A esquerda muda quando chega ao poder?

Matt Cavanagh
Em Londres

Em uma recente edição da "London Review of Books", John Lanchester zombou da filosofia do novo trabalhismo como sendo "fazer tudo o que for necessário para conquistar o poder e depois, já no cargo, fazer o máximo possível das coisas que queria fazer, desde que não assuste o eleitorado e não perca a próxima eleição".

Mas isso é realmente algo tão vergonhoso para um partido político admitir?

"Fazer o máximo possível das coisas que queria fazer desde que não perca a próxima eleição" parece um resumo bastante neutro da política democrática. E certamente é saudável para a esquerda tentar se distinguir pelas "coisas que quer fazer" e não por um desprezo arrogante pelo negócio sujo para garantir que tenha uma chance de fazê-las.

Lanchester, ironicamente, sucumbiu ao mal-estar que ele mesmo diagnosticou em 2003, no qual a esquerda é "sempre rápida para denunciar o compromisso, declarar uma traição de princípio [porque] em algum lugar secreto de nós preferiríamos estar fora do cargo e sem compromisso do que nele comprometidamente, enlameadamente, manchadamente".

Essa é uma desvantagem inerente dos trabalhistas. Os governos conservadores podem confiar que seus seguidores serão tolerantes --perdoar quase tudo a seu partido simplesmente porque está no poder.

Para alguns eleitores trabalhistas é o contrário: quando seu partido está no governo, não perdoam nada. Mas todos os governos têm de fazer compromissos, e todos os governos têm de ser seletivos com a verdade. Nem Wilson nem Callaghan, por exemplo, foram menos seletivos com a verdade que Blair.

A diferença é que a mídia fez a história da "confiança" (assim como fez com Clinton, que não era mais seletivo com a verdade sobre as questões que importavam que Kennedy ou Johnson).

De maneira semelhante, Wilson e Callaghan, como Blair, eram comprometidos e realistas naturais. Foi Denis Healey, seu chanceler, quem definiu a missão dos trabalhistas citando o filósofo polonês Leszek Kolakowski: "erodir aos poucos as condições que produzem a miséria evitável".

É claro, o enfoque realmente não deveria ser para alternativas hipotéticas do passado trabalhista, mas a verdadeira alternativa atual.

Em 2003, Lanchester ficou "surpreso" com a rapidez com que as pessoas esqueceram "a ignomínia cotidiana de ser governado por homens como .... Michael Howard".

Mas hoje ele também está dizendo que não há diferença entre os partidos, que ambos são inelegíveis. Isso não pode ser mero esquecimento, com Howard nos noticiários todos os dias. Lanchester não pode realmente acreditar que não há diferença entre os dois partidos --ou, se acreditar, essa crença deve ser um sintoma, mais que a causa. Para ele, esta eleição não é sobre o que os dois partidos fariam caso eleitos, na verdade não tem nada a ver com o futuro, mas com algo que aconteceu no passado --o Iraque.

Isso já aconteceu antes: na América em 1968, outro governo de centro-esquerda se viu lutando em sua campanha por um terceiro mandato, com suas conquistas domésticas obscurecidas pelo Vietnã.

Os democratas antiguerra achavam que Johnson não apenas os havia traído como os envolvera em seus crimes. Eles quiseram puni-lo e emendar-se por seu erro. O próprio Johnson cedeu à pressão e decidiu não se candidatar à reeleição, mas esse sentimento se transferiu para seu vice, Herbert Humphrey, o suficiente para dar a vitória a Nixon por 0,5% do voto popular.

De todo modo, o caso para transformar a eleição em um referendo sobre a guerra era muito mais forte em 1968. Não apenas porque as baixas eram piores, as atrocidades piores, os erros de inteligência piores, o tratamento do Congresso e do público piores --mas, mais importante, porque todas essas coisas ainda estavam acontecendo.

Mas, mesmo então, transformar a eleição em um referendo sobre a guerra só fazia sentido se a oposição tivesse probabilidade de fazer algo diferente, e não tinha. Na verdade, a esquerda antiguerra não demonstrou qualquer interesse em descobrir se tinha --o que mostra que, como hoje, sua motivação era pessoal mais que altruísta, emocional mais que racional, absoluta mais que comparativa, enfocada no passado mais que no futuro. Em outras palavras, todas as coisas que uma votação não deveria ser, especialmente para a esquerda.

O que a esquerda antiguerra conseguiu em 1968 foram mais cinco anos de guerra e Watergate. Para alguns, escavar esse tipo de exemplo parecerá chantagem emocional. Se eles cederem, um governo trabalhista saberá que pode fazer tudo o que quiser e ainda confiar no apoio da esquerda, porque a alternativa sempre será ligeiramente pior.

Mas existe uma diferença entre ser chantageado e simplesmente ser considerado fato consumado. E, é claro, o que permite que a esquerda seja considerada um fato consumado é o sistema eleitoral britânico --o mesmo sistema que pela mesma lógica garante que, se eles protestaram por ser considerados fato consumado, isso simplesmente aumentará as probabilidades de seu resultado menos preferido.

Eles precisam encontrar uma maneira diferente de expressar como se sentem, mais adequada ao que é uma reação emocional, mais que racional, e sem as mesmas repercussões negativas. Trabalhistas no Reino Unido e democratas norte-americanos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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