Os deficientes auditivos são uma nação à parte?

Jonathan Rée*
Em Inverness, Escócia

Essas pessoas acusam os fabricantes de aparelhos de audição e os cirurgiões especializados de tentarem exterminar os surdos. Seria viável esse nacionalismo dos surdos?

Sempre gostei de fazer parte de uma platéia que espera o levantar das cortinas para uma boa noite de entretenimento. Mas aqui no Eden Court Theatre, em Inverness, na Escócia, a situação é diferente. O show já está atrasado em alguns minutos, mas as pessoas ainda estão pelos corredores, saudando amigos que não viam há muito tempo e contando as novidades, e isso de um lado para outro do teatro. Ainda assim, tudo é curiosamente pacífico.

Fora os ruídos emitidos por dois bebês, e eventuais gargalhadas que irrompem, o teatro está bem silencioso.

Com exceção desses dois bebês e de mim mesmo, praticamente todos aqui são surdos, e se comunicam por meio de uma linguagem silenciosa --a linguagem dos sinais. Elas vieram de todo o Reino Unido para assistir a um congresso especial da Associação dos Surdos Britânicos. E como posso observar por toda parte ao meu redor, as pessoas aproveitam a oportunidade para ocupar bem o espaço e, pelo menos dessa vez, poderem observar o predomínio de sua forma peculiar de comunicação.

A maioria das pessoas reconhece atualmente que as linguagens de sinais são, em termos lingüísticos, muito semelhantes às outras linguagens. Compõem sistemas lingüísticos autônomos, distintos das linguagens faladas por um lado e da mímica e pantomima do outro.

Os lingüistas já identificaram mais de 100 diferentes linguagens de sinais, do sistema Adamorobe (em Gana) e do dialeto argelino ao que se sinaliza na Croácia e na Venezuela, todas elas distintas entre si, e todas exibindo o mesmo tipo de características que as definem como linguagens bem constituídas.

Assim como as línguas faladas correspondentes, as linguagens de sinais são essencialmente conjuntos de símbolos arbitrários que crianças pequenas podem aprender a reutilizar e a recombinar sem limites, mesmo que os melhores estudiosos da gramática tenham dificuldades em discernir suas sintaxes.

Enquanto eu fico maravilhado com o silencioso alvoroço que me cerca, com dúzias de "papos" que lampejam pelo teatro sem que ninguém seja interrompido ou distraído por qualquer pessoa, posso constatar as vantagens práticas e estéticas de se fazer sinais, se comparar com a intrusão rude e estridente provocada pela fala.

A "língua franca" ou linguagem comum aqui em Inverness é a Linguagem Britânica dos Sinais (conhecida como BSL) e, para benefício de alguns estrangeiros como eu, por aqui há muitos intérpretes à disposição, trabalhando entre o BSL e o Inglês falado ou escrito, ou também entre a BSL e a Linguagem Americana (ASL) ou a Francesa de Sinais(FSL).

Esse encontro é a primeira oportunidade que a associação britânica tem para celebrar uma das maiores conquistas em seus 115 anos de história: em 2003, após uma longa campanha, a entidade convenceu o governo britânico a aceitar a BSL como "uma linguagem com seus próprios direitos... com seu próprio vocabulário, gramática e sintaxe".

Uma portaria do Departamento de Trabalho e Pensões estabeleceu em março de 2003 que a BSL deve ser reconhecida como "linguagem preferencial para a participação na vida diária" de cerca de 70 mil pessoas na Grã-Bretanha, demandando que seja protegida, assim como outras línguas minoritárias na Europa.

Nem faz tanto tempo assim que os sinais eram comumente ridicularizados como "linguagem de macacos", e até mesmo entre os surdos já foi muito desprezada como forma grosseira, pagã e primitiva --talvez como se fosse uma regressão a algum tipo de condição arcaica pré-humana.

Em 1880, foi realizada uma conferência internacional em Milão para discutir o futuro da educação para os surdos e para avaliar os méritos de três métodos rivais: o sistema manualista, baseado em gestos e sinais; o oralista, baseado na forma escrita de uma linguagem-fonte principal, acompanhada de "leitura labial" e da fala articulada; e a bilíngüe ou mista, que envolve tanto a linguagem dos sinais como a fala.

A Itália ficou famosa por suas escolas oralistas, e alguns delegados relataram aqui no congresso conversas face-a-face que tiveram com algumas pessoas, onde não conseguiam distinguir quem eram os alunos avançados de escolas italianas para surdos e quem eram os italianos com audição normal.

Um correspondente que cobria o evento para o jornal londrino "The Times" até chegou a dizer que os surdos italianos eram lingüisticamente superiores aos seus compatriotas com capacidade auditiva, já que teriam sido curados daquele hábito irritante de gesticular quando falam.

No dia 11 de setembro de 1880, o Congresso de Milão votou, por 160 votos contra 4, a favor da exclusividade dos métodos oralistas na educação dos surdos. Entre os associados, essa data ainda é lembrada como a mais sinistra de sua história: como se fosse mesmo o "11 de setembro" deles, quando desabaram as torres gêmeas da cultura da linguagem dos sinais --a do método misto e a do método manualista para a educação dos surdos. Ali começou uma longa e amarga batalha para defender o direito de vida da linguagem dos sinais.

Ainda há pessoas surdas vivas até hoje que foram educadas rigidamente de acordo com essa política estabelecida em Milão. Elas parecem ter passado a melhor parte de suas infâncias diante de espelhos, tentando aprender as formas corretas de abertura da boca que correspondem às diferentes letras do alfabeto.

O exercício era humilhante e frustrante, e para a maioria deles uma completa perda de tempo: elas nunca conseguiriam passar como pessoas não-surdas, mesmo se quisessem, e os tempos escolares dessas pessoas foram arruinados, sem motivos. O pior de tudo é que, para fazê-las ficarem concentradas no estudo da fala articulada, os professores puniam os alunos flagrados em tentativas de comunicação por sinais gestuais.

Por quase um século, as linguagens de sinais foram perseguidas nas mesmas instituições que supostamente deveriam propagá-las. Mas os códigos não chegaram a ser eliminados, mas simplesmente conduzidos ao mundo marginal, onde sobreviveram graças às contraculturas estabelecidas pelas crianças nas escolas, clã-destinas, rebeldes e cruéis.

Todos os que sentem estar perdendo sua velha fé na liberdade, na razão e no progresso humano deveriam considerar o renascimento das linguagens dos sinais nos últimos 50 anos, se quiserem dar um reboot ou renovar seu otimismo social. As linguagens de sinais agora são permitidas em todas as escolas de surdos, e na maior parte dessas escolas são utilizadas e ensinadas explicitamente como um meio de instrução.

Uma nova estrutura do ensino formal, apoiada por filmes e gravações em vídeo, proporciona às linguagens dos surdos uma estabilidade e uma uniformidade que nunca haviam sido estabelecidas, ao mesmo tempo em que esses códigos são diversificados e enriquecidos através do teatro e da poesia dos sinais. As linguagens dos sinais são estudadas como segundas linguagens por pessoas que têm audição normal, e viraram assunto do momento para os pesquisadores de lingüística.

O público já ficou acostumado aos intérpretes de sinais nos teatros e na televisão. Os sinais decididamente ganharam terreno, e os delegados presentes ao congresso da associação britânica têm uma vitória marcante para comemorar.

Finalmente começa o show.

A troupe teatral da associação, a companhia Deafin itely Theatre (título que brinca com a expressão deaf, que caracteriza surdos em inglês), apresenta um espetáculo energético, apesar de a apresentação de cinco atores acelerados nos sinais durante uma hora ser um pouco demais para um fonocêntrico contumaz como eu. Fico encantado e me divirto, mas logo eu perco o fio da história contada no espetáculo.

Eu me situo melhor nas sóbrias sessões diurnas --e é normal que isso aconteça, devido à quantidade e qualidade de intérpretes em inglês, em textos e falas, disponíveis aos que desconhecem a linguagem BSL e que estão por aqui em Inverness.

A estrela conferencista é Harlan Lane, historiador americano que praticamente abriu o estudo da história da opressão dos surdos com seu livro "When the Mind Hears" ("Quando a Mente Escuta"), publicado em 1984. Lane não é surdo, e parece que ele encontrou a história de surdos como objeto de estudos quando investigava as idéias sobre medicina que circulavam em Paris durante a Revolução Francesa.

