Avanço da extrema direita inglesa é alarmismo

Catherine Fieschi
Em Londres

Com o desenrolar da campanha eleitoral no Reino Unido, a extensão do possível apoio aos partidos à direita dos conservadores ("tories") poderá se tornar um tema importante em algumas partes do país. Será possível que a combinação dos eleitores do BNP e do Ukip possa afetar os resultados em número significativo de assentos para conquistar um apoio comparável ao da Frente Nacional Francesa --20% ou mais do voto popular?

A capa da revista "New Statesman" do dia 23 de janeiro gritava: "Um em cada cinco britânicos poderá votar na extrema direita", e a análise sugeria que seria possível alguma espécie de resultado inusitado. Mas isso é absurdo, já que depende da união injustificada de dois partidos.

Não é difícil encontrar um conjunto de denominadores comuns entre o BNP e o Ukip (e o recém nascido Veritas): são anti-europeus, marginais, seus eleitores estão mais próximos do Tory do que do Trabalhista ou do Liberais-Democratas e são xenofóbos e nacionalistas.

Mas o BNP (British National Party - Partido Nacional Britânico) é um partido extremista de direita. Suas raízes estão em idéias de supremacia; sua aspiração, entre outras, é um Reino Unido branco e hierarquizado. Para o público em geral, o BNP às vezes adota uma retórica populista, de senso comum, que o permite convencer alguns não extremistas.

Mas leia o manifesto do BNP, folheie o jornal "Voice of Freedom", visite seu site da Web, e o populismo logo dará lugar a um tom agressivo e incansável, no qual o racismo domina e exclui todo o resto. Talvez não seja um fascismo assumido, mas não está longe disso: metáforas de corrupção e decadência, uma obsessão com o corpo moribundo e invadido da nação e uma convocação para a erradicação das pragas gêmeas da imigração e da mistura racial são sinais de uma mente fascista. Acrescente a isso uma aceitação mal disfarçada da violência e o desdém pelos eleitores comuns e você tem uma combinação que, no passado, serviu de base para ideologias fascistas.

O BNP poderia ser um partido muito assustador --se fosse mais organizado, se tivesse mais do que 5% dos votos, se não estivesse quebrado, se seu líder não estivesse em liberdade condicional e se muitos de seus conselheiros não tivessem terminado na prisão por agressão. A verdade é que sua posição é precária e suas perspectivas são fracas.

O Ukip tem um perfil muito diferente. Independentemente da confusão em que se encontra como resultado da defecção de Robert Kilroy-Silk, oferece perspectivas ligeiramente diferentes. Apesar de não ser um erro rotular o Ukip de nacionalista (e até xenofóbico), o partido tem pouca semelhança com o BNP.

Nacionalista, anti-europeu e populista, o Ukip se parece com outros partidos nacionalistas populistas europeus, como o Movimento Pela França ou a Liga Norte-Italiana, que se agrupam em dois conjuntos que falam muito e fazem pouco no parlamento europeu. O que o Ukip mais teme não é a mistura de raças ou a diluição do conjunto genético branco, mas a emergência de uma autoridade complexa e transnacional, que parece desafiar os valores de um Reino Unido estável dos anos 50 que nunca existiu.

O que odeia não é o imigrante em si, mas uma política burocratizada e tecnocrata que parece deter o controle nacional do destino coletivo. O que defende é a volta à política gerenciável e menos confusa de uma nação soberana dirigida por notáveis locais --conselheiros, comerciantes, professores, lojistas e o Instituto das Mulheres, todos que compartilham uma visão do Reino Unido: não são necessariamente brancos, só ingleses.

Podemos chamar sua visão de mesquinha, pequena, reacionária com suas teorias de conspiração, nostalgia e a sabedoria de um vendedor de carros usados, mas não é extremista.

Quanto ao Veritas, mesmo tentando se mostrar mais amplo, endossa uma visão da Inglaterra ameaçada tanto por inimigos internos, como a classe política profissional, quanto pelos burocratas de Bruxelas. Ou seja, meras variações sobre o tema.

