Talvez você não saiba, mas conhece o trabalho do escritor de séries de TV Jackson Gillis

Bruce Weber

  • Metro-Goldwyn-Mayer/AP

    Imagem de divulgação do filme "Lassie Come Home", de 1943, que deu origem à série com personagem canino da qual Jackson Gillis participou

    Imagem de divulgação do filme "Lassie Come Home", de 1943, que deu origem à série com personagem canino da qual Jackson Gillis participou

Policiais e detetives, médicos e advogados, espiões e caubóis, heróis, super-heróis e semi-super-heróis. Esses são itens básicos do drama televisivo, e uma das pessoas anônimas que os consagrou foi Jackson Gillis, um guerreiro fértil das trincheiras do roteiro televisivo cuja carreira durou mais de quatro décadas e cujos roteiros colocaram palavras nas bocas do Super-Homem, Perry Mason, Columbo, Mulher Maravilha, Zorro, Tarzan, Napoleon Solo e Illya Kuryakin, Jessica Fletcher e, por assim dizer, Lassie.

Gillis morreu de pneumonia em Moscou, Idaho, em 19 de agosto, disse sua filha Candida. Ele tinha 93 anos.

Gillis não foi um vencedor de prêmios – ele foi nomeado para apenas um Emmy, em 1972, por um episódio de “Columbo” - mas seu currículo traça um caminho notável ao longo da evolução do horário nobre. Seu nicho eram as peripécias de roteiro, nas quais o perigo perturba a ordem serena das coisas, chega à dimensão de crise e é resolvido com presteza pelo protagonista, tudo em meia hora, ou, mais frequentemente, em uma hora.

A fórmula, é claro, foi bastante consistente durante sua carreira – e tem continuado assim, mas Gillis mostrou que era capaz de se adaptar às novas tendências.

Nos anos 50, seus diálogos em “As Aventuras de Super Homem” e “Lassie”, por exemplo, eram repletos de clichês (mesmo que às vezes de forma irônica) e respostas não muito sutis. Nos anos 60, quando escreveu para séries como “I Spy” e “The man From UNCLE”, com seus agentes secretos perspicazes, ele incorporou as gírias da época, que a TV, embora de forma hesitante, invocou para espelhar a década. Mais tarde, em “Columbo”, ajudou a definir a natureza discreta do personagem principal (interpretado por Peter Falk), com linhas que eram sutis e irônicas.

Jackson Clark Gillis nasceu em Kalama, Washington, em 21 de agosto de 1916. Seu pai, Ridgway, engenheiro de estradas, mudou-se com a família para a Califórnia quando Jackson era adolescente. Sua mãe, Marjorie Lyman, era professora de piano. Ele frequentou a Universidade Estadual de Fresno e formou-se em Stanford. Ele atuou depois da faculdade e trabalhou na Inglaterra e no Barter Theater em Virgínia (Gregory Peck também estava na companhia na época).

“Ele fez uma peça de George Bernard Shaw. Este veio assisti-lo e depois mandou um cartão postal criticando a forma que ele saía de cena”, escreveu sua filha num e-mail. “Eu tenho o postal.”

Gillis serviu o Exército como oficial de inteligência no Pacífico durante a 2ª Guerra Mundial. Depois de ser dispensado, ele e sua mulher mudaram-se para Los Angeles, e ele começou a escrever para o rádio, incluindo os mistérios “The Whistler” e “Let George Do It”.

Ele passou para a TV no começo dos anos 50. Seu primeiro trabalho regular foi para um seriado de policiais chamado “I'm the Law”, estrelado por George Raft como um detetive de polícia de Nova York. A partir de 1953, escreveu inúmeros episódios de “As Aventuras do Super-Homem” e, de 1954 e 1960, foi um colaborador frequente dos feitos caninos e latidos comunicativos de “Lassie”.

Ele passou vários anos escrevendo para “Perry Mason”, a partir de 1959. Também escreveu episódios populares para crianças que eram exibidos no “The Mickey Mouse Club” [“O Clube do Mickey”]: “As Aventuras de Spin and Marty”, sobre meninos que moravam numa fazenda, e duas aventuras dos Hardy Boys, irmãos adolescentes que eram detetives amadores, “O Mistério do Tesouro de Applegate” e “O Mistério da Fazenda Fantasma”.

O casamento de 62 anos de Gillis com Patricia Cassidy, que ele conheceu quando eram colegas de atuação no Barter Theater, terminou com a morte dela, em 2003. Além de sua filha, que mora em Moscou, ele também deixou um irmão, William, em Walnut Creek, Califórnia, e um neto.

Candida Gillis disse numa entrevista por telefone que, quando ela era criança, a trilha sonora da casa deles era o constante rá-tá-tá da máquina de escrever do pai e que, com certeza, o mais impressionante sobre a Carreira de Gillis é simplesmente sua amplitude. Ele trabalhou em “Racket Squad”, “Sugarfoot”, “O Fugitivo”, “Perdidos no Espaço”, “The Wild, Wild West”, “Missão: Impossível”, “Mannix”, “The Mod Squad”, “Bonanza”, “Ironside”, “Land of the Giants”, “Hawaii Five-O”, “Medical Center”, “Starsky and Hutch”, “Police Woman” e “Murder, She Wrote”.

Sua filha o descreve como um escritor freelancer que nunca participou ativamente da vida de Hollywood. Quando a levava ao estúdio, falava para ela não olhar fixamente para ninguém que reconhecesse. “Ele nunca se impressionou com a indústria”, diz ela, acrescentando que ele não assistia muita televisão. “Ele assistia ao futebol”, disse Candida Gillis. “Ele achava que a maior parte do que estava na TV era lixo.”

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos