se os haitianos que estou vendo tivessem passado por uma guerra; estão sofrendo de estresse pós-traumático”, disse Paeglow.

Duas horas antes de abrirem os portões da clínica, no pátio da Academia Cristã Morning Star, às 8h da manhã, uma longa fila de haitianos havia se formado.

Todos vestiam suas melhores roupas, com cabelos trançados, lenços coloridos, pulseiras e brincos –usados como sinal cultural de respeito ao status do médico. A clínica é organizada e suprida com doações da Fishers os Men Ministries.

Paeglow trabalha a céu aberto, no calor tropical, com o único alívio da sombra das amendoeiras e uma brisa ocasional. Ele tem a assistência apta de Dean Rueckert, proprietário de uma empresa de relações públicas e propaganda em Colonie, NY.

Rueckert rapidamente relembrou seus antigos conhecimentos de práticas de emergência médica e limpava e fazia curativos em cortes, queimaduras e processava testes de urina para malária, HIV e gravidez.

Todos os exames deram negativos. Foram os resultados felizes.

Nem todos tiveram sorte, porém, particularmente aqueles com problemas psicológicos. Antes do terremoto, Maurice, a mulher que parou de falar, ganhava sua subsistência como vendedora de elásticos para cabelo e calcinhas em uma banca na rua.

“O que devo fazer por ela agora?”, perguntou a vizinha, levantando as mãos, exasperada.

Tudo o que Paeglow pôde oferecer a Maurice foi uma receita de remédios para combater a depressão, um toque amoroso no ombro e uma prece, pedindo a Deus que ajudasse a aliviar a angustia mental da mulher.

“Infelizmente, não há muito mais a fazer por ela, pois não temos uma clínica de atendimento psicológico”, disse ele. “Sua única esperança é encontrar uma comunidade que cuide dela e o apoio de pessoas que tentem ajudá-la.”

A pobreza dos haitianos é de partir o coração. Wilson, 19, ficou envergonhado de contar a Paeglow seu problema na frente da tradutora, Reynolds. Finalmente disse que tinha vermes.

“Como você sabe?”, perguntou Paeglow.

O jovem indicou que os via após defecar.

Paeglow receitou antibióticos contra parasitas.

“Vermes são um problema comum em países pobres”, disse Paeglow. “A chave é conseguir que lavem mais as mãos e tenham maior higiene. Parece fácil, mas quando você não tem água corrente nem dinheiro, pode ser bem difícil.”

Apesar de a clínica ter um bom estoque de medicamentos básicos e da equipe eficiente incluir um farmacêutico, não há instrumentos de alta tecnologia para diagnósticos nem exames sofisticados. Em vez disso, Paeglow depende dos testes de urina baratos, lidos por Rueckert, que avaliam uma série de problemas e dão resultado em minutos.

“O teste de urina é a biópsia de fígado do pobre”, disse Paeglow.

Ele parecia profético quando uma mulher de 45 anos, que parecia ter o dobro dessa idade, apresentou-se com uma pressão de 20 por 10, extremamente elevada e perigosa. O teste de urina revelou que tinha falência renal e precisava de diálise imediatamente. Ele pediu à equipe que a levasse ao hospital imediatamente.

Contudo, ninguém tinha um carro, então foi chamado um “Tap-Tap”, uma caminhonete de transporte comum, colorida, que anda lotada e serve de táxi, para transportá-la ao hospital.

Mars, de 26 anos, reclamou de febre, dor de cabeça e diarreia há quatro meses. Com a ajuda da tradutora, Paeglow descobriu que o homem tinha visto muitos corpos enquanto perambulava pelos mortos e escapava dos prédios desmoronados. Ele sobreviveu por pouco, mas perdeu quatro membros da família na catástrofe.

“Quem não estaria deprimido após o que ele viu?”, perguntou Paeglow, que receitou antidepressivos.

No meio de toda a dor e sofrimento, havia alegria nos resistentes haitianos. Dava para ver nos sorrisos tímidos e nos nomes gloriosos. Havia pacientes com nome de Vênus, Destino, Lua e Profeta, Deus do Sol, nome extravagante para um bebê de seis meses.

Uma mulher de meia idade chamada Albany estava sentada no escritório.

“Boa escolha de nome”, disse Paeglow, “nós somos de Albany”.

Paeglow fez um check-up e determinou que a mulher tinha o início de doença coronariana, provavelmente causada por uma dieta deficiente e uma vida dura. Ele receitou um remédio para pressão alta e despediu-se dela após uma breve prece.

“Sim, já pode ir, senhora Albany”, disse ele. “A senhora sabe que, de onde eu venho, deram o seu nome a um restaurante”.

Mesmo sem tradução, ela sorriu.

Tradutor: Deborah Weinberg

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