Talvez o Ukip e o Veritas tenham partidários profundamente racistas, mas sua plataforma é de direita populista. Está muito mais próxima aos "poujadistas" franceses dos anos 50 (dedicados a deter o desenvolvimento de grandes supermercados e de um sistema de impostos abusivo) ou até da Liga Norte-Italiana (também enojada com a tecnocracia política e o discurso dúbio da elite) do que à direita dura de Le Pen ou Haider --ou o BNP.

Populismo nacional e racismo não são a mesma coisa. O primeiro pode gerar o segundo, mas atitudes nacionalistas e populistas algumas vezes não passam disso. A xenofobia do Ukip resulta de um nacionalismo conservador e profundo anti-cosmopolitismo que se estende primeiro para a Europa (seus valores, suas instituições e seus políticos). O BNP é um partido racista cuja principal preocupação é a formação racial da nação.

Tratar esses dois partidos como iguais, como acontece no artigo da "New Stasteman", faz o BNP parecer mais bem sucedido do que é. No entanto, foi o Ukip que se saiu bem nas eleições européias. A manchete sugeria que uma proporção substancial da população poderia seriamente pensar em votar no BNP. Mas para os eleitores, o termo "extrema direita" não inclui o Ukip. Refere-se estritamente ao BNP.

O alarmismo de "um em cada cinco britânicos" foi reforçado pela mais recente pesquisa de Atitudes Sociais Britânicas (BSA). Ela revelou que, enquanto em 1995 dois terços dos entrevistados pensavam que a imigração deveria ser "muito" reduzida, em 2003 esse número pulou para 74%.

No entanto, esses números precisam ser entendidos dentro de seu contexto. Sim, houve um aumento no sentimento anti-imigração desde o final dos anos 90, depois de uma década e meia em que a questão foi menos forte. O período de 1995 a 2003, no entanto, não é tão extraordinário.

Os dados do Gallup, por exemplo, revelam que muitas vezes nos anos 60 e 70 a preocupação com a imigração cresceu marcadamente. Em junho de 1968, 27% dos entrevistados disseram que a imigração era a questão mais importante do Reino Unido.

Esses são níveis similares aos de hoje, quando o número fica abaixo de 25% entre os eleitores dos maiores partidos. A reação a essa questão está em constante fluxo, e é prematuro detectar uma tendência de longo prazo baseada em dados de menos de uma década. Nós devemos também admitir que o aumento observado é, em parte, uma reação às circunstâncias diferentes: um aumento significativo na imigração nos últimos anos e conseqüente crescimento da discussão.

Uma das conclusões mais importantes da BSA, apesar de ser pouco divulgada, é que o aumento na postura contra a imigração não parece estar associado a um aumento do preconceito racial e não está ligado ao orgulho nacional ou a um conservadorismo em relação aos componentes britânicos.

Além disso, a postura "endureceu" independentemente da afiliação partidária. Isso sugere que, muitas pessoas separaram a preocupação com a administração da imigração --seu impacto nos serviços públicos e etc.-- do racismo. Se esse for o caso, então é provável que o BNP tenha menos sucesso que o Ukip e o Veritas.

Mesmo retirando-se os racistas do lobby anti-imigração, muitos o consideram profundamente perturbador. No entanto, é melhor nos acostumarmos. A pressão está crescendo --muitas vezes da esquerda-- para que haja um rompimento do sistema sonolento de dois partidos.

Os críticos defendem outra organização em que a opinião das minorias conte mais. A representação proporcional é uma razão pela qual os "poujadistas" e os partidos de extrema direita são muito mais fortes na Europa --e porque os principais partidos de centro-esquerda não mais capturam automaticamente a maioria dos votos da classe trabalhadora em vários países, inclusive na França, Bélgica, Itália e Holanda.

O paradoxo aqui é que talvez os partidos mais anti-europeus ofereçam a prova final da europeização da política britânica. Partidos são mal organizados e apresentam plataforma desconexa Deborah Weinberg

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