Mais mortes na Venezuela do que no Iraque

Simon Romero (colaborou Maria Eugenia Diaz )

Em Caracas (Venezuela)

  • Fernando Llano/AP

    O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, teria agravado o problema dos homicídios no país ao cortar o dinheiro destinado às prefeituras e governos estaduais liderados por oponentes políticos

    O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, teria agravado o problema dos homicídios no país ao cortar o dinheiro destinado às prefeituras e governos estaduais liderados por oponentes políticos

Algumas pessoas daqui brincam que estariam mais seguras se vivessem em Bagdá. Os números as apoiam. No Iraque, um país com aproximadamente a mesma população que a Venezuela, ocorreram 4.644 mortes por violência em 2009, segundo a Iraq Body Count (IBC, Contagem de Corpos no Iraque); na Venezuela naquele ano, o número de assassinatos ultrapassou 16 mil.

Até mesmo a notória guerra das drogas do México tomou menos vidas. Os venezuelanos convivem com essas estatísticas sombrias há anos. Aqueles com mais posses escondem suas casas atrás de muros e contratam especialistas estrangeiros em segurança para orientá-los a como evitar sequestros e assassinatos. Ricos e pobres estão resignados a conviver com taxas de homicídios que não estão entre as prioridades do governo.

Então uma foto em primeira página em um importante jornal independente –e a reação do governo– chocou o país e reacendeu o debate público a respeito da criminalidade violenta.

A foto no jornal “El Nacional” é inquestionavelmente sangrenta. Ela mostra uma dúzia de vítimas de homicídio no maior necrotério da cidade, apenas uma amostra de um período de dois dias incomumente anárquicos neste lugar já perigoso.  Apesar de muitos venezuelanos terem visto a foto como um sério lembrete de sua vulnerabilidade e uma chance de promover mudança, o governo adotou uma posição diferente.

Um tribunal ordenou que o jornal parasse de publicar imagens da violência, como se as crescentes dúvidas a respeito do motivo para o governo – apesar de proclamar uma revolução que promove valores socialistas– não conseguir reduzir a desigualdade perigosa entre ricos e pobres e tornar as ruas do país mais seguras.

“Esqueçam as centenas de crianças que morrem por balas perdidas ou as crianças que vivem o horror de ver seus pais ou irmãos mais velhos mortos diante de seus olhos”, disse Teodoro Petkoff, o editor de outro jornal aqui, zombando da decisão do tribunal em um editorial de primeira página. “O problema deles é a foto.”

A Venezuela está lidando com um aumento de uma década nos homicídios, com aproximadamente 118.541 desde que o presidente Hugo Chávez assumiu a presidência em 1999, segundo o Observatório da Violência Venezuelana, um grupo que compila números baseados nos boletins policiais. (O governo parou de divulgar suas estatísticas detalhadas sobre homicídios, mas não contestou os números do grupo, e artigos na imprensa, citando números não divulgados do governo, sugerem que os grupos de direitos humanos podem estar contando a menos os homicídios.)

Ocorreram 43.792 homicídios na Venezuela desde 2007, segundo o observatório da violência, em comparação com aproximadamente 28 mil mortes provocadas pela violência das drogas no México desde que o ataque aos cartéis teve início no final de 2006. Caracas é quase imbatível entre as grandes cidades das Américas em sua taxa de homicídios, que atualmente é de cerca de 200 por 100 mil habitantes, segundo Roberto Briceño-León, o sociólogo da Universidade Central da Venezuela, que dirige o observatório da violência.

Em comparação, recentes medições apontaram 22,7 por 100 mil habitantes em Bogotá, a capital da Colômbia, e 14 por 100 mil habitantes em São Paulo, a maior cidade do Brasil. Como o governo Chávez frequentemente aponta, o problema da criminalidade da Venezuela não surgiu da noite para o dia, e a preocupação com as taxas de homicídios antecede sua ascensão ao poder.

Mas acadêmicos daqui descrevem o aumento constante dos homicídios ao longo da última década, sem precedente na história venezuelana. O número de homicídios no ano passado foi mais de três vezes maior do que quando Chávez foi eleito, em 1998.