O registro de injustiças atrozes contra os surdos o indignaram tanto que ele desde então se especializou nos problemas históricos enfrentados pelas pessoas surdas e na utilização dos sinais.

O distinto e agradável professor é saudado em Inverness como uma "pessoa surda honorária" ou, segundo a expressão preferida pelos que não se consideram desprovidos de audição, mas sim como especialmente providos da capacidade especial de fruir a cultura da linguagem dos sinais, um "Surdo com S maiúsculo".

Lane tem um cartaz com seu próprio nome (e não apenas o seu nome em inglês pronunciado com os dedos), e diz algumas coisas na linguagem americana dos sinais (texto traduzido para BSL por um intérprete sinal-por-sinal), antes de reverter o conteúdo ao inglês falado.

Ele se refere ao professor de linguagem de sinais com a intensidade que outros dedicam aos psicoterapeutas, e afirma suas credenciais de Surdo ao nos contar o que aconteceu na noite anterior, quando ele compartilhou a dupla alegria de um amigo Surdo que recentemente se tornou um pai e que acabou de descobrir que o bebê dele também nasceu profundamente surdo: é motivo para grande alegria, já que uma criança surda não será tentada (como são as crianças não-surdas filhas de surdos) a abandonar a graciosa cultura da linguagem dos sinais em benefício das vulgares gratificações do tagarelante mundo das pessoas que escutam.

O historiador Lane ns traz informes urgentes do "Mundo Surdo" nos Estados Unidos --resumindo, cerca de um milhão de americanos (pelo seu cálculo) utilizam ASL como sua primeira linguagem, sem falar dos cerca de 20 milhões que sofrem de alguma deficiência auditiva. Esses Surdos Americanos, conforme Lane explica, recentemente se tornaram conscientes de que são guardiões não só de suas próprias linguagens, mas também de distintos costumes, valores e memórias, e querem que o resto da sociedade comece a mostrar respeito por sua cultura.

Eles começaram por garantir os direitos a serem considerados como uma "etnicidade", como a dos afro-americanos, em vez de um mero sub-grupo, como os que utilizam cadeiras de rodas ou os desprovidos de visão. Mas os Surdos enfrentam poderosos inimigos.

Terapeutas da fala e fabricantes de aparelhos de audição têm um interesse velado em relegar os surdos à condição de "grupo deficiente", e os especialistas em genética e cirurgiões do ouvido são ainda piores --ao aconselharem casais que supostamente estão no risco de terem crianças
surdas, ou oferecendo implantes da cóclea, parte anterior do labirinto, como cura para surdez congênita, eles na verdade estão tramando o extermínio dos surdos.

Os Surdos Britânicos, diz Lane, deveriam prestar atenção aos alertas dados por seus semelhantes americanos antes que seja tarde.

Eles devem começar a expor a agenda sinistra dos ilusórios filantropos, que se oferecem para ajudar os surdos propondo a restauração de sua audição.

"Por que os britânicos não conseguem perceber que um programa que tem o previsível efeito de diminuir ou erradicar a minoria Surda na verdade é um genocídio?", ele pergunta. Seu alerta é recebido calorosamente pela maioria dos espectadores, e eles expressam sua aprovação na maneira tradicional dos Surdos: levantando as mãos, palmas para a frente, e estalando os dedos.

Mas Doug Alker, um sósia do vice-primeiro-ministro britânico John Prescott e que há muito tempo vem sofrendo na presidência da Associação Britânica dos Surdos (BDA), parece agoniado. É que ele simpatiza com os casais Surdos que conscientemente, apesar da pressão exercida por seus semelhantes, tendem a aceitar para eles mesmos o aconselhamento dos geneticistas e os implantes da cóclea para suas crianças. Ele também percebe que a associação perderia grande parte dos seus fundos se seus membros mudassem de rumo e se desqualificassem enquanto classe de deficientes.

A apresentação seguinte não leva em conta essas questões. É feita por Jim Kyle, um bem-humorado professor de audição de Bristol que é bilíngüe em inglês e BSL. Kyle encanta a platéia com um jovial porém virulento ataque à organização co-irmã da BDA, o Real Instituto Nacional para as Pessoas Surdas (RNID).

