Economia apolítica não deve decidir eleição

Anatole Kaletsky*
Especial para a Prospect

Os políticos britânicos foram criados dentro da suposição de que eleições são vencidas ou perdidas com a economia, e por grande parte do século 20 eles geralmente estiveram certos. Mas a eleição geral de 2005 não será determinada pela economia.

Desde que dados detalhados de pesquisa sobre o peso político de questões individuais começaram a ser tabulados pela Mori no início dos anos 70, problemas econômicos como desemprego, inflação, sindicatos, taxas de juros ou impostos, normalmente estiveram no topo da lista de preocupações dos eleitores.

Por quase todo este período, um ou outro destes itens (geralmente a inflação e o desemprego) era identificado por mais de 70% dos eleitores como "uma das questões mais importantes enfrentadas atualmente pela Grã-Bretanha". Hoje não há questão econômica que ultrapasse mais de 14%.

Por que a economia perdeu terreno junto aos eleitores britânicos? Em parte, é claro, porque a economia está se saindo bem, reduzindo à irrelevância muitas das preocupações anteriores sobre inflação, desemprego e greves.

Gordon Brown compreensivelmente tenta reivindicar o crédito por esta transformação econômica, enquanto os Tories (conservadores) dizem que o que provocou a mudança foram os anos do thatcherismo, seguidos pelas reformas introduzidas por Norman Lamont e Kenneth Clarke após a Quarta-Feira Negra.

Mas em vez de continuar este argumento -pois a verdade é que o renascimento econômico da Grã-Bretanha reflete uma combinação feliz da reforma thatcherista no lado da oferta com hábil administração ativa de demanda tanto sob os governos Tory e Trabalhista de 1992 em diante- vale a pena considerar algumas razões mais profundas para o declínio da proeminência da economia na política, não apenas na Grã-Bretanha mas por todo o mundo rico.

Com o benefício da percepção tardia, nós podemos ver que o slogan que famosamente valeu a Bill Clinton a vitória na eleição presidencial americana de 1992 -"É a economia, idiota"- marcou o zênite da predominância política da economia.

Apesar da idéia aceita de que os americanos removeram o primeiro presidente Bush, em novembro de 1992, porque estavam sofrendo as dores dos efeitos posteriores de uma leve recessão, este tipo de determinismo econômico ingênuo já foi refutado na Grã-Bretanha.

Em abril, John Major tinha sido reeleito em meio à mais longa e dolorosa recessão econômica em uma geração. Na época, o determinismo econômico ainda podia defender sua posição alegando que Major não venceu de fato a eleição de 1992; foi John Smith que perdeu, ao ameaçar aumentar em 50% o imposto cobrado sobre os eleitores de classe média alta.

Mas desde meados dos anos 90, a idéia da economia como o fator dominante nas eleições britânicas, americanas e européias se tornou indefensável, já que um país após o outro exibiu uma divergência entre a performance econômica e eleitoral.

A perda de poder da economia de decidir eleições a partir de 1992 é acima de tudo uma conseqüência da transformação ideológica mundial que teve início em 1989.

Este foi o momento em que o único modelo econômico alternativo para o capitalismo moderno desapareceu. O fim do comunismo e a podridão revelada no coração de cada regime comunista destruíram as últimas esperanças remanescentes entre os socialistas de criar um sistema econômico que era fundamentalmente diferente do capitalismo.

É claro, os políticos podem continuar discordando em torno das diferenças entre taxação ou finanças públicas, mas é quase impossível para qualquer político sério questionar os princípios fundamentais da economia capitalista: propriedade privada, concorrência e a motivação do lucro.

Ao mesmo tempo, enquanto a única alternativa teórica para o capitalismo era a autodestruição, outra mudança muito prática estava acontecendo na natureza do próprio capitalismo.

Desde seus primeiros dias, a hegemonia política do capitalismo era arranhada por uma falha aparentemente incurável -os altos e baixos que pareciam ficar mais violentos e imprevisíveis a cada ciclo econômico. Hoje, este calcanhar de Aquiles do sistema capitalista, se não foi eliminado, parece estar seguramente enfaixado.

O fato da Grã-Bretanha estar desfrutando de um de seus períodos mais longos de crescimento ininterrupto reflete não apenas a boa administração do governo trabalhista e a competência do Banco da Inglaterra, mas também algumas mudanças profundas na natureza da economia de mercado no mundo como um todo.

O motivo mais claro para a incomum estabilidade econômica da Grã-Bretanha é uma nova abordagem para a administração das flutuações de demanda e emprego, que eram vistas como o problema central da macroeconomia desde que Keynes escreveu sua Teoria Geral em 1936.

Esta nova abordagem de administração de demanda foi liderada pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha, mas agora se tornou uma tendência mundial. Apenas o restante da Europa ainda está se movendo na direção oposta devido à rigidez institucional presente na zona do euro.

Baseada em uma síntese tardia entre a obsessão monetarista com preços estáveis e a preocupação keynesiana com o crescimento e o emprego, a nova abordagem de administração de demanda tem mantido as economias americana e britânica muito próximas do pleno emprego e com tendências de crescimento de longo prazo.

Após décadas de debate improdutivo entre keynesianos, que acreditavam que os ciclos econômicos só poderiam ser domados com o estímulo de gastos públicos, e os monetaristas, que insistiam que o uso da contração de dívidas por parte do governo para estimular a economia só produzia inflação, revelou-se que ambos os lados estavam certos e errados.

Surgiu uma síntese, na qual a administração ativa de demanda tem um papel crucial na estabilização dos ciclos econômicos e do crescimento sustentável, mas diferente da velha abordagem keynesiana, esta estabilização é realizada com a manipulação das taxas de juros em vez de empréstimos e gastos públicos. Além disso, a responsabilidade pela administração de demanda agora cabe a um banco central independente.

Esta nova abordagem neo-keynesiana ou pós-monetarista de administração de demanda tem sido a principal causa do crescimento e estabilidade notáveis desfrutados pela economia britânica desde meados dos anos 90, mas os novos métodos não puderam ser tentados antes de várias condições anteriores serem preenchidas.

O uso de política monetária para administração de demanda só se tornou possível após o trauma da Quarta-Feira Negra ter encerrado um século de obsessão do Tesouro em "defender" o valor da libra.

Ainda mais fundamentalmente, o objetivo neo-keynesiano de manter a economia permanentemente em sua tendência de crescimento de longo prazo foi simbolicamente ligada às reformas de Thatcher nos anos 80.

Sem a legislação anti-sindical e desregulamentação dos anos 80, o uso de baixas taxas de juros para manter o crescimento econômico teria simplesmente criado inflação, como ocorreu nos anos 60 e 70.

Foi apenas quando as reformas de administração de demanda de meados dos anos 90 foram somadas com as reformas de oferta dos anos 80 que seus benefícios combinados se tornaram claros.

Um bom motivo para a confiança na continuidade da estabilidade econômica da Grã-Bretanha é o fato dos dois principais partidos parecerem estar comprometidos com elementos chaves desta simbiose política -uma administração de demanda politicamente independente por meio do Banco da Inglaterra, controle prudente das finanças públicas, desregulamentação do mercado de trabalho, uma taxa de câmbio flutuante e impostos estáveis e moderados.

Além do novo ativismo na administração de demanda, há várias outras mudanças profundas na natureza do capitalismo moderno que fazem com que os grandes ciclos de altos e baixos dos anos 70 e 80 dificilmente retornem, independente de qual partido esteja no poder.

Nos últimos 20 anos, a economia britânica passou por três grandes transformações estruturais que a deixaram inerentemente mais estável do que no passado.

A mais importante foi o encolhimento do setor manufatureiro da Grã-Bretanha, que agora responde por apenas 12% do total de empregos, em comparação com 28% em 1979 e 17% quando os trabalhistas chegaram ao poder em 1997.

Estas reduções do setor manufatureiro foram dolorosas e politicamente impopulares, especialmente entre os eleitores trabalhistas. Mas a boa notícia é que o encolhimento do setor manufatureiro tornou a economia britânica mais estável.

O setor manufatureiro é naturalmente mais propenso a flutuações cíclicas do que o de prestação de serviços, porque precisa manter estoques físicos dos produtos e investir em maquinário adicional quando quer aumentar a produção.

Por manterem grandes estoques dos produtos finais, os fabricantes precisam reduzir a produção mais drasticamente do que os prestadores de serviços sempre que as vendas caem. Os cortes na produção de uma fábrica causam um rápido efeito cascata por todo o sistema devido ao cancelamento de pedidos de componentes e novas máquinas.

Os produtores de bens de capital, que vendem máquinas para outras fábricas, ficam duplamente propensos a flutuações de demanda porque suas encomendas dependem não apenas do nível das encomendas dos outros fabricantes, mas também de sua taxa de crescimento.

De fato, flutuações de estoque e crescimento há muito já foram reconhecidas como as principais causas dos ciclos econômicos clássicos. Uma economia baseada em serviços, que não faz estoques de cortes de cabelo, apólices de seguro e contratos legais, está menos propensa a experimentar grandes flutuações na produção e emprego em conseqüência de pequenas mudanças na demanda.

O encolhimento do setor manufatureiro também contribuiu para a estabilidade econômica de outra forma mais sutil. Desde as eliminações traumáticas do período Thatcher, a Grã-Bretanha se retirou gradualmente de muitas atividades econômicas, como produção têxtil, de aço e montagem de componentes de baixa tecnologia, que no momento são alvo de intensa concorrência global.

A Grã-Bretanha, em conseqüência de ter abandonado a produção de bens manufaturados de relativo baixo valor, cujos preços estão caindo, e ter se especializado em atividades de serviço, cujos preços internacionais estão subindo, tem desfrutado de grandes ganhos em termos de comércio. Isto tem se refletido na força da libra e no rápido crescimento do PIB per capita da Grã-Bretanha em relação ao restante da Europa.

Há outra poderosa tendência na estrutura do capitalismo global que tem beneficiado muitas empresas britânicas. Este processo foi descrito por Charles Gave, um economista francês, como o nascimento de um novo modelo de negócios, a "platform company" (empresa plataforma).

As empresas plataforma são um híbrido de manufatureiras, varejistas e prestadoras de serviço, que não parecem produzir nada em lugar nenhum mas vendem de tudo.

Estas empresas sabem onde estão seus clientes, e sabem onde encontrar bens ao menor custo. Elas mantêm para si mesmas as partes de maior valor agregado de seus produtos -marketing, desenvolvimento e pesquisa- e arrendam todo o restante para produtores externos.

Os principais exemplos de empresas plataforma são a Dell em informática, Ikea em móveis e Wal-Mart em bens de consumo. Outras empresas manufatureiras, que vão de carros e aparelhos eletrônicos até alimentos e remédios, estão adotando rapidamente o conceito de plataforma.

As empresas manufatureiras britânicas foram forçadas a terceirizar agressivamente devido à concorrência e à força da libra -e também foram capazes de fazê-lo devido à relativa fraqueza dos sindicatos britânicos e leis trabalhistas.

Como resultado desta terceirização, grande parte da instabilidade no que restou do setor manufatureiro britânico -assim como em partes significativas do setor de serviços- foi exportada para outros países, especialmente na Ásia e na periferia de baixo custo da Europa. De certa forma, a volatilidade econômica tem sido uma das poucas exportações bem-sucedidas do setor manufatureiro britânico.

A exportação da volatilidade não é uma opção isenta de custo. Não apenas a perda de empregos no setor manufatureiro criou miséria e deslocamento em algumas partes do país, como também argumenta-se que tenha danificado o crescimento potencial de longo prazo porque as atividades manufatureiras são mais suscetíveis à automação do que os serviços, e naturalmente são as primeiras a incorporar o progresso tecnológico. Portanto, a manufatura tende a gerar rápido crescimento de produtividade.

Em um balanço, entretanto, a maior estabilidade produzida pelas reformas macroeconômicas e mudanças industriais tem sido um grande bênção para a economia.

Mas apesar da estabilidade econômica ter se tornado um fato estabelecido da vida britânica moderna, os eleitores estão naturalmente menos agradecidos aos políticos que tentam receber o crédito por este feito -e menos suscetíveis aos alertas sobre desastres econômicos resultantes de votarem "no outro lado".

Anatole Kaletsky é colunista do jornal "The Times". O fim dos altos e baixos fez com que a política fosse separada da economia. Como? George El Khouri Andolfato

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