Seita muçulmana perseguida une-se em torno de uma tragédia

Samuel G. Freedman
Em Glen Ellyn

O telefone tocou de manhã bem cedo no dia 28 de maio na casa de Tariq Malik, nos arredores de Chicago (EUA) quando o céu suburbano ainda estava completamente escuro. Naquele momento, Malik e a sua mulher, Riffat Jariullah, souberam imediatamente que havia algo de errado. A voz do irmão dela, que telefonava do Paquistão, confirmou os temores, com as instruções que ele lhes deu, com a voz ofegante.

“Liguem a televisão”, Riffat Jariullah se recorda de ter ouvido o irmão dizer. “Vejam o que aconteceu”.

Assim, ainda usando as roupas de dormir, o casal sintonizou a estação a cabo paquistanesa Geo. Lá eles viram um homem que portava um fuzil atirando contra a torre de uma mesquita. Era uma torre conhecida por eles, em uma mesquita em Lahore, conhecida como Dar-ul-Zakir, onde muitos amigos e familiares do casal oram semanalmente.

Tarik Malik e Riffat Jariullah correram a pegar os seus telefones celulares, e ligaram para todos os seus parentes em Lahore. Mas ninguém atendeu. Na televisão, eles ouviram o ruído dos tiros, granadas explodindo, sirenes e gritos. A tela mostrava corpos cobertos de sangue.

Em determinado momento, Jariullah percebeu que estava tremendo, mas mesmo assim ela não conseguia tirar os olhos da tela. Oito horas mais tarde, os piores temores do casal se confirmaram. Um tio, um sobrinho e um primo estavam mortos, e um outro primo saíra ferido.

E quando seguiram de carro de sua residência em Plainfield, no Estado de Illinois, para a sua mesquita em Glen Ellyn, eles descobriram que havia outras pessoas compartilhando o mesmo desespero. Das 120 famílias que frequentam a mesquita, mais de dez tinham perdido parentes nos ataques. Ao todo, 94 pessoas foram mortas nos ataques do Taleban do Punjabi à Dar-ul-Zakir e a uma outra mesquita, a Bait-ul-Jamaay, durante a sexta-feira de orações.

A corrente de pesar ligando Glen Ellyn a Lahore não se constitui em nenhuma assustadora anomalia. De ambos os lados, os muçulmanos afetados pela tragédia eram membros da seita Ahmadi (também conhecida por Ahmadiyya), que possui dez milhões de membros em todo o mundo. Moderados e pacíficos nos seus preceitos, os ahamadis são detestados pelos muçulmanos fundamentalistas, especialmente no Paquistão, devido à sua crença em que o fundador da seita, Mirza Ghulam Ahmad, que viveu no século 19, era o Messias previsto pelo profeta Maomé.

“No início, aquilo foi um choque para mim. Fiquei me perguntando como é que eles puderam fazer tal coisa”, disse nesta semana Tarik Malik, 53, um consultor administrativo, ao recordar os ataques. “Mas a seguir a gente traz de volta certas memórias e percebe que coisas assim de fato acontecem por lá”.

Sentada ao lado dele, Riffat Jariullah acrescenta: “A última coisa que você imagina que alguém seja capaz de fazer é matar pessoas que estão orando”.

Por mais horrível que tenha sido o ataque, ele não foi nenhuma surpresa. O atentado ocorreu no contexto de uma perseguição cada vez mais intensa, e que já dura 40 anos, aos muçulmanos ahmadis, tanto por parte de indivíduos pertencentes ao governo quanto por pistoleiros avulsos. Embora os extremistas cometam atos de terrorismo, os líderes políticos paquistaneses permitiram indiretamente a violência ao estigmatizarem os dois milhões de ahmadis do país por meio da lei, de forma semelhante àquela como as leis de segregação do sul dos Estados Unidos criaram um clima propício ao linchamento de negros.

Em 1974, em meio a rebeliões contra os ahmadis, o Paquistão introduziu uma emenda na sua constituição a fim de declarar que a seita não é considerada muçulmana. Uma década mais tarde, durante a ditadura militar de Mohammad Zia ul-Haq, o parlamento aprovou uma “lei de blasfêmia” que previa a aplicação da pena de morte. A medida fez com que os ahmadis se tornassem foco de perseguições por “fingirem ser, direta ou indiretamente, muçulmanos”.

