Terrorista que ajudou promotores se envolve em mais problemas

Benjamin Weiser

Há nove anos, um argelino acusado do fracassado “plano do milênio” para explodir o Aeroporto Internacional de Los Angeles tomou uma atitude incomum: ele se declarou culpado no Tribunal do Distrito de Manhattan nos EUA e se tornou um caso raro de terrorista islâmico condenado a cooperar com os EUA.

Diante de uma possível sentença de mais de 100 anos de prisão, Abdel Ghani Meskini depôs como testemunha de acusação em dois julgamentos e ajudou a condenar dois outros conspiradores do plano, que deveria coincidir com as celebrações do milênio nos Estados Unidos. Com o governo endossando a indulto, ele recebeu uma sentença curta, e foi solto em 2005. Então se mudou para o Estado da Geórgia, arranjou um emprego, pagou milhares de dólares em reparação e tentou construir uma nova vida.

Mas Meskini, 42, foi preso novamente há pouco tempo, acusado de violar os termos de sua liberdade condicional ao cometer novas transgressões. As autoridades disseram que ele teve uma arma de fogo em 2007 e, no ano passado, pediu para outras pessoas comprarem para ele um rifle AK-47. Ele até mesmo mandou um e-mail para uma pessoa com uma foto da arma que ele queria, disse o governo.

As autoridades também disseram que o FBI encontrou, durante uma busca no computador de Meskini no final de 2009, provas de que ele havia procurado lojas de armas na região de Atlanta na internet.

“Parece haver poucas evidências de que ele deixará este comportamento no futuro”, disse um relatório de sua condicional.

Meskini não foi acusado de novos crimes; em vez disso, os oficiais federais da condicional se referiram às alegações do juiz, John F. Keenan, que o sentenciou em 2004. Se ele fosse pego violando os termos de sua liberdade, ele poderia ser condenado a mais anos na prisão.

A promotoria de Manhattan não comentou o caso de Meskini. Na quinta-feira, os promotores notificaram o juiz de que pretendiam apresentar provas contra Meskini, obtidas numa busca autorizada pelo tribunal secreto de inteligência estrangeira do país.

O advogado de Meskini, Mark S. DeMarco, disse sobre seu cliente: “ele viveu de acordo com a lei desde que foi solto”. E acrescentou: “o governo não está alegando nenhuma tentativa de Ghani de voltar ao terrorismo. Posso dizer isso com certeza.”

As vidas das testemunhas que cooperam e recebem uma segunda chance podem ser complicadas, especialmente para aqueles que não conhecem a vida fora do crime.

Um exemplo notório é Salvatore Gravano, assassino da máfia conhecido como Sammy the Bull, cujo testemunho ajudou a condenar John J. Gott, chefe da família criminosa Gambino. Promotores pressionaram para que Gravano tivesse a pena reduzida, e ele recebeu uma sentença de cinco anos. Mas em 2000, depois de solto, Gravano foi acusado no Arizona de fazer parte de uma quadrilha multimilionária de drogas, e foi condenado a mais 20 anos na prisão.

O advogado de Gravano, Anthony L. Ricco, disse esta semana que não há garantias para vida dessas testemunhas fora da prisão. “Esta é uma chave para sair da cadeia – e não uma chave para ficar fora dela”, disse ele.

Antes da prisão de Meskini no conspiração do milênio, ele vivia como golpista e ladrão - “um defraudador”, como foi descrito por um promotor no tribunal. Meskini, que foi soldado do exército argelino, testemunhou que havia usado uma identidade falsa para compensar cheques roubados. Em 1994, ele decidiu deixar a Argélia, foi para os Estados Unidos escondido num navio para Boston.

Ele se sustentava usando passaportes e cartões de seguro social fraudulentos e abrindo contas bancárias com nomes falsos para obter cartões de crédito e cheques.

A conduta de Meskini foi tão questionada quando ele testemunhou para a promotoria que um advogado de defesa previu para o júri que ele cometeria novos crimes quando fosse solto da prisão.

“Se você tiver o azar de morara na mesma cidade que Meskini quando ele sair da cadeia e cair no abraço caloroso do programa de proteção de testemunhas, meu conselho é que você venda sua casa, cuide de sua carteira e saia de sua cidade antes que seja tarde demais”, disse o advogado, Daniel J. Ollen ao júri.

A conspiração do milênio foi interrompida em dezembro de 1999, quando outro argelino, Ahmed Ressam, foi preso enquanto tentava entrar nos EUA a partir do Canadá num carro, carregando componentes de bomba. As autoridades descobriram o número de telefone de Meskini em seu bolso.

Meskini, que morava no Brooklyn, foi preso e admitiu que fazia parte da conspiração. Ele testemunhou que deveria entregar dinheiro e prestar assistência logística a Ressam. Em março de 2001, Meskini concordou em cooperar com os promotores e admitiu ser culpado das acusações de fraude bancária e de conspiração para fornecer apoio material a terroristas.

Ele testemunhou para o governo nos julgamentos de Ressam, em Los Angeles, e de outro conspirador, Mokhtar Haouari, em Manhattan. Ambos foram condenados. Um promotor, Robin L. Baker, defendeu a credibilidade do testemunho de Meskini, dizendo aos jurados que ele não tinha motivos para mentir por que isso significaria perder seu acordo de cooperação e a chance de ter a sentença reduzida.

Em 2004, Meskini foi condenado a 72 meses; depois de ter ganhado crédito por tempo de prisão e bom comportamento, ele foi solto em 2005. Ele também teve de pagar uma compensação de cerca de US$ 60 mil.

No acordo de Meskini com o governo, os promotores disseram que entendiam que sua cooperação poderia levar a uma retaliação contra ele e sua família, e que se fosse necessário o governo tomaria medidas para garantir sua segurança. Meskini pediu a proteção do programa de proteção de testemunhas, mas não a recebeu, disse seu antigo advogado no tribunal.

Seu advogado atual, DeMarco, diz que seu cliente está trabalhando como gerente de vários prédios residenciais em Atlanta, onde ele manteve contato com seu oficial de condicional e fez seus pagamentos da compensação. Ele pagou mais de US$ 31 mil até agora, diz o relatório da condicional.

No último outono, Meskini foi detido por autoridades de imigração, que queriam que ele fosse retirado do país por causa de sua condenação anterior, diz o relatório. DeMarco disse que Meskini deu entrada a um pedido de asilo então, que ainda está pendente.

Tradutor: Eloise De Vylder

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