Islamofobia é um mito negado pelos números

Por Kenan Malik
Em Londres

Há dez anos, ninguém nunca tinha ouvido falar em islamofobia. Hoje, praticamente todo mundo, desde líderes muçulmanos até ministros do governo, passando por ativistas anti-racistas, quer nos convencer de que a Grã-Bretanha está se preparando para tomar uma série de medidas de grandes proporções contra o Islã.

Mas, será mesmo que a islamofobia existe? O problema com esta idéia é que ela confunde o ódio e a discriminação contra os muçulmanos de um lado, com as críticas ao Islã de outro. Com freqüência excessiva, a acusação de "islamofobia" costuma se feita pelos muçulmanos não para pôr em evidência o racismo, e sim para silenciar as críticas que são formuladas em relação ao Islã, ou ainda para enfrentar aqueles dos seus próprios irmãos muçulmanos que lutam para reformar as suas comunidades.

Na realidade, a discriminação em relação aos muçulmanos não é tão considerável assim, ao contrário do que tem sido alardeado com tanta freqüência. Ao realizar um filme sobre a islamofobia para o canal de televisão Channel 4, eu descobri que existe uma distância enorme entre percepção e realidade. Um dos problemas diz respeito à perseguição de muçulmanos pela polícia.

No verão passado, o Home Office (equivalente britânico ao ministério do Interior, este organismo comporta um centro de estatísticas e pesquisas políticas e econômicas) divulgou uma pesquisa cujos resultados revelaram um aumento de 300% do número de asiáticos que haviam sido detidos e revistados em nome das leis antiterror britânica.

Jornalistas, líderes muçulmanos e até mesmo alguns membros do próprio Home Office, todos eles reclamaram de que aquilo era um sintoma de "islamofobia." "A comunidade muçulmana inteira está sendo alvejada pela polícia", denunciou Khalid Sofi, do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha.

A noção crua e nua de um "aumento de 300%" dava a entender que os responsáveis pela manutenção da ordem tinham a mão pesada, para dizer o mínimo. Mas bastava cavar um pouquinho mais fundo para descobrir que estas estatísticas mostravam que apenas 3 mil asiáticos haviam sido interpelados e revistados durante o ano anterior, em nome das leis contra o terrorismo.

Desses, provavelmente metade eram muçulmanos. Em outras palavras, cerca de 1.500 muçulmanos, numa população de pelo menos 1,6 milhões de muçulmanos morando na Grã-Bretanha, haviam sido interpelados no quadro das leis antiterror - ou seja, não estamos nem de longe diante de um caso em que a polícia estaria alvejando todo e qualquer muçulmano.

No total, 21.577 pessoas de toda origem foram detidas e revistadas no quadro das leis antiterror. A maioria dentre elas -14.429 - era branca. Mesmo assim, quando eu entrevistei Iqbal Sacranie, o secretário-geral do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha, ele insistiu sobre o fato de que "entre 95% e 98% daqueles que foram detidos e revistados no quadro das leis antiterror eram muçulmanos".

A proporção exata é 14% (para os asiáticos). Entretanto, em muitas oportunidades mostrei-lhe as verdadeiras estatísticas, mas ele se recusou a rever a sua posição. As estatísticas nas quais ele se baseia parecem simplesmente ter sido colhidas nas estrelas.

Existe ainda assim uma desproporção no tratamento para com os asiáticos: o seu número corresponde a cerca de 5% da população, mas eles representam 14% daqueles que foram detidos no quadro das leis antiterror. Será que isso poderia ser fruto de um preconceito contra os muçulmanos? Talvez.

Mas é muito mais provável que isso se deva ao fato de a maior parte das operações antiterror serem realizadas em áreas - perto do aeroporto de Heathrow (em Londres), por exemplo - onde moram muitos asiáticos. Cerca de dois terços das operações de detenção e revista no quadro das leis antiterror foram efetuadas em Londres, onde os asiáticos formam 11% da população.

As queixas de islamofobia tornam-se ainda menos críveis quando se considera a totalidade das detenções e revistas. Apenas uma ínfima proporção das 869.164 detenções e revistas realizadas em 2002-03 foi efetuada no quadro das leis antiterror.

Se houvesse mesmo um alastramento da islamofobia entre os integrantes da polícia, seria de se esperar encontrar asiáticos em números desproporcionados no conjunto das estatísticas que foram levantadas. Mas não é o caso. Os asiáticos são detidos e revistados globalmente dentro da proporção da sua população, se as faixas etárias forem levadas em conta.

Todos esses números são de domínio público. Mesmo assim, não apareceu nenhum jornalista de reputação para questionar a afirmação segundo a qual uma quantidade desproporcional de asiáticos havia sido detida e revistada. A admissão da islamofobia penetrou de tal forma no subconsciente da população que ninguém se dá o trabalho de verificar se as acusações têm fundamento.

No debate sobre detenções e revistas, existem estatísticas objetivas em função das quais é possível verificar a veracidade das queixas de islamofobia. No que diz respeito às agressões físicas, entretanto, a verdade é mais difícil de discernir.

A definição do que é um ataque racista mudou radicalmente ao longo dos últimos 20 anos. Atualmente, todo tipo de exação, desde insultos proferidos até agressões brutais, está incluído nas estatísticas.

O problema complica-se ainda mais com o fato de que, em conseqüência de uma decisão de justiça decorrente do inquérito contra MacPherson, suspeito de ter assassinado Stephen Lawrence, os policiais passaram a ser obrigados a aceitar a percepção que a vítima tem de estar sendo alvo de um ataque.

Caso a vítima achar que se trata de um ataque de cunho racista, os policiais devem tratar o caso como se ele tivesse mesmo este caráter, o que introduz um vasto elemento subjetivo na apreciação dos fatos.

Se as estatísticas que dizem respeito a ataques de cunho racista são difíceis de compilar, é ainda mais difícil definir o que seria um ataque islamofóbico. Será que nós deveríamos considerar todo ataque contra um muçulmano como islamofóbico? Se um motorista de táxi afegão for assaltado, será isso uma agressão racista, um incidente islamofóbico ou simplesmente um caso de violência aleatório?

Tal incerteza abre avenidas que permitem difundir todo tipo de queixas vinculadas à islamofobia. Segundo Iqbal Sacranie, os muçulmanos nunca haviam enfrentado um perigo físico tão grande como aquele que eles vêm enfrentando atualmente. O editor do jornal "Muslim News" (Notícias Muçulmanas), Ahmed Versi, acredita, de maneira similar, que "depois de 11 de setembro de 2001, nós temos assistido ao maior número de ataques de todos os tempos contra muçulmanos".

Tanto a minha experiência pessoal como as estatísticas que existem efetivamente contradizem essas queixas. Durante a minha infância e adolescência, nos anos 70 e 80, o racismo tomava formas terríveis e com freqüência, fatais. Os esfaqueamentos e os ataques com bombas incendiárias eram rotineiros em algumas regiões da Grã-Bretanha.

Em maio de 1978, mais de 7 mil bengalis (imigrantes do Bangla Desh) participaram de uma passeata que saiu de Whitechapel e foi até Whitehall (bairros de Londres), em protesto contra o assassinato de Altab Ali, um operário que trabalhava numa fábrica de vestuário perto de Brick Lane - sendo que este foi um dos oito assassinatos de cunho racista recenseados naquele ano.

Durante a década seguinte, ocorreram pelo menos outros 49 assassinatos desse tipo. Para os muçulmanos, o final dos anos 80 - a partir do caso Rushdie até a primeira guerra do Golfo - foi particularmente duro. Eu mesmo costumava organizar patrulhas em diversas aéreas do leste de Londres para proteger famílias asiáticas de ataques racistas.

A Grã-Bretanha é agora um lugar diferente - mesmo para os muçulmanos. É verdade, ainda ocorrem ataques de natureza racista. No início de dezembro, três jovens muçulmanos foram surrados em Manchester por uma forte gangue de 15 integrantes, naquilo que foi descrito pela polícia como um "horrível ataque racial". Mesmo assim, as coisas mudaram de forma considerável desde os anos 70 e 80, o que me leva a constatar que é muito reduzida hoje a consciência da intensidade do racismo que existia naquela época.

