Massacres no Sudão continuam sendo perpetrados

Jonathan Gurwitz

  • Antony Njuguna/Reuters

    Refugiados tentam escapar da violência no Sudão

    Refugiados tentam escapar da violência no Sudão

O orador do ato público Save Darfur na primavera de 2006 cativou a multidão de 100 mil pessoas reunidas no National Mall, em Washington, D.C. Ele falou com uma cadência quase bíblica e com convicção moral. “Livra os que estão sendo levados à morte”, bradou ele, citando o livro dos provérbios. “ Detém os que vão tropeçando para a matança”.

O homem no palanque era um jovem senador de Illinois. Nove meses depois, ele lançaria uma candidatura presidencial que muita gente acreditava que não tinha chances de sucesso. Atualmente, ele senta-se no Salão Oval da Casa Branca.

Muita coisa mudou desde aquele dia ensolarado em Washington que reuniu dignatários e celebridades, Elie Wiesel e George Clooney, republicanos e democratas, um dia que inspirou esperança na crença de que o “nunca mais” era muito mais do que um slogan vazio.

Mas uma coisa importante não mudou. Mais de quatro anos depois, o massacre no Sudão – aquilo que o colunista do “New York Times”, Nicholas Kristof, chamou há muito tempo de “um genocídio em câmera lenta” - continua.

Quatrocentas pessoas foram mortas em Darfur durante uma única semana em março, segundo Niemat Ahmadi, da Save Darfur Coalition, ela própria uma nativa de Darfur. E mais 600 pessoas foram vítimas da violência em maio. Dezenas de milhares de refugiados ficaram sem acesso a ajuda humanitária. Esses números se somam ao de 300 mil pessoas que perderam a vida e às 2,7 milhões que foram obrigadas a abandonar as suas casas desde que o governo sudanês deu início à sua campanha genocida em 2003.

No ano passado, o Tribunal Criminal Internacional emitiu um mandado de prisão contra o presidente sudanês Omar al-Bashir – o arquiteto da operação de limpeza étnica em Darfur –, sob acusações de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade. E neste mês, o tribunal internacional emitiu um segundo mandato de prisão contra ele sob a acusação de prática de genocídio.

Apesar disso, al-Bashir viaja livremente na África – na semana passada ele foi ao Chade –, apesar do fato de as suas vítimas em Darfur serem africanas. Ele também viaja livremente pelo Oriente Médio, para o Egito e a Arábia Saudita, apesar de os homens que estão sendo castrados e deixados a sangrar até a morte e de as mulheres e meninas que ainda são vítimas de estupros em massa serem muçulmanos.

Não é nenhuma surpresa o fato de a comunidade internacional ter se mostrado tão omissa em relação a Darfur. E tampouco não surpreende a hipocrisia do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que é capaz de condenar rapidamente incidente bem menos letais envolvendo algumas nações, mas que se distrai facilmente quanto ao genocídio em Darfur.

Surpreendente e chocante é o fato de os Estados Unidos, sob o governo de Barack Obama, não terem tomado qualquer medida significativa para conter a violência em Darfur, bem como a paparicação de al-Bashir por parte do enviado de Obama ao Sudão e as tentativas ineficazes de sustentar um frágil acordo de paz norte-sul – negociado pelo governo Bush em 2005 – que, caso falhe, ameaça reacender a guerra civil sudanesa, que custou dois milhões de vidas em um período de duas décadas.

“Este é o 'momento de Ruanda' do presidente Barack Obama, e os fatos estão se desenrolando neste momento, em câmera lenta”, escreveram Dave Eggers, autor de um livro sobre a guerra civil no Sudão, e o ativista de direitos humanos John Prendergast, cofundador do Enough Project, em um recente artigo de opinião publicado no “New York Times”. “Não é muito tarde para prevenir a guerra no Sudão, e para proteger a paz que nós ajudamos a construir cinco anos atrás”.

A questão é saber se acabar com um genocídio e prevenir que um outro tenha início são prioridades de qualquer integrante do governo Obama.

“Os fatos na região continuam os mesmos. E, com o passar do tempo, o que ocorre é que nós nos tornamos volúveis e distraídos, e as imagens chocantes de crianças sendo massacradas e de mulheres atacadas começam a desaparecer do cenário. E nós começamos a nos preocupar com o preço da gasolina e com as eleições, de forma que as prioridades vão mudando, até que não tenhamos mais aquelo senso de urgência moral que se faz necessário”.

Essas foram também as palavras proferidas por Barack Obama, ao falar sobre o Sudão durante o ato público Save Darfur em 2006. Que tal um pouco de urgência moral, senhor presidente?

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