Ano de 2005 traz a última chance para Tony Blair

Chris Layton
Em Londres

Se Tony Blair deseja deixar sua marca na história, deve ser como estadista europeu e mundial. Por duas vezes ele perdeu oportunidades cruciais para inserir a Grã-Bretanha no coração da Europa e fazê-lo de uma forma que redesenharia construtivamente a parceria do Atlântico e o mundo.

Quando ele assumiu o poder, ele perdeu a chance de fazer a Grã-Bretanha adotar o euro, criando um melhor equilíbrio no sistema monetário global. O Iraque ofereceu a chance de forjar uma genuína política européia de segurança e relações exteriores por meio de um propósito estratégico compartilhado, forjado no fogo dos eventos decisivos.

Com a balança do debate em Washington equilibrada de forma delicada, havia uma oportunidade histórica para uma Europa unida conter uma América temerariamente unilateral e reforçar a regra global da lei por meio da inspeção da ONU, tornando tanto a Europa quanto os Estados Unidos bem mais seguros do que estão hoje.

Mas se Blair sobreviver às atuais tragédias, ele tem uma terceira chance de deixar sua marca na história, como estadista europeu e mundial, desta vez por meio da questão que ele mesmo considera como o maior desafio diante da humanidade: a mudança climática.

A mudança do clima provocada pelo homem é, nas palavras do conselheiro científico chefe do governo, uma ameaça maior do que o terrorismo. E os temores dos cientistas, inicialmente incertos, agora estão confirmados por um padrão de eventos em aceleração: elevação das médias de temperatura, derretimento do gelo do Ártico, Groenlândia e das montanhas, clima errático, furacões e inundações.

Os cientistas concordam que as emissões globais precisam ser reduzidas em cerca de 60 a 80% durante este século para que as temperaturas do mundo possam se estabilizar dentro de um aumento médio seguro de 2 graus.

Se as emissões continuarem expandindo, as temperaturas poderão subir em uma média de 6 graus ou mais, elevando o nível dos oceanos, ameaçando uma reação em cadeia descontrolada e a sobrevivência de muitas espécies, incluindo a nossa. Há um enorme abismo entre a necessidade de uma ação global coletiva e o fracasso da resposta política.

É aqui onde os talentos impressionantes do primeiro-ministro poderão encontrar uma causa digna, caso sua aparente compreensão da mudança climática global possa ser aplicada a ações de seu próprio governo e a uma ação de estadista na Europa e no mundo. Mas ele precisará de coragem e disposição para iniciar uma ação sem apoio americano.

Durante 2005, a Grã-Bretanha assumirá a presidência do grupo dos países industrializados G8, e em julho da União Européia (UE). As esperanças do primeiro-ministro de usar a presidência do G8 para persuadir o novo governo Bush a se juntar aos demais e assumir o compromisso multilateral pós-fase de Kyoto foram recebidas com brusca rejeição. A Casa Branca está ridicularizando mais do que nunca os medrosos climatologistas europeus. Assim, a liderança deve vir da Europa e do mundo em desenvolvimento.

A presidência britânica da UE na segunda metade de 2005 será crucial. A liderança da UE foi chave para o acordo inicial de Kyoto e continua essencial para sua implementação.

Apoiada por um pensamento mais comum entre Grã-Bretanha, França e Alemanha, a presidência britânica fornecerá a oportunidade para moldar uma posição européia comum para as negociações mais amplas, que devem começar no final de 2005, sobre o próxima etapa de cortes globais, que devem começar até no máximo 2012.

Elas deverão tratar de questões centrais de longo prazo: compromisso na redução da emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa até um nível responsavelmente seguro, e formar um equilíbrio que possa mobilizar os países em desenvolvimento, a maioria do mundo.

Estas necessidades são atendidas com "contração e convergência", a abordagem desenvolvida pelo Global Commons Institute e apoiada pela maioria das entidades ambientais de todo o mundo.

Funciona desta forma: os Estados participantes estabelecerão uma meta de longo prazo para emissão total de gases responsáveis pelo efeito estufa, e as reduções necessárias de emissões para que isto seja conseguido (contração).

Eles então adotariam um princípio segundo o qual todo cidadão mundial teria direito a emitir uma cota igual de gases do efeito estufa até certa data --talvez algo entre 2030 e 2050-- de forma que os limites de emissão de um país, até lá, seriam determinados por sua população.

No período de transição, um mercado global de emissões transferiria recursos para os países pobres que tivessem permissão para emissão adicional e forçaria os países ricos a reduzirem suas emissões aplicando as tecnologias da era pós-carbono (convergência).

O impulso necessário não será conseguido aguardando pelo mais lento. A colaboração dentro das disposições da convenção sobre mudança climática da ONU pelo grupo de vanguarda deve estabelecer instituições eficazes para monitorar e assegurar a implementação do sistema, administrar o mercado de emissões, resolver disputas, cobrar responsabilidades e aplicar a regra da lei.

Tal ação poderá ajudar a mobilizar os Estados Unidos a agirem em seu próprio benefício e assumirem sua parcela de liderança de direito. Os Estados americanos com programas de redução de emissão poderiam se associar ao mercado de emissão da comunidade climática mesmo se o governo federal optar por ficar de fora.

Assim como no comércio, uma ação unida da Europa poderá atrair os Estados Unidos de volta à parceria. Mas por ora, o caminho promissor para o primeiro-ministro é iniciar o diálogo necessário para preparar este "novo acordo entre nações" (frase dele).

A vitória nas próximas eleições lhe dará sua última chance de colocar a Grã-Bretanha no centro da política externa da Europa e do governo compartilhado do mundo. Primeiro-ministro britânico ainda não correspondeu às expectativas George El Khouri Andolfato

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