Os motivos para o aumento são complexos e variados, dizem os especialistas. Apesar de muitas economias latino-americanas estarem crescendo rapidamente, a da Venezuela continua encolhendo. A desigualdade entre ricos e pobres permanece grande, apesar dos gastos em programas antipobreza, alimentando o ressentimento. Além disso, o país está repleto de milhões de armas de fogo ilegais.

Os salários da polícia permanecem baixos, minando a motivação. E no país com maior índice de inflação do hemisfério, de mais de 30% ao ano, alguns oficiais resolveram complementar sua renda com crimes como sequestros.

Mas alguns especialistas em criminalidade dizem que outro fator precisa ser considerado: o próprio governo Chávez. A Justiça está cada vez mais politizada, perdendo juízes independentes e se alinhando mais estreitamente com o movimento político de Chávez. Muitos funcionários públicos experientes abandonaram o serviço público ou até mesmo o país.

Mais de 90% dos homicídios não são solucionados pela polícia, sem uma única prisão, disse Briceño-León. Mas os casos contra os críticos de Chávez – incluindo juízes, generais dissidentes, banqueiros e executivos da mídia– são cada vez mais comuns.

Henrique Capriles, o governador de Miranda, um Estado que abrange partes de Caracas, disse aos repórteres na semana passada que Chávez agravou o problema dos homicídios ao cortar o dinheiro destinado às prefeituras e governos estaduais liderados por oponentes políticos, e ao remover milhares de armas de suas forças policiais após perder as eleições regionais.

Mas o governo diz que está tentando tratar do problema. Ele recentemente criou uma força de segurança, a Polícia Nacional Bolivariana, e uma nova Universidade Experimental de Segurança, onde recrutas da política recebem treinamento de consultores de Cuba e da Nicarágua, dois aliados que historicamente têm mantido as taxas de homicídio entre as mais baixas da América Latina.

A prioridade da polícia nacional, disse Victor Diaz, um alto oficial da força e um administrador da nova universidade, é o “respeito irrestrito aos direitos humanos”. “Eu não estou dizendo que seremos fracos”, ele disse, “mas a ideia é usar o diálogo e a dissuasão como métodos de controle verbal ao lidar com problemas”.

As autoridades no governo Chávez dizem que o uso da polícia nacional, cujas fileiras são compostas por menos de 2.500, teve sucesso em reduzir os homicídios em pelo menos uma área violenta de Caracas, onde começou a patrulhar neste ano.

Ainda assim, grupos de direitos humanos sugerem que os novos esforços de policiamento têm sido tímidos demais para lidar com a epidemia de homicídios. O Incosec, um grupo de pesquisa voltado para assuntos de segurança, contou 5.962 homicídios em apenas 10 dos 23 Estados da Venezuela na primeira metade deste ano.

Enquanto isso, o debate em torno da fotografia do necrotério, publicada pelo jornal “El Nacional”, está aumentando, transformando-se em uma discussão mais ampla a respeito dos esforços do governo para censurar os órgãos de imprensa que não controla.

O governo diz que a foto visa miná-lo, não informar o público. As autoridades também ameaçam investigar “Rotten Town” (cidade podre), um vídeo de um cantor de reggae venezuelano que mostra uma criança inocente atingida por uma bala perdida. Apesar de todos os protestos do governo, o vídeo se disseminou rapidamente pela Internet desde seu lançamento aqui, no início deste mês.

Dada a posição do governo nesses casos, muitos aqui temem que ele esteja se concentrando no mensageiro, não na mensagem.  Hector Olivares, 47 anos, aguardava do lado de fora do necrotério certa manhã neste mês, para retirada do corpo de seu filho, também chamado Hector, 21 anos. Ele disse que seu filho estava em uma festa na favela de El Cercado, nos arredores de Caracas, quando um homem armado abriu fogo e o matou.

Oliveras disse que Hector é o segundo filho que perde para a violência insensata, após outro filho ter sido morto há quatro anos, aos 22 anos. Ele disse que não culpa Chávez pelas mortes, mas implorou ao presidente para tornar o combate à criminalidade em sua maior prioridade. “Nós o elegemos para combater o problema que enfrentamos”, ele disse. “Mas não há controle dos criminosos nas ruas, nenhum controle de nada.”
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos