Mais veteranos buscam ajuda em serviço telefônico contra suicídio

James Dao

Canandaigua (Nova York, EUA)

  • Denis Sinyakov/Reuters

    Soldado norte-americano e crianças afegãs brincam com uma roda de bicicleta velha durante uma patrulha na localidade de Maruf-Kariz, no distrito de Dand, ao sul de Kandahar

    Soldado norte-americano e crianças afegãs brincam com uma roda de bicicleta velha durante uma patrulha na localidade de Maruf-Kariz, no distrito de Dand, ao sul de Kandahar

Melanie Poorman girou em sua cadeira e apertou um botão do telefone. O homem do outro lado do telefone, de 30 e poucos anos, veterano da guerra do Iraque, terminou recentemente com sua namorada e estava assistindo o filme “Body of War”, que despertou lembranças ruins. Ele começou a chorar.

E, é claro, ele tinha uma arma de fogo por perto. Alguém pode por favor vir aqui e levá-la embora, ele pediu.

Poorman, 54, orientou o homem delicadamente a descarregar a arma. Enquanto um colega chamava a polícia, ela continuou na linha, falando com ele sobre sua namorada, seu trabalho, sobre a guerra. De repente, ouviram sirenes.

“Eu descarreguei a arma!”, ela o ouviu gritar. E daí ele desligou (Ele foi levado para um hospital, ela ficou sabendo mais tarde). Poorman reclinou-se na cadeira e respirou profundamente.

“Este foi um caso fácil”, diz ela. Os mais difíceis são os que estão “bravos, bravos, bravos – tem uma intenção, um plano, e não tem vontade de receber ajuda”, diz ela. Mas ligam para lá de qualquer forma. “Acho que o contato é importante, até no final da vida”, diz ela.

Era uma noite comum na central de atendimento da linha quente para prevenção de suicídio do Departamento de Assuntos para Veteranos no centro de Nova York. Aqui, Rebecca conversou com um homem bêbado que via as pessoas que ele havia matado. Acolá, Katie estava na linha com um homem bipolar que estava tendo pesadelos. Do outro lado da sala, Virgínia tentava acalmar um homem se se recusava a tomar seu remédio e ameaçava se jogar no meio do trânsito.

Esta é a linha de frente dos esforços do governo para deter o suicídio de veteranos.

Embora os suicídios entre membros ativos em serviço sejam cuidadosamente registrados – e chegaram a um recorde mensal de 32 em junho – não existe nenhum dado para o suicídio entre os veteranos.

Mas as estimativas, embora não aceitas por todos, parecem alarmantes. De acordo com os Centros Para Controle e Prevenção de Doenças, os veteranos respondem por um em cada 5 dos mais de 30 mil suicídios cometidos nos Estados Unidos todos os anos.

Sob uma pressão cada vez maior de grupos de veteranos e do Congresso, o Departamento para Assuntos de Veteranos contratou nos últimos anos mais de 5 mil terapeutas e conselheiros e montou um sistema de coordenadores de prevenção do suicídio em mais de 150 centros médicos.

Ele também abriu um centro de pesquisas aqui em Canandaigua, associado com a Universidade de Rochester, que já teve um dos maiores programas do país para o estudo do suicídio.

Mas a linha de emergência se tornou a faceta mais visível das tentativas do governo para evitar o suicídio entre os veteranos, fornecendo exemplos tangíveis tanto do sucesso quanto das falhas da campanha.

Para os críticos, inclusive alguns defensores dos veteranos, a linha de emergência é uma abordagem necessária, mas desesperada, um torniquete para as pessoas com feridas psicológicas urgentes. Até que o departamento desenvolva programas de longo prazo mais eficientes para tratar e prevenir o comportamento suicida, os números continuarão a aumentar, dizem.

“Um veterano terá que chegar ao ponto de considerar o suicídio para ligar para aquele telefone”, testemunhou o veterano Melvin Citron diante de um subcomitê de Assuntos para Veteranos na Câmara numa audiência sobre o suicídio este mês. “Eu imagino que nesse ponto, para alguns, já pode ser tarde demais.”

Mas o departamento e seus partidários dizem que a linha de emergência é muito mais do que um curativo. Para muitos veteranos, ela se tornou uma abertura para serviços do governo. Cerca de um terço dos que ligam não estão no sistema de saúde dos veteranos, então os funcionários da linha telefônica de prevenção podem encaminhá-los para programas dos quais eles talvez não tivessem conhecimento.

A linha de emergência também está salvando algumas pessoas, mesmo que uma por dia. No ano fiscal de 2007, quando o programa foi inaugurado, o centro recebeu cerca de 9.380 telefonemas. No ano passado esse número cresceu mais do que dez vezes, para quase 119 mil.

Num dia comum, os atendentes recebem de 250 a 300 telefonemas de todo o país e de fora. Nem todos são de veteranos, mas os atendentes recebem todas as chamadas.

Ninguém sabe o que acaba acontecendo com as pessoas que telefonam, cuja grande maioria é de homens. Alguns provavelmente superam seu impulso, mas muitos eventualmente ligam de novo fazendo novas ameaças. E sem dúvida, alguns se matam.

Uma medida da eficácia do programa é conhecida como um “resgate”: quando os funcionários do serviço de emergência conseguem mandar para o hospital pessoas que estão ameaçando cometer suicídio ou de fato tentado se matar. A linha de emergência fez 10 mil resgates desde 2007.

Benjamin Rowe, 24, faz um resgate como este há algumas semanas. Um homem disse que havia amarrado uma corda em volta do pescoço e iria se enforcar de um ventilador de teto.

Rowe chamou a polícia, mas antes de eles chegarem, o homem, ainda no telefone, desceu da cadeira. Rowe podia ouvi-lo ofegando.

Mas a corda partiu e o homem caiu no chão, gritando baixo por ajuda quando a polícia finalmente bateu à porta.

“Eu não podia desligar, eu tinha que ouvir”, disse Rowe. “Todos que trabalham aqui já receberam várias ligações como esta.”

Janet Kemp, diretora de prevenção do suicídio no departamento nacional de saúde mental, disse que a princípio foi cética em relação ao serviço.

“Não achava que os soldados telefonariam”, diz ela. “Mas eu estava errada. Isso me surpreendeu.”

A linha de emergência é administrada junto com a maior rede de call centers para crise do país, a Linha Nacional para Prevenção do Suicídio. Os veteranos que ligarem para 1-800-273-TALK (8255) devem discar 1 e depois são conectados a um banco de cerca de 15 telefones num prédio de tijolos no centro médico de veteranos em Canandaigua.

Recentemente, o centro também começou a atender veteranos suicidas em chats online, assim como atender telefonemas de veteranos desabrigados que buscam abrigo de emergência.

Praticamente todos os 124 funcionários são formados ou têm experiência em aconselhamento, serviço social ou terapia. Apenas um terço é de veteranos, o que levantou críticas de alguns grupos de veteranos.

Caitlin Thompson, coordenadora de cuidado clínico, disse que uma grande maioria de veteranos simplesmente queriam alguém que os ouvisse.

“O ato de pegar o telefone é uma tentativa de se conectar com alguém uma última vez”, diz ela. “É essa ambivalência que estamos tentando usar.”

Durante toda a noite, Kevin Prenatt anda entre os atendentes, com uma prancheta nas mãos. Seu trabalho é procurar em bases de dados e registros telefônicos os endereços das pessoas que se recusam a dizer sua localização. A sorte e os palpites são às vezes suas únicas ferramentas.

Em abril, ele conseguiu localizar um homem que havia cortado os dois pulsos num parque público simplesmente porque a atendente conseguia ouvir um trem ao fundo. Por sorte, a cidade tinha apenas um parque próximo da linha de trem.

“Conheço os efeitos residuais do suicídio”, diz Prenatt, veterano de 52 anos da marinha cujo irmão mais velho se matou aos 26 anos. “Isso mundou minha mãe para sempre.”

Pouco depois ele estava ao lado de Michelle Edwards enquanto ela falava com uma oficial desesperada da Guarda Nacional que havia acabado de terminar com seu namorado, estava bebendo muito e tinha um revólver de 9 milímetros por perto.

Edwars tentou persuadir a mãe da mulher a levá-la a um hospital. Quando isso falhou, ela chamou a polícia.

“Eu vivi tudo isso”, disse Edwards depois de desligar.

Seu pai, diz ela, foi um veterano que voltou do Vietnã com graves cicatrizes físicas e psicológicas. Mas ele se tornou um assistente social e canalizou sua energia para ajudar os outros. Ela aprendeu com ele a gostar do aconselhamento, diz.

Dentro de minutos, seu telefone tocou novamente. Ela havia esquecido de apertar um botão que transfere as ligações para outras linhas – um sistema planejado para dar aos atendentes tempo para se livrarem da pressão antes de atenderem o próximo telefonema.

Ela atendeu, e pouco tempo depois, sua voz assumiu um tom de calma terrena.

“Fale mais devagar, senhor”, disse. “Você disse que está vendo pessoas com armas?”

Tradutor: Eloise De Vylder

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