Psicanálise de Freud ainda é importante hoje

Brenda Maddox*
Em Londres

O pronome favorito de Adam Phillips é "nós." Ele pressupõe que está se dirigindo a um público formado por pessoas que têm a mesma opinião que ele, que leram os mesmos livros e se emocionam ao ouvir dele generalizações tais como "nós não pensamos nos bebês como pessoas sãs de espírito", e "nós nos tornamos os únicos animais que não conseguem se suportar uns aos outros".

No seu livro mais recente, "Going Sane" ** (que pode ser traduzido por "Recobrando o juízo" - ou "a sanidade mental"), este prolífico popularizador da psicanálise desenvolve a idéia segundo a qual "nós" precisamos de uma nova definição da sanidade mental. "Nós praticamente nem sequer conseguimos imaginar o quão melhor seria a nossa vida, ou até mesmo diferente, se nós fôssemos mentalmente sãos".

A quem ele está se dirigindo? Certamente, não a mim.

E menos ainda quando ele afirma que a loucura é artisticamente fascinante, que "a sanidade não se desenvolve em nossa vida da mesma maneira: ela não implica nenhum drama".

Diga isso a qualquer admirador de Leopold Bloom, o judeu de Dublin que mantém Ulysses atado à sua mediocridade humana (Em "Ulisses", de James Joyce, 1934). E o que dizer de Jane Eyre (heroína do livro homônimo de Charlotte Bronte, 1846), na cena em que ela está sentada no banco perto da janela em Thornfield Hall enquanto os aristocratas se divertem fazendo charadas?

E Huck Finn e Tom Sawyer (personagens de romances que Mark Twain escreveu em 1884 e 1876)? A vida honesta levada de maneira sensata e equilibrada reflete tanto a essência da literatura quanto a inquietude de Hamlet (1600, de Shakespeare) ou os impulsos assassinos de Raskolnikov (em "Crime e Castigo", de Dostoievski, 1866).

O curto livro de Phillips está repleto de outras afirmações doutorais tais como: "A busca da compreensão nada mais é que o medo da liberdade que toma conta de um adulto saudável de espírito". Ele luta para emplacar uma nova definição da saúde mental que pretende combinar uma concepção da vida saudável com uma aceitação de que "todo mundo está ansioso o tempo todo".

A ganância, os impulsos destrutivos e a confusão precisam ser reconhecidos e admitidos como tais. A sua nova regra de ouro seria: "Humilhar outra pessoa é a pior coisa que nós possamos fazer".

Contudo, o apelo de Phillips por um novo conceito de sanidade não deverá mobilizar uma tropa muito grande.

O que "nós" precisamos é compreender como o cérebro funciona. A natureza da consciência é o mais excitante problema científico não-resolvido na atualidade. De que modo a memória é armazenada? Como funciona a visão? O que provoca os sonhos?

Durante os últimos 20 anos da sua vida, Francis Crick, contemplado com um prêmio Nobel, co-descobridor da dupla hélice do DNA, mudou o foco da sua curiosidade, passando da biologia molecular para a ciência do cérebro.

Crick formulou a teoria segundo a qual a consciência é produzida pela interação dos neurônios. "Para compreender o cérebro", diz este professor no seu livro intitulado "A Hipótese Espantosa: A Pesquisa Científica em Busca da Alma", "é preciso entender como funcionam os neurônios e, em particular, o fato de que uma vasta quantidade deles atua junta e de maneira idêntica".

Um outro neurologista e acadêmico, Antonio Damasio, também localiza a consciência dentro da mecânica do corpo. O número infindável de maneiras às quais o corpo recorre para transmitir informações sobre o estado em que se encontram as suas células e seus tecidos, e o quanto ele está empenhado em mantê-las estáveis, são fatos que revelam que o papel da consciência é ainda mais importante, diz Damásio em "O Sentimento do Que Acontece".

O efeito mais nítido sobre o dono do corpo é uma maior consciência de si mesmo, "uma revelação de sua existência". E Damasio vai mais longe ao considerar a consciência, com o auxílio da memória, do raciocínio e da linguagem, como "um meio para modificar a existência".

É em torno da questão da modificação da existência que as neurociências se encontram com a psicanálise. Mas antes, a teoria freudiana precisa fazer as pazes com as novas teorias sobre as causas dos comportamentos.

Surpreendentemente, Crick, o arqui-racionalista, teve algumas palavras de simpatia por Freud: "Um médico clínico que teve muitas idéias originais e que, diferentemente de muitos, escrevia muito bem". Damasio vai mais longe. Segundo ele, Freud acordou o mundo para a realidade do subconsciente, a importância da sexualidade e da infância.

Contudo, o próprio Freud, que havia se formado como neurologista, previu que a psicanálise seria suplantada um dia pelas neurociências. Em 1909, durante uma reunião na Sociedade de Psicanálise de Viena, ele se disse admirado com a tentativa de um cirurgião de descobrir a base neural dos estados mentais. Ele mesmo não podia reduzir as suas teorias psicológicas, transplantando-as para o plano das neurociências, mas ele acreditava que esses problemas "poderiam estar na ordem do dia, um século depois de nós".

E aqui estão eles. O argumento de que a psicanálise é uma ciência não é mais ouvido com a mesma freqüência, atualmente.

Freud foi o primeiro, e o único, psicanalista a ser eleito membro da Royal Society (prestigiosa academia independente de ciências britânica).

Em 1936, ele foi eleito membro correspondente, quando ele completara 80 anos. A sociedade concedeu-lhe essas honras não como uma aprovação do uso terapêutico da psicanálise, conforme foi clarificado na nota de obituário que foi divulgada pela sociedade em 1941, e sim como um reconhecimento de sua descoberta e pelas suas realizações na exploração da mente subconsciente.

Para muitos cientistas, o freudismo é uma bobagem. Num livro que será lançado em breve, Lewis Wolpert, um professor de biologia no Colégio-Universidade de Londres, atribui a popularidade da teoria freudiana ao fato de ela incentivar as pessoas a recorrerem a explicações causais fáceis.

Na análise dos sonhos, por exemplo, "existe quase sempre uma semelhança entre as imagens que aparecem no sonho e a suposta causa". Sonhos com serpentes dizem respeito ao pênis, enquanto um sonho no qual aparece um policial sugere uma referência a um pai autoritário. Qualquer pessoa pode estabelecer essas relações.

Mas nem todos os cientistas se mostram tão severos. Steven Rose, um professor de biologia da Universidade Aberta (que oferece cursos à distância) e autor de um livro intitulado "O Cérebro do Século 21", considera que a terapia psicanalítica desempenha de fato um papel relevante ao ajudar pessoas a enfrentarem as suas perturbações "existenciais".

Para alguém que está lidando com um divórcio mal resolvido, ou que está apaixonado por uma pessoa incompatível, ou ainda que se sente infeliz no emprego, a possibilidade de conversar com uma pessoa que não tem nenhum envolvimento direto com a sua vida, e que foi treinada na arte de ouvir, pode ser um grande alívio.

Conforme me disse uma terapeuta quando eu estava começando a trabalhar numa biografia de Ernest Jones, um pioneiro da psicanálise na Grã-Bretanha: "O tratamento por meio da conversação pode não funcionar na teoria, mas ele dá certo na prática".

Apesar dos produtos medicinais que estão agora disponíveis para tratar certo número de distúrbios mentais, ainda existe uma demanda importante pelo tratamento psicanalítico.

O Instituto Britânico de Psicanálise tem um maior número de membros agora do que 40 anos atrás. Mas os números não são tão importantes assim: havia 403 analistas reconhecidos em 2003-04, contra 273 em 1963-64.

Uma vez que a tradicional terapia analítica de cinco dias por semana se tornou cara e inconveniente, não é nenhuma surpresa ver que muitos clientes preferem agora outros tipos de tratamento, com limites de duração claramente definidos.

Mas parece haver um fluxo regular de pessoas dispostas a pagar de 50 a 100 libras esterlinas (de R$ 256,14 a R$ 512,28) por hora para descarregar os seus problemas sobre um ouvinte profissional.

Será que o tratamento por meio da conversação é adequado para pessoas diagnosticadas com doenças mentais tais como a esquizofrenia? Para a minha surpresa, a resposta é um "sim" qualificado.

Joseph Schwartz, um psicanalista londrino especialista em psicoterapia, e autor de "A Filha de Cassandra", uma história da psicanálise, acredita que, mesmo para pessoas psicóticas, a psicanálise (em conjunção com uma medicação) pode ajudar a evitar um encarceramento permanente numa instituição para deficientes mentais.

O centro caritativo de saúde mental Sane recebe milhares de ligações toda semana. O que as pessoas procuram em primeiro lugar, segundo Marjorie Wallace, diretora da Sane, é "alguém com quem conversar".

Cerca de 90% das pessoas que ligam estão tomando alguma medicação, mas apenas 4% haviam recebido alguma orientação.

Eu também acredito que o tratamento por meio da conversação funciona. Eu mesma me submeti a uma psicanálise dentro do padrão "clássico": sofá, cinco dias por semana, com férias em agosto, e nenhum data combinada de antemão para a conclusão do tratamento.

A teoria, nas raras ocasiões em que ela transpareceu, parecia ser risível. "Londres é um seio", interpretou o meu analista kleiniano num certo dia em que eu estava tentando explicar por que eu amava esta cidade que eu havia adotado. Xii!

Mesmo assim, para mim, o resultado final da análise foi que ela tinha sido salutar. Ela serviu em particular para resolver as minhas dificuldades com os meus jovens enteados cuja mãe havia morrido. Tentar ser a sua nova mãe foi um erro, uma vez que eu era apenas a sua madrasta.

Em retrospecto, o que poderia parecer o pior obstáculo --excetuando-se o custo do tratamento-- revelou ser a sua melhor parte. Como escritora, eu achei o ritual cotidiano muito satisfatório. Perdia-se pouco tempo na recapitulação dos eventos. Bastava retomar a conversa no ponto em que ela havia sido interrompida.

A tão decantada "livre associação" revelou-se, com maior freqüência do que eu poderia prever, uma recitação de tudo o que havia dado errado no escritório, muito mais do que recordações até então enterradas que ressurgem do passado.

Construir uma narrativa sobre a minha própria vida também revelou ser uma preparação muito boa para escrever sobre a de outra pessoa. Desde que eu me tornei uma biógrafa, descobri que eu tendo a aceitar boa quantidade de dados que pertencem ao plano da psicanálise, tais como "a criança é um pai para o homem"; ou ainda que os pequenos detalhes, aparentemente irrelevantes, são importantes, e que nada revela uma vida de forma mais evidente que a maneira de escolher um companheiro, ou de encarar a perda de parentes.

As semelhanças param por aí. Eu trabalho sozinha numa sala e não estou tentando modificar a vida de quem quer que seja. Contudo, a biógrafa, o neurologista, o psicanalista e o conselheiro talvez tenham de fato algo em comum ao atuarem nas suas diferentes profissões. Mas tentar definir o que é "sanidade mental" certamente não faz parte dessas afinidades.


*Entre os livros de autoria de Brenda Maddox, pode ser citada a biografia "Rosalind Franklin: A Lady Sombria do DNA" (HarperCollins).

**"Going Sane", de Adam Phillips (Editado na Inglaterra por Hamish Hamilton). Tratamentos psicológicos baseados na conversação ainda têm o seu lugar, mas a teoria psicanalítica se dissolveu na ciência do cérebro Jean-Yves de Neufville

UOL Cursos Online

Todos os cursos