Diplomatas americanos ensaiam revolta contra políticas de Trump

Mark Landler

Em Washington (EUA)

  • NICHOLAS KAMM/AFP

Enquanto o presidente Donald Trump causa tensão em alianças e relações internacionais em todo o mundo, alguns dos principais diplomatas de carreira dos EUA estão rompendo publicamente com ele, no que constitui uma revolta silenciosa de um grupo de funcionários públicos conhecidos pela discrição profissional.

Na segunda-feira (5), o "chargé d'affaires" [encarregado de negócios] da embaixada americana em Pequim, David H. Rank, anunciou sua renúncia depois de dizer à sua equipe que não podia defender a decisão do governo Trump de se retirar do Acordo de Paris sobre o clima.

Na véspera, o embaixador em exercício no Reino Unido, Lewis A. Lukens, tuitou seu apoio ao prefeito de Londres, Sadiq Khan, depois do ataque terrorista mortífero que ocorreu na cidade. Na manhã de domingo Trump havia começado uma briga com o prefeito no Twitter.

No mês passado, a embaixadora no Qatar, Dana Shell Smith, reagiu à demissão por Trump do diretor do FBI, James Comey, tuitando: "Cada vez mais difícil acordar no exterior com notícias de casa, sabendo que passarei o dia explicando nossa democracia e instituições".

O Departamento de Estado tem sido um celeiro de resistência às políticas do governo Trump desde o início. Cerca de mil funcionários graduados assinaram um telegrama de protesto contra a proibição temporária de vistos para visitantes de sete países de maioria muçulmana que o governo tentou impor em janeiro.

Houve um pequeno êxodo de diplomatas mais velhos, o que, combinado com o ritmo lento das nomeações, deixou a sede do Departamento de Estado visivelmente vazia.

Mas as tensões entre a Casa Branca e o corpo diplomático hoje estão mais evidentes ao público, e em um nível mais elevado. Lukens, Rank e Smith estão há décadas no serviço de Relações Exteriores, chegando a postos de embaixador ou próximos disso.

"É uma situação extraordinariamente incomum para o serviço diplomático", disse R. Nicholas Burns, que serviu como subsecretário de Estado para assuntos políticos no governo George W. Bush, tradicionalmente o cargo mais elevado para diplomatas de carreira. "Eles se orgulham de ser apartidários. Você serve a cada presidente 150%."

No caso de Rank, segundo vários de seus amigos, ele foi orientado a apresentar ao governo chinês os motivos da Casa Branca para se retirar do acordo climático de Paris. Ele disse a colegas em uma reunião geral na embaixada que não podia defender essa política.

Segundo amigos de Rank, que se tornou "chargé d'affaires" em Pequim em janeiro, ele ficou profundamente frustrado com a direção geral da política americana em relação à China, mas especialmente sobre a mudança climática. Ele deveria ocupar o posto até a chegada de Terry Branstad, ex-governador de Iowa, que foi confirmado em maio como embaixador de Trump à China.

O acordo sobre o clima fechado entre o governo Obama e o chinês em 2014 definiu as bases para o acordo global assinado em Paris. A mídia oficial chinesa foi ácida em suas críticas à decisão de retirada de Trump.

Rank não respondeu a um e-mail pedindo comentários. Amigos disseram que ele estava voltando para os EUA.

Uma autoridade do Departamento de Estado, falando em "off" porque não podia comentar assuntos pessoais, caracterizou a renúncia de Rank como uma "decisão pessoal". Ele não quis dizer se envolvia a política climática.

Um veterano há 27 anos nas Relações Exteriores e falante fluente de mandarim, Rank também serviu em Taiwan, na Grécia e nas ilhas Maurício. Nos últimos anos, trabalhou extensamente sobre o Afeganistão, servindo como diretor da pasta do país em Washington e conselheiro político em Cabul.

No caso de Luken, o choque foi menos sobre princípios do que uma troca de sinais confusos com a Casa Branca. A declaração que ele divulgou no domingo, depois do ataque mortal no sábado à noite em Londres, foi o tipo de declaração emitida habitualmente por embaixadas do mundo todo.

Lukens disse em um e-mail que não obteve autorização do Departamento de Estado para os tuítes que ele postou no domingo na conta da embaixada no Twitter porque era prática comum manifestar apoio a um país anfitrião depois de um ataque terrorista.

"Eu felicito a forte liderança do @MayorofLondon [prefeito de Londres] enquanto ele conduz a cidade adiante depois desse ataque odioso", escreveu Lukens, acrescentando em outra postagem elogios à reação dos serviços de emergência, polícia e autoridade de Londres.

Antes naquele dia, Trump tuitou: "Pelo menos 7 mortos e 48 feridos em ataque terrorista e o prefeito de Londres diz que 'não há motivo para alarme'!" Sua postagem interpretou mal Khan, que havia dito aos londrinos para não se alarmarem com a forte presença policial depois do ataque.

Na segunda-feira, o presidente continuou seu ataque a Khan, o primeiro prefeito muçulmano da capital britânica, rotulando sua explicação do comentário sobre o público não ficar alarmado como uma "desculpa patética" e acusando a mídia noticiosa de "trabalhar duro para vendê-la".

Smith, que continua servindo no Qatar, não pôde ser encontrada para comentar. Durante o fim de semana, ela retuitou um post de apoio a Khan do prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti.

Várias pessoas comentaram que Lukens trabalhou para Hillary Clinton quando ela foi secretária de Estado e atuou na montagem do sistema de comunicações que ela usava, que lhe permitia enviar e receber e-mails em um servidor privado usando um endereço de e-mail pessoal.

Um veterano há 28 anos nas Relações Exteriores, Lukens tornou-se embaixador em exercício em Londres em janeiro, depois que a Casa Branca chamou de volta o enviado de Obama, Matthew Barzun.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos