Repressão se intensifica no Irã um ano após reeleição de Ahmadinejad

Will Long e Michael Slackman
Em Teerã (Irã)

  • Reuters

    A reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad foi acusada de fraudulenta pela oposição

    A reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad foi acusada de fraudulenta pela oposição

Um ano após a disputada eleição presidencial no Irã, o ritmo da vida voltou ao normal no país. Com uma repressão ampla, longa e às vezes brutal, o governo conseguiu suprimir um movimento de protesto que abalou a nação por meses após a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, acusada de fraudulenta pela oposição.

Contudo, a aparente calma esconde o que muitos aqui chamam de “chama sob as cinzas”, um grau de cinismo e desconfiança. As maiores manifestações e protestos acabaram, mas o sentimento de revolta permanece, entremeado com a rotina da vida diária: uma jovem que trabalhou por anos como voluntária em um hospital infantil disse que agora via seu voluntariado como “instrumento de resistência” porque ressaltava o fracasso do governo em fornecer atendimento adequado.

O filho de um alto funcionário público disse a um amigo que não ia mais aceitar dinheiro do pai porque este trabalhava para o governo, que o filho considerava corrupto.

Um professor de medicina recentemente pegou uma caneta verde para escrever notas em um quadro branco para os alunos e depois, com um sorriso, escolheu outra cor, dizendo que poderia ser preso por usar o verde, cor da oposição.

“Talvez na superfície pareça que tudo terminou, mas as pessoas estão mantendo a chama sob as cinzas acesa, para quando tiverem a chance acendê-la em público novamente”, disse um professor de línguas de 30 anos que, como a maior parte das pessoas entrevistadas no Irã para este artigo, pediu anonimato, com medo de represálias.

Mudança pós-crise

Em inúmeras entrevistas conduzidas nos últimos meses com iranianos de todas as camadas da sociedade, dentro e fora do país, um retrato claro emergiu de um público mais consciente politicamente, com divisões ampliadas entre a classe média e os pobres e, pela primeira vez na história de três décadas da República Islâmica, há um grupo determinado de opositores à própria República.

As divisões políticas se fundiram com preocupações mais pragmáticas, como o alto desemprego e a inflação de dois dígitos, que agravaram o descontentamento.

“Eu estava no ônibus outro dia e havia um homem, você não acreditaria em como era informado. Ele começou a falar sobre as reservas em moeda estrangeira de diversos países e passou a criticar o governo”, disse um funcionário público de 59 anos.

Ahmadinejad e seu patrão, o líder supremo aiatolá Ali Khamenei, estão mais fortes hoje do que há um ano, dizem os especialistas políticos, apesar de sua base de apoio ter se estreitado.

Eles estão dependendo pesadamente do uso de força e intimidação, prisões, censura, até execuções para manter a autoridade. Eles fecharam jornais, baniram partidos políticos e eficazmente silenciaram toda dissensão. Milhares de opositores fugiram do país, com medo de serem presos.

 Movimento morto

Os líderes do chamado Movimento Verde --o ex-candidato presidencial Mir Hussein Moussavi, um ex-primeiro-ministro, e Mehdi Karroubi, ex-presidente do Parlamento-- não pararam de exigir maior liberdade política. Mas eles suspenderam a política de confronto direto com o governo, dizendo que não vale o preço em sangue e aprisionamentos, e cancelaram manifestações planejadas para sábado, após terem o pedido de licença negado.

Os serviços de segurança deixaram claro, nos dias que antecederam ao aniversário, que todo mundo que tomasse as ruas seria tratado duramente. Pessoas em Teerã receberam mensagens no celular ameaçadoras. “Prezado cidadão, você foi enganado pela mídia estrangeira e está trabalhando para eles”, dizia. “Se fizer isso novamente, será tratado de acordo com a lei islâmica.”

Um dia antes, a polícia fez uma grande demonstração de força, com membros da milícia vestidos de preto correndo de motocicleta e policiais uniformizados enfileirados nas ruas e montando bloqueios.

