França rural morre lentamente

Por Tim King

Os britânicos estão sofrendo um dos seus surtos de febre periódicos de compra de casas na França. "Vítimas da velocidade", segundo a expressão do sociólogo Thomas Eriksen, eles vêem a França como um lugar propício para acalmar os ânimos e se dedicar à busca do seu verdadeiro eu. A grande maioria compra imóveis em lugares remotos do interior - existe uma infinidade de localidades desse tipo na campanha francesa e, além disso, as construções antigas por aqui têm um preço acessível.



Contudo, há períodos, particularmente em meados do inverno, em que o futuro da França profunda parece desolado. Para tentar encontrar formas de ir para frente, o prefeito da nossa comuna andou convidando os cidadãos para reuniões destinadas a propor e discutir idéias.



"Nós não vamos ficar aqui de braços cruzados e deixá-los fechar a escola, eliminar a nossa aldeia assim como eles fizeram com tantas outras". As palavras são duras; as pessoas estão iradas. Cada um fala com paixão e veemência, porém, com uma nota de desespero, como se eles já soubessem que eles nada podem fazer contra isso.



O interior da França como um todo está fechando as suas portas. Não são apenas as lojas, os cinemas e os restaurantes de sempre, sendo que o fechamento de cada um desses estabelecimentos implica numa tragédia individual com histórias de dívidas e de fracassos pessoais, mas também estão fechando as suas portas escolas, hospitais locais, empresas de transportes públicos, ou agências do correio.



O conjunto da infra-estrutura que, como todos sabem, é mantida pelo Estado, e que sustenta a vida francesa tal como a conhecemos, vem sendo desmantelado. Isso não se deve simplesmente ao fato de não haver dinheiro o suficiente. O que está havendo é uma redistribuição das verbas - enquanto, até então, eram altos funcionários parisienses que tomavam as decisões referentes aos orçamentos da Educação nacional, por exemplo, esta responsabilidade está sendo delegada às 22 regiões administrativas.



Muitos poderiam achar que se trata de uma coisa boa, que diz respeito à atribuição de uma autonomia e de uma independência de gestão, mas seria desconhecer o tipo de relacionamento que o povo francês, tradicionalmente, costuma cultivar com o seu Estado. Em vez de se sentirem dominados por ele de maneira opressiva, muitos franceses enxergam no Estado a figura de um pai justo ao qual eles pedem auxílio quando eles estão em apuros, e o consideram como um garante da manutenção da igualdade e da uniformidade pela nação afora, posicionado de maneira ideal por ser distante, e por estar acima das divisões regionais.



Mas essa descentralização está fazendo com que, no quadro das práticas políticas locais, querelas antigas ressurjam, e aqueles que, como nós, estão vivendo fora do seu país, arcam com as conseqüências disso: o nosso transporte e a nossa cantina escolares estão agora dependurados no cadarço definhado da caridade - o que explica a cólera dos meus vizinhos. O Estado não cumpriu a sua promessa. Em novembro passado, 263 prefeitos e conselheiros municipais eleitos pertencentes a uma só região rural se demitiram das suas funções, enfatizando simbolicamente por meio desse gesto a sua impotência diante da "surdez" do Estado no que diz respeito às suas reclamações.



Todos nós propusemos idéias nessas reuniões: falou-se em festivais de música de verão, em feiras de livros, em competições de motocross e de stock cars. Eu mesmo vim para cá para fugir dos turistas, mas todos os outros participantes tentavam emplacar algum tipo de negócio do qual eles poderiam tirar vantagens. Contudo, esta não é uma solução: a temporada é curta demais. O turismo "verde" nunca vingou por aqui porque durante o verão faz calor demais para caminhar e, durante o outono é perigoso demais - os riscos de ser atingido por uma bala disparada por caçadores são muito grandes.



Mas o turismo permanece o limite da nossa imaginação coletiva. Não há nada, além disso, para se fazer por aqui. Num país que anda produzindo campeões em nível nacional, o nosso desempenho está muito abaixo da média, e nós estamos relegados a uma via de garagem. Apesar do que podem pensar os compradores de casas ingleses, o famoso movimento em favor da lentidão ainda não alcançou a França. "In Praise of Slow" (Elogio da lentidão), o best-seller de Carl Honor que foi traduzido em 12 línguas, nem sequer foi traduzido em francês.



A simples idéia daqueles vilarejos italianos dos sonhos, que são exemplos de "localidades lentas" (as quais se caracterizam por descartarem os avanços da tecnologia e da globalização, em favor de uma vida mais simples e calma), com as suas caravanas de turistas que lá vão para se alimentar de "slow food" (o contrário de "fast food", comida caseira ou até mesmo gastronômica, procurada por quem rejeita a comida homogeneizada moderna, engolida às pressas) e para ouvir alguns gurus "lentos" lhes dizerem o que eles precisam fazer para "acalmar" a sua vida, esta idéia seria recebida com escárnio por aqui. É uma vergonha, uma vez que os fundamentos desta teoria já estão implantados: os telefones celulares não funcionam, enquanto a Internet com banda larga só conseguiu chegar a 15 quilômetros daqui e, segundo nos disseram os responsáveis, ela não irá mais longe do que isso.



O nosso prefeito jovem e dinâmico costuma dar murros sobre a mesa: a velocidade, para ele, é tudo. Não longe dali, em Toulouse (sudoeste) é fabricado o Airbus, que está competindo com sucesso contra a companhia americana Boeing; há também o trem rápido; a poucos quilômetros apenas do nosso vilarejo, a engenharia francesa construiu a ponte rodoviária mais alta do mundo, o que permitiu abrir o nosso enclave rural para o mundo. Ou, ao menos, é o que eles estão dizendo. Na realidade, esta ponte não vai permitir grande coisa, a não ser transportar pessoas nas proximidades em velocidades ainda mais elevadas. A França gaba-se até mesmo de possuir o homem político mais rápido do mundo, na pessoa de Nicolas Sarkozy, conhecido por se agitar com uma energia que ninguém pode deter.



Mas a França profunda nunca irá adotar um estilo de vida acelerado e a razão disso não pode ser expressa numa reunião pública. A Grã-Bretanha rural, onde moram pessoas ricas, é cara por causa da sua superfície escassa. Em contrapartida, a França rural é tão vasta que ela sempre foi, e permanecerá cada vez mais, uma região onde mora gente pobre. Segundo uma recente pesquisa, três quartos das pessoas que se instalam neste país ganham menos do que o limite requerido que lhes permitiria pleitear alojamentos sociais, enquanto cerca da metade se encontram abaixo do limite de pobreza oficial.



Na França, os ricos moram em centros urbanos, perto do local de trabalho, de centros comerciais e de restaurantes lotados. Aqueles que dispõem de uma renda modesta, assustados pela insegurança que grassa nos bairros das periferias em expansão acelerada, estão se mudando para áreas cada vez mais distantes das grandes cidades, avançando e ganhando mais e mais terreno, de maneira irreversível, sobre os limites do campo, e empurrando com isso aqueles que não têm renda nenhuma mais longe dentro da França profunda. Em vez de ficarem onde eles têm ao menos alguma possibilidade de encontrar algum emprego, eles precisam se deslocar até lugares onde não há chance alguma de encontrar qualquer atividade remunerada.



Em termos simples, sendo algo que não pode ser dito em reuniões públicas locais, a grande maioria das pessoas que se muda para a França rural é composta pelo rebotalho da sociedade francesa ou ainda por britânicos que não têm a menor idéia de onde eles foram parar: trata-se de duas populações bastante movediças, as quais se misturam dificilmente com o núcleo básico da população nativa tradicional, formada, sobretudo, por comerciantes e camponeses idosos.



Tradução: Jean-Yves de Neufville Muitos vilarejos do Interior estão morrendo e adquirir imóveis nessas regiões pode ser uma compra de risco

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