Guerras contemporâneas, como a do Iraque, não produzem heróis como as guerras do passado

Por Rory Stewart

O 11 de Setembro poderia ter recuperado os heróis de antigamente.

Agentes da CIA disfarçados de afegãos estiveram no Hindu Kush, jovens mulheres ocidentais governaram províncias no Iraque islâmico e oficiais da SAS cruzaram as montanhas do Nuristão. Para os ocidentais, não havia surgido tamanha oportunidade de aventuras heróicas desde a Segunda Guerra Mundial.

Talvez os obituários não mais começassem e terminassem como cenas de seriados. O obituário do major Peter Keeble no "Daily Telegraph" em outubro, por exemplo, usou 1.200 palavras para descrever as diversas missões perigosas de comandos em que ele conquistou a Ordem do Mérito em Serviço e a Cruz Militar. Havia apenas 55 palavras sobre os últimos 59 anos de sua vida como um executivo de uma companhia de cimento, concluindo: "Ele se aposentou em Kenilworth e aprendeu a cozinhar em alto nível. Gostava de receber seus amigos e de ir ao teatro".

Mas os últimos três anos não geraram heróis no molde antigo. Nenhum Lawrence da Arábia, nenhum Churchill. Antigamente as guerras produziam heróis como fato corriqueiro. Esta não. Ainda ansiamos por pessoas maiores e mais nobres que nós, mas não temos certeza se elas existem. Temos o Homem-Aranha e o último samurai de Tom Cruise. Os heróis vivos são famosos, mas menos grandiosos.

Sejam donas de casa enfrentando a tragédia ou astros de futebol, deixamos de lhes atribuir "grandeza de alma". Eles podem ser melhores que nós para fazer certas coisas, mas não são semelhantes a deuses. Somos menos supersticiosos e reverentes. Enfatizamos o lado comum das pessoas. Se as colocamos num pedestal, muitas vezes as derrubamos. Esse é um avanço positivo. Mas também representa uma perda.

A antiga idéia mágica de heroísmo, de Alexandre o Grande a Lawrence da Arábia, significava que um indivíduo vivo podia ser totalmente humano e sobre-humano. Os heróis clássicos tinham personalidades extraordinárias e faziam coisas divinas. Os heróis contemporâneos são pessoas comuns em circunstâncias incomuns. Não procuramos mais o caráter heróico supremo nos outros, e o preço disso é que deixamos de tentar desenvolver esse caráter em nós mesmos.

Na última guerra do Afeganistão, algumas pessoas fizeram coisas que, em outra época, poderiam tê-las transformado em heróis. Johnny Michael Spann, um oficial da CIA, se infiltrou disfarçado no Afeganistão pouco depois do 11 de Setembro para chefiar operações especiais contra tropas taliban. Ele morreu em um tiroteio com um grupo taliban numeroso, tornando-se a primeira baixa americana em combate no Afeganistão. Cem anos antes, ele teria sido idolatrado por sua vida e morte.

Na década de 1870, George Hayward, um agente britânico que morreu na fronteira afegã, tornou-se um nome famoso, enaltecido em um poema de Henry Newbolt. Os vitorianos celebraram a nobreza de seus contemporâneos em estátuas, biografias e grandes quadros de sua morte nas mãos de multidões nativas: Alexander Burnes em Cabul, Gordon o "Chinês" parado de sabre na mão na escadaria de Cartum.

Mas a alta cultura do século 20 relutou em deificar outros seres humanos. Lytton Strachey denunciou Gordon como um fantasista messiânico. Romancistas, dramaturgos e pintores deixaram de retratar os heróis. A industrialização, a democracia e a cultura de massas; a Primeira Guerra Mundial; a promoção de super-homens por Hitler; uma atitude diferente em relação aos valores masculinos tradicionais; a falta de valores comuns --tudo isso tornou mais difícil vermos nossos líderes como atores éticos supremos. Falar em heroísmo passou a soar como fascismo. Lawrence da Arábia e Churchill foram as últimas expressões de uma visão vitoriana. A fantasia do heroísmo clássico recuou para a ficção.

Assim, embora o agente da CIA Spann tenha levado uma vida parecida com a de Jack Ryan em um romance de Tom Clancy, a mídia americana não salientou isso. Ao contrário, concentrou-se na dor de sua família e em entrevistas com seus professores de colégio. A mídia queria fazê-lo parecer comum. Achou que o público se relacionaria de um modo mais confortável com as raízes suburbanas dele e com a dor de seus pais do que com suas aventuras. Ele se tornou um arquétipo não de ações extraordinárias, mas da tragédia doméstica do luto.

Para a mídia americana, o melhor herói da guerra do Afeganistão foi Pat Tillman, morto em abril. Tillman recusou um contrato de US$ 3,6 milhões para jogar futebol e aderiu aos patrulheiros dos Estados Unidos depois do 11 de Setembro.

Seu obituário no "Washington Post" citava os poetas britânicos A.E. Housman e Wilfred Owen, falando em seu "espírito, erguendo-se luminoso e claro". Mas Tillman foi lembrado pelo que sacrificou, e não pelo que conquistou. Deram pequeno destaque para seus atos como soldado. Na verdade, ele foi morto por "fogo amigável". Para um grego antigo, essa seria uma morte para se lamentar, e não glorificar.

Diferentemente de Aquiles, Tillman foi respeitado porque não quis ser herói. Como os bombeiros nas escadas das Torres Gêmeas, Tillman representa o herói enquanto vítima, morto no cumprimento do dever. Julgamos os heróis modernos não pelo que fizeram, mas pelo que acontece com eles.

Isso também vale para a Grã-Bretanha. No ano passado, o prêmio para heróis Orgulho Britânico, do jornal "Daily Mirror", escolheu Terri Calvesbert por seu "espírito brilhante e indestrutível", porque ela foi gravemente queimada quando criança, suportou inúmeras operações e agora começou a escola. Dos 19 vencedores, somente um era da guerra do Iraque: o soldado de cavalaria Finney, honrado não por combater o inimigo mas por salvar camaradas de um veículo atingido por fogo amigável. Outros incluíam uma diretora de escola e uma garota que havia dado à caridade o prêmio que recebeu do programa "Quem quer ser um milionário?".

Essas pessoas não eram famosas, e suas boas ações eram geralmente de pequena escala. Em três casos elas se tornaram heroínas porque se recuperaram parcialmente de acidentes terríveis.

A platéia da premiação incluía outro tipo de herói moderno: os Osbournes, a duquesa de York, Diana Ross, Michael Owen, Ant and Dec e os atores de seriados Jessie Wallace e Suranne Jones. A atitude de nossa cultura em relação a essas celebridades tem muitos ingredientes do culto aos heróis. As pessoas desejam vê-los ou tocá-los, estudar suas vidas e chorar suas mortes. Mas o herói-celebridade moderno é visto de modo muito diferente de uma grande figura da Antigüidade.

Sabemos muito mais sobre suas vidas privadas. Alguns tratam as celebridades como seres mágicos, mas muitos as tratam de modo bem mais irônico. Comemoramos os gols de Michael Owen e o visual de Jude Law, mas não pensamos que eles sejam fundamentalmente melhores que nós como pessoas. Jonny Wilkinson é um esportista admirável, mas não lhe conferimos a dignidade e a maestria ética que os gregos viam em Alexandre.

E quando Beckham erra um pênalti ou Paula Raddcliffe abandona a maratona olímpica, a mídia é impiedosa. Não permitimos que as celebridades se considerem especiais. Como Aquiles, Roy Keane abandonou seus camaradas porque se sentiu insultado. Para os gregos havia algo de nobre na raiva de Aquiles. Nossa mídia descreveu a saída de Keane como "egoísta" e "vaidoso". Os heróis modernos não devem se considerar heróis.

Mas Alexandre o Grande queria ser um herói, fingia ser um herói, considerava-se um herói e foi um herói. Seus contemporâneos aceitavam que seu orgulho, sua ambição e o amor pela glória o fizessem tentar atos heróicos. E alguns gregos estavam dispostos a vê-lo e a heróis como ele não apenas como mais talentosos, mas como seres humanos superiores.

Durante 2.500 anos essa idéia intoxicante moldou a retórica, a pintura e a literatura, e criou um modelo de como uma pessoa deveria viver. Os heróis perseguiam a grandeza ao custo da paz, do amor e da felicidade. Seus atos destroçavam sociedades, desafiavam os deuses e zombavam da morte. As pessoas com freqüência não os invejavam, mas os reverenciavam, e suas quedas pareciam trágicas.

Para os gregos, um herói vivo, ao contrário de um personagem fictício, ainda era mortal: vão, ignorante, indeciso e obtuso. Ao agir como se fossem divinos, eles faziam o impossível, forçando os limites que separavam os deuses dos homens. Cada grande ato oscilava na fronteira entre magnificência e loucura vergonhosa.

Muitas vezes era apenas a sorte que parecia determinar se um ato seria considerado heroísmo ou vaidade. A cultura encontrava uma energia maravilhosa e produtiva nessa tensão entre a idéia de divindade e a realidade mortal. Eles podiam ver Marco Antônio simultaneamente como um patético amante de meia idade que falhou em seu próprio suicídio e um colosso.

Hoje não pensamos mais que a arrogância, a violência e a vaidade possam ser redimidas por anseios divinos. Preferimos nossos heróis pacíficos, racionais e democráticos. Hoje somos mais variados, abertos, irônicos e conscientes da megalomania e da paranóia dos grandes homens. Compreendemos que um camponês afegão foi mais corajoso em 25 anos de guerra do que qualquer aventureiro ou espião atravessando a cordilheira do Pamir.

Mas agora que não adoramos mais os heróis à maneira antiga, talvez tenhamos menor probabilidade de agir heroicamente. Alexandre ou Aquiles não apenas queriam ser ricos e famosos, mas também "os melhores, os melhores entre os melhores, hoje e para a eternidade".

Eles eram movidos a tentar o impossível porque queriam superar os outros heróis celebrados por seus contemporâneos. Os heróis clássicos estudavam os heróis anteriores, os copiavam e colecionavam seus pertences.

Alexandre queria ser Aquiles; Júlio César queria ser Alexandre; Napoleão queria ser Júlio César; Byron queria ser Napoleão, e quase todo mundo queria ser Byron. Quando Alexandre chegou a Tróia, comprou uma armadura troiana, vestiu-a e percorreu as muralhas imitando Aquiles.

A sociedade antiga perdoava sua vaidade porque estava intoxicada por sua glória. A Itália compreendeu que Leonardo e Michelangelo foram levados a suas criações intrépidas pelo desejo de superar seus concorrentes. A grandeza de sua arte se alimentava da celebração do herói pela sociedade. Não por acaso a pequena Atenas republicana, que produziu um número desproporcional de grandes pensadores, políticos e autores, foi o lugar onde o ideal heróico foi mais claramente formulado e realizado.

Esse tempo passou. A nostalgia pelos tiranos mortos e a saudade dos heróis são doentias e podem resultar na deificação de um Saddam com tanta facilidade quanto um Havel ou um Mandela.

Mas não devemos nos enganar e pensar que nada perdemos. O impulso para ser como um deus e fazer o impossível desapareceu, e veremos essa perda na música, nos romances, na pintura, na arquitetura e na maneira como moldamos nossas vidas.

O 11 de Setembro produziu apenas heróis em miniatura porque nossa cultura se libertou de muitas das antigas fantasias de heroísmo elitistas e perigosas. Despertamos do sonho de homens que são mais que humanos. Mas ao fazê-lo não apenas domamos e reduzimos os heróis. Corremos o risco de domar e reduzir a nós mesmos. Os heróis de hoje são pessoas comuns em circunstâncias incomuns Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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