A crise se acelerou e institucionalizou uma transferência de poder que começou com a primeira eleição de Ahmadinejad, em 2005. Os antigos revolucionários foram substituídos por uma geração que amadureceu na guerra de oito anos entre o Irã e o Iraque, radicais que se ressentiam profundamente das reformas relativamente liberais promovidas pelo ex-presidente Mohammad Khatami.

A vanguarda da nova elite política agora é a Guarda Revolucionária Islâmica, que supervisiona os programas nucleares e de mísseis e estendeu seu controle sobre a economia e a máquina do Estado. Ela aumentou sua capacidade de controlar as ruas, monitorar comunicações eletrônicas e manter informantes em campus universitários. Seus ex-alunos chefiam os órgãos de segurança do governo.

Seus líderes prometeram lidar duramente com a oposição e, desde fevereiro –quando suprimiram os protestos marcados para o 31º aniversário da República Islâmica- suas advertências foram ouvidas.

“As pessoas estão mais conscientes do que antes, mas ficam quietas com medo de morrer”, disse uma mulher de 80 anos na cozinha, fritando cebolas para um prato de arroz. “Eles mataram tantos jovens bem intencionados. Nem o xá matava dessa forma. Eles dominam o povo na ponta da espada, mas o povo não quer mais eles.”

 Medo

Nas últimas semanas, foi desenvolvida uma ampla campanha moral pública que, em tamanho e estratégia, superou todas as anteriores. A campanha foi considerada um esforço para semear medo como preparação para o aniversário da eleição presidencial de 12 de junho.

As autoridades começaram a filmar mulheres que consideravam insuficientemente cobertas para usar como evidência na justiça. A polícia começou a emitir multas que algumas pessoas dizem exceder US$ 1.000 (cerca de R$ 1.800) por tratamentos de beleza julgados inadequados, como pele muito bronzeada. Mulheres com roupas provocativas são colocadas nas esquinas, e os homens que param para paquerar são presos. 

“A opinião das pessoas com respeito ao governo era ruim, e agora estão tornando pior”, disse uma cabeleireira de 25 anos.

A pressão não é apenas dirigida a esses valores conservadores. Parece ser uma estratégia para que todo mundo saiba quem está no comando.

Um estudante de medicina de 24 anos contou que ele e um amigo foram detidos pelos Basij, revistados e ameaçados de prisão.

“Fomos para a faculdade e confrontamos um dos estudantes mais sérios dos Basij”, lembra-se o aluno. “Eu disse a ele que entendia quererem me prender por meu cabelo longo, mas por que nosso colega? Um sujeito que faz suas orações, jejua, carrega o Alcorão na mala. Ele não conseguiu me dar uma resposta.”

Um motorista de táxi lembra-se de como recentemente foi detido pela polícia moral, quando saiu para comprar um sanduíche, porque estava usando uma camiseta que, segundo eles, era apertada demais.

“Eles ameaçaram levar meu carro”, disse ele, ainda chocado com o encontro. “Por que eles querem me causar problema?”

Desde a Revolução Islâmica, o Irã tem sido uma nação de conflitos, enquanto os dois braços do governo lutam pelo poder. De um lado estavam as instituições eleitas; do outro, as instituições religiosas nomeadas. O Irã pós-eleição ainda sofre desse conflito, mas menos. A grande divisão hoje é entre os que têm poder, dinheiro e prestígio contra os que se definem pelo desapontamento e marginalização, mas que dizem ter mantido a esperança de mudança.

Apesar de muitos estarem desapontados, outros dizem que o ano de dor e sacrifício está dando resultados.

“As pessoas ganharam algo, com certeza ganharam certo grau de independência individual”, disse um estudante de medicina de 20 anos. “Elas começaram a decidir por si mesmas que sairiam para protestar, que seguiriam os noticiários. Isso é algo que aconteceu para todo mundo. Em áreas diferentes de suas vidas, estão perdendo a paciência e provavelmente não aceitarão mais se submeter.”

Tradutor: Deborah Weinberg

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