O bom, o mau e o feio da fronteira México-EUA

Marcela Sanchez

  • Mark Ralston/AFP

    A fronteira territorial entre México e Estados Unidos localizada na cidade de Nogales

    A fronteira territorial entre México e Estados Unidos localizada na cidade de Nogales

A secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos, Janet Napolitano, recentemente reconheceu uma realidade fundamental, mas politicamente arriscada: não há como selar a fronteira de 3.000 quilômetros com o México, terceiro maior parceiro comercial dos EUA. Minutos depois de admitir, prometeu que não descansará até que todas as rotas usadas pelos traficantes de drogas sejam fechadas.

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Apesar dessa contradição aparente, as palavras de Napolitano refletem a distinção importante que as forças policiais e judiciais devem fazer diariamente: nem todos os que entram no país devem ser detidos, enquanto que os responsáveis por delitos violentos e milionários são os que precisam ser presos e sentir o peso da lei.

Infelizmente, esses mesmos oficiais carregam o fardo da pressão equivocada por parte de ativistas e legisladores, que pretendem solucionar o inoperante sistema migratório norte-americano, um problema relacionado, mas distinto– conferindo-lhes a tarefa absurda de perseguir todos os imigrantes.

O exemplo mais recente disso é a lei SB 1070 do Arizona, uma norma que habilita as forças policiais a exigir provas de ingresso legal nos Estados Unidos de qualquer suspeito de ter entrado no país indevidamente.

Os criminosos devem estar muito satisfeitos com esta lei. Em vez de perseguir os infratores verdadeiros, a polícia é incentivada a perseguir aqueles que parecem ser imigrantes. Num Estado onde 30% dos habitantes são hispânicos, o cumprimento dessa regulamentação representará um desperdício descomunal de tempo.

Qualquer sensação de segurança gerada por iniciativas como a SB 1070 é, obviamente, falsa. O verdadeiro trabalho de segurança fronteiriça é a luta contra o tráfico humano, de drogas e armas, assim como contra a lavagem de dinheiro.

Pelo menos há uma representante estatal no Arizona que tem esse trabalho muito claro. Kyrsten Sinema, democrata que votou contra a SB 1070, afirma que os legisladores mais realistas a ajudaram a aprovar leis mais pertinentes.

Há menos de um ano a Assembleia Legislativa do Arizona aprovou uma lei, apoiada por Sinema, que determina a ilegalidade de alugar uma casa para utilizá-la em atividades ilícitas. Isso facilitou a prisão e a condenação de indivíduos envolvidos no tráfico humano, violações e até mesmo assassinatos. Algo semelhante aconteceu com a aprovação de uma definição legal mais ampla do tráfico humano, para que não seja considerado apenas como a transferência direta de pessoas de um lugar para outro.

Napolitano também é a favor desse aspecto dos esforços de segurança. Numa apresentação recente no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington, a alta funcionária estava menos interessada nos números de trabalhadores presos em operações policiais do que nos avanços contra o crime organizado.

“No ano passado o confisco de material de contrabando relacionado aos cartéis aumentou de forma significativa em todos os campos. Confiscamos 14% a mais dinheiro em espécie, 29% mais armas ilegais e 15% mais drogas ilegais que no ano anterior”, disse. “Também empregamos mais tecnologia do que nunca para deter traficantes e seus carregamentos. Agora há mais aviões, helicópteros e veículos aéreos não tripulados concentrados na fronteira.”

Autoridades norte-americanas também estão confiscando todos os carregamentos ferroviários que vão em direção ao México para interceptar armas, drogas e dinheiro. Esta grande mudança da política norte-americana demonstra a intenção de combater organizações criminosas transnacionais que lavam dinheiro, enviam armas e acabam aumentando a violência ao sul da fronteira.

Embora leis como a SB 1070 estejam totalmente desorientadas em seu esforço para assegurar a fronteira, seus defensores têm razão em um aspecto: o inoperante sistema migratório dificulta o trabalho de detectar criminosos.

Quase 11 milhões de imigrantes vivem nos EUA ilegalmente. E segundo Sinema e outros defensores dos imigrantes, milhões não só vivem à sombra, com medo de denunciar crimes, mas também oferecem esconderijos perfeitos para os envolvidos em atividades criminosas.

“Hoje em dia, tanto os bons quanto os maus cruzam a fronteira. Se tivéssemos uma reforma integral da imigração, que permitisse que os bons saíssem da sombra e entrassem na fila (para legalizar sua situação), então tudo o que restaria seriam os maus e então seria mais fácil perseguir os cartéis e a atividade ilegal”, disse Sinema em uma entrevista.

Por sorte, para os promotores de uma reforma da imigração, o presidente Obama não abandonou a causa. Em 1º de julho, o presidente fez seu primeiro discurso dedicado exclusivamente a este tema e convocou o Congresso a deixar de lado as divisões partidárias e “assumir sua responsabilidade para resolver este problema de uma vez por todas”.

Obama afirmou que uma anistia automática aos milhões que chegaram ao país de maneira ilegal seria algo “insensato e injusto”. Mas também é ingênuo pretender, disse Obama, que recursos limitados sejam destinados “não só para prender quadrilhas e terroristas potenciais, mas também às centenas de milhares que tentam cruzar a fronteira a cada ano simplesmente para encontrar trabalho.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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