A RNID é de longe a associação que tem mais membros, já que se propõe a representar todos os nove millhões de britânicos com audição anormal, dos quais menos de um em cada 100 é reconhecidamente Surdo, na acepção de usuário seguro e fluente da linguagem dos sinais.

De acordo com Kyle, o instituto real vem sistematicamente prejudicando os interesses dos autênticos Surdos --o envolvimento da instituição em esquemas governamentais para melhorar o design de aparelhos de audição e para aumentar a disponibilidade de implantes da cóclea provoca desvio de dinheiro que deveria seguir para causas mais genuínas dos Surdos.

Segundo Kyle, a RNID promove um estereótipo degradante, que encara os surdos como vítimas de uma aflição física e não como expoentes de uma nobre herança cultural.

Esse ponto de vista de Lane-Kyle já foi denominado de nacionalismo Surdo, e esse rótulo é ostentado orgulhosamente por Paddy Ladd, outro acadêmico de Bristol e um dos principais ativistas radicais da associação BDA.

O cabeludo Ladd é surdo de nascença, mas freqüentou escolas "normais" e só descobriu a cultura Surda quando entrou na faixa dos vinte anos. Desde então, ele vem adotando o nome de Jesus no cartaz e se dedica à construção da memória da era de liberdade para a linguagem dos sinais, que se encerrou depois de 1880.

A contribuição dele aos eventos do dia --numa palestra vigorosamente assinalada, às vezes rápida demais para seus intérpretes-- se baseia nos estudos do acadêmico francês Ferdinand Berthier, que não apenas foi o pioneiro no estudo da História dos Surdos como também empreendeu tentativas históricas para reunir a população surda da França numa "nação" independente, na década de quarenta do século 19.

A empreitada da nação surda foi interrompida por uma conspiração de imperialistas orais, mas não foi derrotada. Agora, Ladd sugere que ela está novamente em andamento e ele está confiante numa vitória definitiva.

É difícil resistir aos apelos feitos em nome de um grupo que já sofreu terríveis injustiças. Mas não fico muito à vontade com essa causa do nacionalismo Surdo.

O tom de militância pode ter lá o seu charme, mas parece vir acompanhado do mesmo autoritarismo auto-indulgente, típico de qualquer outra forma de nacionalismo, e da mesma agressividade corporativista ("Como se atreve a fazer comentários quando você não compartilha do nosso problema?").

É claro que os sofrimentos coletivos dos surdos não podem nunca ser esquecidos, mas isso não significa que devam ser usados como pretexto para ressentimentos mal-humorados, ou desculpa para denunciar pessoas surdas suspeitas de terem lá as suas dúvidas ou como fachada para tentar se impor uma identidade uniforme a todos os congressistas surdos.

O jornalista surdo Bob McCullough, que escreve uma coluna sobre o mundo dos surdos para o jornal "Belfast Telegraph", já perdeu muitos amigos ao chamar a atenção sobre a superficialidade dos avanços educacionais entre os surdos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. As crianças surdas saem da escola com uma idade média equivalente a oito anos no que diz respeito ao seus desempenhos em leitura, ele me diz, e os adultos surdos não tem grande preparo cultural: eles "não lêem livros nem discutem literatura na mesma proporção em que discutem a audição." A militância a respeito da linguagem dos sinais, segundo McCullough, é uma ridícula distração.

Movimentos nacionalistas são famosos pela má avaliação de sua história, e também nesse ponto o nacionalismo Surdo não nega a sua índole. Assim como outras ideologias nacionais, gosta de contar a si mesmo histórias sobre uma era de heróis e de felicidade, encerrada por uma derrota catastrófica, que foi seguida por uma prolongada convalescença e que agora está abrindo caminho para o retorno triunfal do nacionalismo.

Herói dos surdos

Quanto à nação Surda propriamente dita, seus dias mais felizes foram comandados por um santificado padre francês chamado Abade de l'Épée (Espada). Em 1760, o abade encontrou duas meninas surdas analfabetas em Paris, e decidiu ensiná-las rudimentos de cristianismo.

Ele começou por aulas de Francês escrito mas, depois que elas aprenderam poucas palavras relativas a objetos cotidianos, o aprendizado das meninas estacionou, tornando distante a terra prometida da iluminação espiritual.

Aí o abade pensou novamente, e resolveu se tornar o pupilo de suas pupilas, apreendendo os gestos domésticos que elas utilizavam para se comunicar uma com a outra, e utilizando esses sinais para explicar palavras abstratas do francês que eram necessárias para que ele pregasse o evangelho cristão.

Logo ele passou a dar duas aulas por semana às irmãs, sem nada cobrar e em sua própria casa. Em três anos, além das meninas já havia mais uma dúzia de alunos, meninos e meninas. Era um homem rico e com tempo disponível, e por volta de 1780 ele já era capaz de acomodar mais de 70 crianças em suas classes.

A morte do Abade de l'Épée coincidiu com o início da Revolução Francesa, e o caridoso velho padre foi aclamado postumamente como um campeão dos "Direitos do Homem e do Cidadão". O sistema de gestos que ele organizou, de acordo com os revolucionários, era "a linguagem dos anjos".

A história dele foi melhorada a cada repetição, embelezada com novas fábulas que descreviam como o abade sacrificava suas economias em benefício dos surdos e de sua bela linguagem, terminando seus dias pobre mas feliz, cercado por alunos agradecidos.

Ele foi declarado herói nacional depois do golpe oralista de Milão em 1880. Em 1909 foi construído um memorial em homenagem ao abade em Paris, e ele foi canonizado como "pai dos surdos" e líder simbólico da luta pela sobrevivência das linguagens dos sinais.

Infelizmente para a narrativa nacional, os registros históricos mostram que o abade não tinha noção da emissão dos sinais como ela é conhecida hoje em dia, nem de longe imaginando que pudesse haver vários códigos diferentes, como os que atualmente identificamos como Linguagem de Sinais Francesa, Americana ou Britânica.

Sinais autênticos, no entender dele, formavam uma singular linguagem perfeita, abençoadamente preservada do turbilhão de convenções humanas que engolfaram outras linguagens quando da queda da Torre de Babel.

Por outro lado, o abade reconhecia que esses "sinais naturais" não tinham muita utilidade nem para os propósitos religiosos nem para a vida cotidiana no século 18 em Paris. Foi aí que ele decidiu modificá-los e dar formas aos sinais que pudessem combinar diretamente com palavras em francês e com as categorias gramaticais.

Nunca passou pela cabeça dele que esses "sinais metódicos" pudessem algum dia se tornar uma linguagem auto-suficiente; no entender dele elas eram pouco mais que um método taquigráfico de pronunciar com os dedos, e que a única função deles era a introdução de seus alunos surdos ao francês escrito e depois ao cristianismo.

Quando esse objetivo fosse atingido, a tarefa seguinte para o abade seria ensiná-los a leitura labial e, se possível, também a fala articulada, para capacitá-los a participar integralmente na vida francesa. Portanto o Abade não era um anti-oralista nem tampouco um tipo precoce de nacionalista.

Mais nobres e naturais que a fala

O oralismo estabelecido pelo congresso de Milão também não foi esse desastre maligno e involuntário que os Surdos nacionalistas querem crer. Ninguém hoje em dia sonharia em defender uma tentativa de erradicar a linguagem dos sinais da educação de crianças profundamente surdas.

Mas os delegados daquele congresso de Milão estavam mais preocupados com um grupo bem maior, o de crianças com problemas de audição que poderiam aprender linguagens faladas com facilidade, desde que tivessem tutores individuais e aparelhagem apropriada para audição quando fossem bem novas.

E se alguns dos oralistas de Milão eram movidos por preconceitos teológicos contra a linguagem gestual, outros reagiam contra o crescente grupo de românticos defensores da linguagem dos sinais que demonstravam preconceito no sentido oposto, sustentando que os sinais eram mais nobres e naturais que a fala --assim os surdos nada teriam a ganhar, e muito a perder, se ficassem expostos às linguagens faladas.

Muitos dos oralistas absorveram as lições dos lingüistas históricos do século 19, e consideravam as grandes linguagens do mundo como imensas obras de arte coletivas.

Essas linguagens foram construídas durante séculos ou mesmo milênios, sempre com substanciais acréscimos culturais, e agora eram vastos tesouros públicos plenos de conhecimento, poesia e sabedoria originária do passado.

A admiração pela beleza e eficiência da linguagem dos gestos, diziam eles, não deveria ser usada como justificativa para impedir as crianças surdas de compartilharem esses magníficos tesouros herdados.

Os oralistas de Milão tinham um bom argumento, e os subseqüentes avanços no entendimento dos sinais só vieram a fortalecê-lo. As linguagens dos sinais dependem, como outras linguagens, de códigos convencionais, mas são muito mais vulneráveis às contingências sociais. Quando se reúnem crianças surdas que nunca observaram gestos-sinais, elas juntas passarão a inventar seus próprios signos, e em poucos anos estarão equipadas com uma linguagem de sinais amplamente funcional, sem conexão com as outras.

Só que é praticamente impossível para crianças que escutam não se submeterem ao discurso falado, então elas nunca terão a chance de criar uma nova linguagem a partir do nada.

Mas se o índice de natalidade das linguagens de sinais é alto, a expectativa de vida dessas linguagens sempre foi baixa. Os padrões de herança da surdez congênita não produzem comunidades que se perpetuam da maneira necessária para sustentar uma linguagem durante muitas gerações.

E as linguagens gestuais nunca chegaram a poder ostentar uma forte tradição, efetiva ou utilizável.

Podemos ficar animados quando encontramos velhas referências literárias, em Platão ou Cervantes, por exemplo. Mas esses antigos sinais e sua antiga sintaxe jamais poderão ser recompostos, assim como o conhecimento que eles sintetizavam e os sentimentos que exprimiam.

As linguagens de sinais gestuais do passado estão entre os chamados buracos negros da história. E os sinais gestuais do presente não chegam a formar um sólido catálogo lingüístico que, por meio de citações, recapitulações ou alusões irônicas, venha a desempenhar papel importante na vida diária das linguagens faladas.

O problema com as linguagens de sinais gestuais é que elas nunca puderam navegar pelos ventos da tradição.

Bem, isso pelo menos até hoje. Se há alguma coisa que impediu as linguagens de sinais a se equipararem às linguagens faladas é o fato de que não há sistemas escritos amplamente utilizados e associados aos gestos. Um ou dois inventores do século 19 criaram notações para sinais manuais, mas seus esforços não foram muito aproveitados.

Os especialistas em sinais gestuais preferiram argumentar que, como os sinais são por natureza visíveis, eles podem então ser representados graficamente por desenhos naturalistas ou fotografias, sem apelar à artificialidade dos caracteres escritos que são utilizados para representar a fala.

Esse argumento era perverso.

A função de um sistema escrito não é a de descrever a complexidade cheia de nuances da expressão individual, mas simplesmente o oposto --sua função é abstrair o incalculável esplendor sensorial dessa expressão individual e em vez disso se deter em suas características enquanto signos escritos.

A notação dos sinais gestuais foi reinventada nos anos 60 do século 20, e tem sido revista e ampliada desde então, mas seu uso ainda está restrito aos teóricos lingüísticos dedicados à análise léxica e gramatical.

Até onde eu sei não há usuário de sinais, até mesmo entre os mais apaixonados nacionalistas Surdos, que utilizem a notação dos sinais como suplemento ou extensão de seus gestos, da mesma forma como os falantes normalmente usam os sistemas escritos de forma vinculada às suas linguagens faladas.

Os discursos em linguagens dos sinais ainda precisam ser traduzidos em palavras de um idioma falado antes que possam ser transcritos para as notações, assim como barbarismos dos antigos gauleses ou bretões tinham que ser traduzidos para o latim.

É difícil acreditar que qualquer uma das principais linguagens faladas pudesse atingir suas grandezas se não estivessem vinculadas a algum tipo de sistema escrito. Os nacionalistas lingüísticos do século 19 na Europa trataram logo de imprimir suas culturas, com dicionários e antologias folclóricas escritas em gaélico, escocês, dinamarquês, bretão e em dúzias de outras línguas. Qualquer um que se preocupe com o futuro das linguagens de sinais devem esperar que os Surdos façam o mesmo.

Nacionalismo surdo

Eu me retirei um pouco da conferência para dar uma caminhada pelas margens do Lago Ness. Ao relembrar minhas próprias pesquisas pelos arquivos da educação para surdos, considero que o nacionalismo Surdo tem uma história mais longa e mais ampla do que se poderia supor.

Isso parece ter começado com uma observação feita por Roche-Ambroise Sicard, o abade ambicioso que fundou o Instituto Nacional para os Surdos em Paris no ano de 1791, para levar adiante o trabalho do fabuloso Abade de l'Épée.

Sicard estimulou uma forma sistemática de emissão de sinais gestuais entre seus alunos, e em 1800 ele chegou a especular sobre a fundação de "uma nação de surdos-mudos" onde a linguagem dos sinais poderia florescer tão naturalmente como a fala se desenvolve entre os ouvintes.

As idéias de Sicard tiveram alguma influência nos Estados Unidos. Em 1856, um latifundiário americano chamado John J. Flournoy sugeriu a instauração de uma comunidade em separado, onde a população formada pelos surdos poderia finalmente aproveitar a "independência política" e a "soberania de Estado".

Tudo isso aconteceu há um longo tempo, e enquanto caminho por um parque ao lado do Lago Ness contemplo alguns dos monstros alimentados por sonhos de uma independência nacional nos últimos 150 anos. Com um retrospecto geral de tanta destruição e assassinatos provocados por movimentos nacionalistas no passado, acho estranho que os líderes da comunidade Surda queiram seguir esse caminho. Mas também me ocorre que é pouco provável que esses novos nacionalistas sigam muito adiante.

Em primeiro lugar, o nacionalismo em relação à linguagem dos signos tenderia a fragmentar o mundo dos Surdos em vez de unificá-lo: há muitas e diferentes linguagens de sinais, e se os usuários da BSL se tornarem consistentes nacionalistas precisarão se voltar contra os que utilizam a FSL ou a ASL, assim como os nacionalistas Bascos tentam impedir a hegemonia do espanhol e do francês.

O nacionalismo dos Surdos faria com que os gestuais do mundo inteiro se enfrentassem, em vez de fortalecer sua solidariedade.

Seja qual for o caso, pode não fazer sentido para os Surdos ter esperanças quanto a qualquer espécie de sentimento nacional. A razão principal de uma nação é, no final das contas, que suas tradições supostamente passem naturalmente de geração para geração, com cada novo bando de crianças absorvendo essas tradições dentro dos respectivos círculos familiares a partir do momento em que cada uma delas nasce.

Mas com a surdez é diferente. A maioria das crianças surdas nasce de pais ouvintes, e elas não irão aprender suas linguagens de sinais ficando em casa --precisarão sair para aprender nas escolas de surdos.

E muitas crianças filhas de pais Surdos têm audição normal, e assim tanto aprenderão automaticamente a linguagem dos sinais em casa como também estarão destinadas a ser participantes normais na linguagem falada. O nacionalismo Surdo dessa forma não é apenas desafiado pelos preconceitos dos ouvintes, mas também por brutais fatos biológicos.

As comunidades Surdas nunca poderão almejar aquele tipo de homogeneidade cultural dentro de fronteiras bem demarcadas, que inspira os nacionalistas tradicionais. Em relação ao que acontece nas típicas comunidades nacionais, eles sempre precisarão ser mais porosos, mais distendidos e receptivos em relação a estrangeiros.

E enquanto a noite vai caindo, e eu vou me dirigindo novamente ao convívio com os sinalizadores no the Eden Court Theatre, me ocorre que a política tradicional pode ter mais o que aprender com os surdos do que os surdos teriam a aprender com a política tradicional.

*Jonathan Rée é um filósofo freelancer. O livro dele sobre a fala e a surdez,"I See a Voice" ("Eu Vejo uma Voz") foi lançado pela editora Flamingo. A linguagem dos sinais é reconhecida oficialmente como uma linguagem minoritária, com seus próprios direitos. E algumas pessoas da comunidade dos surdos já começaram a se considerar como integrantes de uma verdadeira "nação" Marcelo Godoy

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