Na prática, a medida significou que os ahmadis poderiam ser presos por proferirem a saudação muçulmana “salaam aleikum”, fazerem conclamações para as orações de minaretes ou até mesmo por chamarem de mesquita a sua casa de orações. Encorajados por tais determinações oficiais, extremistas sunitas violaram cemitérios ahmadis, queimaram casas e lojas dos membros da seita e, em 2005, mataram a tiros religiosos ahmadis dentro de uma mesquita.

Mais recentemente, o governo provincial do Punjabi, liderado por Nawaz Sharif, um ex-primeiro-ministro, permitiu que militantes muçulmanos exibissem faixas pela região que afirmavam que matar membros da seita ahmadis é uma obrigação religiosa. Outros extremistas enviaram cartas a casas de indivíduos ahmadis informando que tinham a intenção de matar todos os moradores.

A Organização das Nações Unidas (ONU), o Departamento de Estado dos Estados Unidos, a Human Rights Watch e grupos de direitos humanos paquistaneses já vinham se manifestando durante anos contra o sofrimento dos muçulmanos ahmadis antes do massacre de 28 de maio.

As atrocidades daquele dia que não resultaram em qualquer punição foram apenas o resultado previsível de décadas de animosidades. E a resposta branda ao massacre só confirmou que muçulmanos aparentemente podem ser assassinados impunemente, contanto que os assassinos também sejam muçulmanos.

O pesar e a indignação só podem ser encontrados em comunidades ahmadis e em locais como Glen Ellyn, bem como em mesquitas como a Bait-ul-Jamaay. Mirza Muzaffar perdeu o primo. Amer Fahim Ahmed perdeu o tio. Yasser Malik também perdeu um tio. E esse tio, Nasir Chaudry, foi aparentemente um dos primeiros religiosos mortos, tendo sido visado devido à sua importância por ser um general da reserva do exército paquistanês.

O sobrinho se recorda que o general Chaudry se considerava um patriota paquistanês. Ele lutou pela nação em três guerras, e em uma delas foi ferido por um estilhaço de um projétil, que permaneceu alojado no seu joelho pela vida toda. Mas Yasser Malik acrescenta que o seu tio certa vez foi convidado a visitar uma mesquita sunita no Ramadã devido à sua patente militar, apenas para descobrir mais tarde que o templo fora lavado de cima em baixo após a sua partida, já que, como ahmadi, ele era considerado um infiel.

Assim, vários membros da mesquita Bait-ul-Jamaay tinham histórias como essa a contar sobre a vida no Paquistão – empregos negados, cancelamento de matrículas em faculdades, casas depredadas e insultos sem fim. Atualmente eles são os que tiveram sorte, por morarem nos Estados Unidos, onde prosperam como executivos, engenheiros ou médicos, sem correrem o risco de ir para a prisão ao se identificarem como muçulmanos. Aqui, do outro lado do mundo, eles podem se consolar mutuamente com a tradicional oração para os mortos: “Nós sem dúvida pertencemos a Alá, e a ele nós retornaremos”.

Quanto a Tarik Malik e Riffat Jariullah, as suas memórias não param de retornar. Eles se recordam da viagem que fizeram ao Paquistão em 1986, e da forma como o primo de Riffat, Nasir Ahmed, comprou kebabs e doces no mercado para as três filhas do casal. Eles também se lembram de como o tio de Tarik Malik, Ansar ul-Haq, lhes serviu chá de forma cerimoniosa, como se eles fossem hóspedes de um hotel de cinco estrelas.

E eles se lembram também das imagens feitas pelos reféns ahmadis, com telefones celulares, na tarde em que Nasir, Ansar e todos os outros foram mortos. Um vídeo mostra um garoto se escondendo debaixo de uma mesa, clamando o nome do profeta em meio a balas e granadas.

Agora é essa imagem, e não um telefonema do irmão, que acorda Riffat Jariullah à meia-noite neste subúrbio tranquilo de Illinois.

 

Tradutor: UOL

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