O fato de essas estatísticas estarem disponíveis confere peso a esta percepção pessoal. A União Européia estava tão preocupada com possíveis ataques contra muçulmanos nos dias que se seguiram aos atentados de 11 de setembro de 2001 que os seus dirigentes ordenaram que fosse realizado um inquérito especial sobre essa questão.

Ao longo dos quatro meses que se seguiram aos ataques contra o World Trade Center, foram recenseados cerca de uma dúzia de agressões físicas sérias contra muçulmanos britânicos. Em todo caso, são doze crimes que não deveriam ter acontecido e que toda alma em sã consciência lamenta, mas eles não configuram a existência de um clima de islamofobia.

Até mesmo as organizações muçulmanas que fazem campanha contra a islamofobia enfrentam dificuldades ao tentar sustentar a tese de que os ataques contra muçulmanos são rotineiros no Reino Unido. A Comissão Islâmica dos Direitos Humanos levantou a ocorrência de 344 ataques contra muçulmanos durante o ano que se seguiu aos atentados de 11 de setembro. Na sua maioria, foram incidentes de importância relativamente menor, tais como empurrões e cuspidas.

Para os líderes muçulmanos, o fato de exagerar a importância da ameaça da islamofobia é um estratagema que os ajuda a consolidar a sua base de poder, tanto no quadro de suas próprias comunidades quanto na sociedade como um todo. Os muçulmanos britânicos há muito vêm considerando com inveja o poder político que a comunidade judaica exerce, e o status que foi concedido ao Conselho dos Deputados Judeus Britânicos.

Nesse sentido, uma das razões que motivaram a fundação do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha foi a tentativa de imitar o sucesso político do conselho judaico. Os líderes muçulmanos falam em lançar mão da islamofobia na mesma medida que eles avaliam que os líderes judeus andaram explorando o medo nos seus apelos contra a ameaça do anti-semitismo.

O recurso de exagerar a existência de preconceitos contra os muçulmanos é também muito útil para os políticos que atuam na linha da corrente dominante, e especialmente para um governo trabalhista que teve de enfrentar uma batalha política extremamente dura contra a guerra no Iraque e contra as suas leis antiterror. O fato de se mostrarem sensíveis à islamofobia lhes permite exigirem da sociedade comportamentos de um nível moral mais elevado. Isso permite também aos políticos trabalhistas tentar conquistar o voto dos muçulmanos.

Os muçulmanos podem se sentir "traídos" pela guerra no Iraque, escreveu recentemente o ministro do comércio, Mike O'Brien, em artigo no jornal "Muslim Weekly", mas "o governo trabalhista está tentando cumprir uma série de compromissos, por meio dos quais ele tem mostrado uma grande consideração e respeito para com os muçulmanos".

Segundo O'Brien: "Iqbal Sacranie, o secretário-geral do Conselho Muçulmano, pediu a Tony Blair para declarar que o governo se comprometia a apresentar uma nova lei visando a banir a discriminação religiosa. Duas semanas mais tarde, durante o seu discurso na conferência do Partido Trabalhista, Tony Blair prometeu que o próximo governo trabalhista baniria a discriminação religiosa. Aquilo constituiu uma vitória da maior importância para a comunidade muçulmana na Grã-Bretanha".

Alegar falsamente que os muçulmanos nunca passaram por momentos tão difíceis em toda a história poderia beneficiar aos líderes desta comunidade e permitir alguns políticos galgarem votos, mas, no que diz respeito aos outros membros da sociedade, sejam eles muçulmanos ou não, esta estratégia não ajuda em nada a ninguém.

Quanto mais os muçulmanos ordinários começarem a acreditar que eles se tornaram alvo de ataques constantes, quanto mais eles estarão ressentidos, e quanto mais suscetíveis de se recolher e se isolar, e de se abrir para o extremismo eles se mostrarão.

No decorrer da realização do meu documentário, eu pedi a dezenas de muçulmanos ordinários pelo país afora para contarem as suas experiências com islamofobia. Todos afirmaram considerar que a perseguição promovida pela polícia era um fato comum, embora nenhum deles tivesse sido detido e revistado.

Todos insistiram sobre o fato de que os maus-tratos físicos eram práticas correntes, embora pouquíssimos dentre eles tivessem sofrido alguma agressão ou conhecessem alguém que fora vítima de maus-tratos. O que está sendo criado aqui é uma cultura da perseguição na qual a "islamofobia" tornou-se uma explicação universal para muitos dos problemas que os muçulmanos estão enfrentando.

Vale considerar aqui os problemas sociais que atingem as comunidades muçulmanas.

  • Os bengaleses e os paquistaneses, que fornecem mais de dois terços da população muçulmana neste país, têm duas vezes mais chances de ficar desempregados do que os brancos;

  • A renda média dos homens muçulmanos corresponde a 68% daquela dos homens não-muçulmanos;


  • 65% dos bengaleses são operários manuais com baixa qualificação, enquanto os trabalhadores desta categoria correspondem a 23% da população ativa de outras minorias étnicas, e a 15% dos britânicos brancos;

  • 54% das famílias paquistanesas e bengalesas beneficiam de um auxílio financeiro fornecido pelo governo;

    Em 2000, 30% dos estudantes paquistaneses apenas obtiveram cinco menções favoráveis ou mais, nos exames do GCSE (sigla de General Certificate of Secondary Education - Diploma de conclusão dos estudos do segundo grau), enquanto a média obtida pela população como um todo é de 50%.

    Tornou-se um lugar-comum atribuir todos esses problemas á islamofobia. Segundo o jornal "Muslim News", "as reportagens difundidas pelos meios de comunicação sobre o Islã e os muçulmanos têm um enorme impacto sobre o desempenho dos muçulmanos no mercado de trabalho".

    O desemprego, a pobreza e o desempenho medíocre no plano educativo não constituem, contudo, um fenômeno novo nas comunidades muçulmanas neste país, e as causas desses males são muitas e diversas. O racismo desempenha certamente um papel nisso. Mas a classe social também.

    O perfil social dos paquistaneses e dos bengaleses é bem mais próximo daquele dos afro-caribenhos do que daquele dos índios ou dos chineses. Enquanto estes últimos beneficiam com freqüência de uma eduacação e de uma formação típicas da classe média, a maioria dos bengaleses, paquistaneses e afro-caribenhos pertence ao proletariado ou tem uma origem rural.

    Alguns também denunciam certos costumes culturais que imperam em determinadas comunidades muçulmanas. "De maneira geral", reconhece a jornalista Yasmin Alibhai-Brown, "as comunidades que apresentam o pior desempenho e o menor coeficiente de realização social neste país são muçulmanas.

    Quando você conversa com as pessoas e lhes pergunta por que, segundo elas, tais coisas estão acontecendo, a única razão que elas têm para lhe oferecer, é a islamofobia". Este não é um argumento que Yasmin Alibhai-Brown aceita. "Não é a islamofobia que motiva certos pais a tirarem as suas filhas de 14 anos da escola, onde muitas delas têm desempenho brilhante, para casá-las com homens iletrados".

    Alibhai-Brown discorda de mim a respeito da extensão da islamofobia, por acreditar que ela seja uma força da maior importância que interfere e influi de maneira decisiva na vida dos muçulmanos. Mas, ela acrescenta que, em sua opinião, a islamofobia também se tornou "um rótulo conveniente, uma 'folha de figueira', uma forma de tapar o sol com a peneira... e além de tudo, com freqüência excessiva, a islamofobia vem sendo utilizada para exercer uma chantagem sobre a sociedade".

    O que tudo isso sugere é a necessidade de haver um debate franco e aberto a respeito dos muçulmanos e da maneira com que eles se relacionam com a sociedade britânica como um todo. A probabilidade de que haja tal debate franco e aberto, contudo, não muito alta.

    A "islamofobia" tornou-se, não apenas uma descrição dos preconceitos contra os muçulmanos como também uma prescrição do que pode ou não ser dito a respeito do Islã. Todo ano, a Comissão Muçulmana pelos Direitos Humanos (cuja sigla em inglês é IHRC) organiza uma cerimônia durante a qual ela distribui prêmios satíricos, destinados a "homenagear" as pessoas que ela elege como sendo o "Islamofóbico do Ano". No ano passado, dois britânicos foram vencedores.

    Um deles era Nick Griffin, do Partido Nacional Britânico (British National Party, de extrema direita, neonazista). A outra era a jornalista e colunista do "Guardian", Polly Toynbee. A defesa que Toynbee faz do laicismo e dos direitos das mulheres, assim como as suas críticas ao Islã eram, segundo declarou a Comissão Muçulmana, inaceitáveis.

    Indaguei então a Massoud Shadjareh, da Comissão Muçulmana, se ele não achava absurdo equiparar uma militante liberal e anti-racista tal como Polly Toynbee ao líder de um partido neonazista. De jeito nenhum, respondeu ele. "Nós precisamos nos envolver, assumir posições e discutir, sim. Mas existe um limite para isso".

    Fica difícil saber em que esse envolvimento e essa discussão poderiam resultar, quando vemos figuras da liderança muçulmana se mostrando incapazes de distinguir entre críticas de cunho liberal e ataques neonazistas. Seria tentador rejeitar a Comissão Muçulmana por ela ser uma organização periférica, marginal.

    Mas não é o caso. Ela é um organismo consultivo nas Nações Unidas, onde o seu trabalho foi elogiado pela Comissão de Igualdade Racial. Além disso, o que é mais importante, o seu principal argumento - segundo o qual, numa sociedade plural a liberdade de expressão é limitada pela necessidade de não ofender determinados grupos religiosos ou culturais - tornou-se amplamente aceito pela população.

    Então, o governo está propondo uma nova legislação visando a considerar como fora da lei toda incitação ao ódio religioso. O projeto, que tem por título Serious and Organised Crime and Police Bill (Projeto de lei de regulamentação da repressão do crime organizado e dos crimes graves), vai fazer com que seja considerado como uma infração "fazer uso deliberadamente de palavras, de comportamento ou de material visando a assustar pessoas, de modo abusivo ou insultante, com a intenção ou o objetivo provável de incentivar o ódio ou o preconceito em relação a pessoas alvejadas por causa das suas crenças religiosas".

    Os partidários deste projeto de lei reivindicam que as suas disposições sejam estendidas aos muçulmanos, assim como a outros grupos religiosos, e que estes possam contar com as mesmas proteções das quais já se beneficiam outros grupos raciais. Os sikhs (seguidores do sikhismo, religião oriunda do Paquistão que é uma ramificação do hinduísmo e do islamismo) e os judeus já são protegidos pela lei intitulada Race Relations Act (lei sobre as relações raciais). A nova lei foi concebida para atender a reivindicação dos muçulmanos, que reclamavam por terem sido deixados de fora pela legislação.

    No entanto, na Grã-Bretanha já é considerado como uma infração incentivar o ódio religioso. A lei sobre a ordem pública (Public Order Act), de 1986, que foi emendada em 1998 para que nela seja incluído como infração todo ato "visando à exacerbação dos preconceitos religiosos".

    Assim, uma pessoa estará cometendo uma infração caso ela "se valer de um texto, de um sinal ou de toda e qualquer representação visível cujo conteúdo seja assustador, abusivo ou insultante, o suficiente para causar na pessoa a quem a mensagem se destina o sentimento de estar sendo perseguida, alarmada ou em situação de perigo".

    A infração "pode ser cometida tanto num local público como privado". Pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Mark Norwood, um membro do Partido Nacional Britânico, foi considerado culpado de crime, conformemente a esta lei, por ter pendurado um pôster na sua janela com uma foto do World Trade Center em chamas, ilustrada pelo slogan "O Islã fora da Grã-Bretanha".

