O custo de uma boa relação entre o México e os EUA

Marcela Sanchez

Esta semana Washington recebeu o presidente mexicano Felipe Calderón com honras dignas de uma celebridade e a pompa diplomática que só esta cidade pode oferecer. Mas os jantares de Estado, os discursos diante do Congresso e os palcos compartilhados com astros como Obama ou estrelas como Beyoncé não são exatamente do agrado do governante. Como diriam os mexicanos, Calderón não estava “en su mero mole”, ou seja, no seu melhor momento.

Durante os três anos e meio que transcorreram desde que assumiu o cargo em dezembro de 2006, Calderón preferiu não se expor demais nessa capital, por conta de um tipo de relação bilateral muito diferente da estabelecida por seu antecessor, Vicente Fox. Convencido de que prometer e exigir demais não foi bom para nenhum dos dois países nos seis anos anteriores, Calderón optou, em contrapartida, por reduzir as expectativas, concentrando-se em temas de benefício mútuo e que pudessem ser digeridos em Washington e na Cidade do México: a luta contra o crime organizado e o aumento da segurança fronteiriça, ao mesmo tempo que se agilizam os cruzamentos legais.

 Esse tipo de diplomacia com luva de pelica surtiu um bom efeito. A cooperação entre ambos os países alcançou níveis históricos de assistência e entendimento. Nos últimos dois anos, mais de US$ 1 bilhão foram designados por Washington para auxiliar Calderón em sua difícil, porém corajosa, luta contra os carteis de drogas.

Esta ajuda está agora se transformando no respaldo às instituições democráticas e comunidades que se encontram no fogo cruzado dos criminosos, o que reflete um entendimento mais preciso por parte dos EUA quanto aos desafios que seu vizinho do sul enfrenta. Funcionários do governo Obama reconheceram, além disso, em várias ocasiões, a responsabilidade norte-americana na luta do México, coisa que os norte-americanos país não quiseram ouvir durante anos.

Os mexicanos, entretanto, desconfiam cada vez mais da estratégia antidrogas de Calderón, que deixou um saldo de quase 23 mil mortos. Seu partido sofreu nas urnas e figuras importantes o criticaram por não ter previsto as consequências de mexer nesse enxame de violência.

Diante dessas circunstâncias, parecia que um tapinha no ombro por parte do presidente Obama, transmitido pela televisão internacional, seria bom para o reticente Calderón. Mas os Estados Unidos tinham mais do que afeto a oferecer.

Há menos de um mês, o Arizona adotou a lei mais dura do país contra a imigração ilegal. Embora a norma já tenha recebido algumas emendas e várias demandas legais ainda estejam pendentes, ela desatou uma severa reação no México, o que obrigou seu presidente a falar mais abertamente sobre o tema da migração.

Desde sua chegada à Casa Branca, Calderón denunciou a nova lei estadual por ser discriminatória. Posteriormente, confessou ter dito a Obama que o México manterá sua “forte rejeição à criminalização da migração” e que seu governo “fará uma oposição firme” à sua aplicação. Em seu discurso durante uma sessão conjunta do Congresso, ele se referiu à lei como “uma ideia terrível”.

Segundo Andrés Rozental, especialista mexicano em política exterior, Calderón se viu forçado a “defender ou fazer pronunciamentos públicos sobre este tema”, o que havia evitado anteriormente.

Não se sabe qual será o efeito do recente estilo apaixonado de Calderón no acalorado debate norte-americano sobre a imigração. Ao lado de seu colega mexicano, Obama reiterou seu compromisso de reformar o deficiente sistema migratório norte-americano, mas reconheceu que não têm os 60 votos que precisa para fazê-lo no Senado.

Existe a possibilidade de que a mudança de tom tenha um resultado contraproducente e torne ainda mais difícil que os republicanos apoiem a reforma. Mas, também, é difícil imaginar que o México não tenha o que falar num debate que afetará milhões de seus compatriotas e exigirá a cooperação deste país, independente da direção que a discussão tome.

Rozental está convencido de que o silêncio de Calderón, assim como o de Vicente Fox em seus últimos anos na presidência, foi um erro. “Os norte-americanos – diferentemente de outras culturas – sempre preferiram ouvir as coisas diretamente”, saber o que os mexicanos realmente pensam sobre um tema que tanto os afeta.

Mas os Estados Unidos também querem saber o que o México está fazendo para deter a migração ilegal. Andrew Selee, diretor do Instituto Mexicano do Centro Woodrow Wilson, enfatizou numa entrevista que Calderón “não tem muita autoridade moral para dar sermões sobre a necessidade de mudar a lei migratória dos Estados Unidos, se não os acompanhar com uma mensagem acerca da responsabilidade do México de criar oportunidades para que as pessoas fiquem no país.”

O governante pareceu ter escutado o conselho. Em seu discurso de 35 minutos no Congresso, dedicou um bom tempo para descrever seus esforços “para transformar o México numa terra de oportunidades” e assim dar aos mexicanos uma razão a menos para emigrar. “O México está decidido a assumir sua responsabilidade. Para nós a imigração não é um problema só dos Estados Unidos, mas também de nosso país.” Ele também destacou a firmeza de seu governo em combater o crime organizado, apesar do custo tremendo de vidas e recursos e do risco para sua própria posição política.

O líder mexicano não é do tipo que deseja atrair a atenção pública internacional. Mas, talvez, já tenha conseguido mais do que seus antecessores ao chegar a Washington com provas tangíveis de que seu país entende que há um custo a pagar para ter melhores relações com os Estados Unidos.

 


 

 

Tradutor: <i>Eloise De Vylder</i>

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