    Em todo caso, existe uma diferença fundamental entre raça e religião. Ninguém pode escolher a cor da sua pele; mas todos podem escolher a religião da qual pretendem seguir os preceitos. Uma religião é constituída por um conjunto de crenças. No plano cultural ou filosófico, eu posso ser tomado pelo ódio em relação a certas convicções diferentes das minhas, tais como o conservadorismo ou o comunismo. Então por que eu não poderia sentir também o mesmo ódio em relação a uma religião?

    Alguns defensores da adoção desta lei insistem sobre o fato de que ela continuará a nos permitir ironizar e criticar as religiões. Mas, na prática, esta lei poderia resultar num verdadeiro pesadelo quando se tratar de pô-la em prática.

    Todos os líderes muçulmanos com os quais eu conversei querem utilizar a lei com o objetivo de banir "Os Versos Satânicos" (o romance de Salman Rushdie, publicado em 1988, que valeu ao seu autor ser jurado de morte por uma fatwa - edito corânico -, por seu livro ser considerado uma ofensa ao Islã). Ahmed Versi, o editor do "Muslim News", acha que Margaret Thatcher deveria ter sido processada por ter sugerido que, depois dos atentados de 11 de setembro "os sacerdotes muçulmanos não haviam condenado o terrorismo com firmeza suficiente".

    Dez anos atrás, o governo tory (conservador) rejeitou uma lei similar porque os uma maioria dos seus ministros temia que ela pudesse ser utilizada para banir "Os Versos Satânicos".

    Hoje, os membros do Home Office e o diretor da promotoria pública garantem a quem interessar possa que isso não irá acontecer. "Nós continuaremos a ter toda liberdade para nos insultar uns aos outros", me assegurou o diretor da promotoria pública, Ken Macdonald. Isso significa que muitos muçulmanos não vão ficar satisfeitos.

    Após terem incentivado a exacerbação dos temores em relação aos preconceitos contra os muçulmanos, e após terem conduzido os muçulmanos a acreditar que a nova lei foi criada para atender às suas preocupações, os ministros poderão enfrentar muitas dificuldades quando vier a hora de esfriar as expectativas dos muçulmanos. O ponto de vista atual dos tribunais é o de que todo material que incentivar a desordem pública pode ser considerado como uma incitação ao ódio racial ou religioso.

    Com isso, a nova lei pode estar estabelecendo um incentivo à provocação de desordem pública, uma vez que os grupos que se sentirem atingidos se verão frustrados ao tentarem censurar aquilo que eles consideram como ofensivo. As cenas de violência que nos vimos em Birmingham, onde o teatro em que estava sendo apresentada a peça "Behzti" (Desonra) - que faz referência a atos de abuso sexual e assassinatos num local sagrado sikh - foi atacado (em 18/01) por centenas de sikhs, podem se repetir muitas vezes.

    Contudo, de certa forma, os defeitos deste projeto de lei são irrelevantes, uma vez que o real valor do texto não reside no seu aspecto prático, e sim, conforme as palavras usadas pelo diretor da promotoria pública, na sua dimensão "simbólica". A legislação estipula as regras, não no sentido de fornecer um remédio legal para sanar um problema real, e sim para formular uma declaração moral a respeito daquilo que é ou não socialmente aceitável. O objetivo da lei não é de nos censurar, e sim de nos induzir a censurar a nós mesmos.

    A ironia desta abordagem é que ela debilita insidiosamente as virtudes que comporta o fato de viver numa sociedade diversificada. A diversidade é importante, não por si só, mas porque ela nos permite expandir os nossos horizontes, comparar diferentes valores, crenças e estilos de vida, e formar a nossa opinião a seu respeito.

    Em outras palavras, ela nos permite nos envolver no diálogo e no debate no plano político, o que pode permitir formar valores e crenças mais universais, além de uma linguagem coletiva da cidadania. Mas é justamente esse diálogo e esse debate, e a formação dessas opiniões, que o multiculturalismo contemporâneo está tentando suprimir, em nome da "tolerância" e do "respeito". Líderes muçulmanos exageram a importância do preconceito contra a sua raça e religião para tentar consolidar a sua base de poder Jean-Yves de Neufville
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