"França profunda" ainda cultiva velhos e fortes preconceitos contra a Grã-Bretanha

Tim King*

O resultado da eleição que reconduziu Tony Blair ao cargo de chefe do governo deixou muitos franceses perplexos. O presidente Chirac lhes disse na televisão que "na Grã-Bretanha existem métodos e leis sociais que não seriam nem aceitos, nem aceitáveis aqui". Na França, segundo explica um artigo publicado no jornal "Le Monde", a palavra "blairismo" é um insulto.

De fato, ao longo de toda a campanha do referendo sobre a Constituição Européia, tanto os defensores do "sim" como os partidários do "não", fossem eles de esquerda ou de direita, estiveram unidos em torno de um único ponto: a orientação que precisa ser evitada a qualquer custo é aquela seguida por Blair na Grã-Bretanha.

Este juramento foi reafirmado com grande estardalhaço no dia que se seguiu à vitória deste último na eleição. Nenhuma quantia de dinheiro gasta para dissimular os problemas, garante um editorial do "Le Figaro", "poderá um dia ser suficiente para reduzir as discrepâncias entre classes sociais que dividem a Grã-Bretanha --e somente uma completa reforma do sistema educacional como um todo poderá transformar esta sociedade dominada por uma classe que é a mais antiga da Europa".

Concordando com um francês que atuou como professor na Grã-Bretanha durante dez anos, segundo o qual este país tem uma sociedade racista e de duas marchas, sendo dotado de um sistema educacional "catastrófico", o correspondente da Radio France afirmou: "Ele está certíssimo: olhando para a sociedade britânica de um ponto de vista francês, ela desponta inegavelmente como uma sociedade muito elitista e que cultiva as desigualdades. Três milhões de crianças vivem na pobreza".

Tais informações chocam os ouvintes na França (onde existem apenas um milhão de crianças nesta situação), reforçando a sua convicção de que a tal de "terceira via" conduz seus seguidores até o inferno.

Portanto, eles ficaram bastante confusos quando eles começaram a ouvir dizer que a economia britânica está em plena efervescência, que o nível de vida superou o dos franceses e que o desemprego despencou para 4,8%.

As pessoas simplesmente não conseguem entender --isso bate de frente com tudo o que eles leram na imprensa.

Existe na imprensa francesa aquilo que Alain Frachon, o editor-chefe da revista do fim de semana do "Le Monde", chama de "um pensamento único, dominante".

Este domínio provém, segundo avalia Frachon, de um lado do papel histórico do Estado, e de outro de certa cegueira ideológica característica da esquerda, a qual, conforme explica este jornalista, ainda está ancorada no período que precedeu o da economia de mercado, uma era na qual a maior parte dos jornalistas e dos editores franceses ainda têm suas raízes profundamente fincadas.

Eles estão assombrados pelo medo de que, se eles não atacarem ativamente as opiniões favoráveis ao livre mercado, eles serão tachados de "anti-progressistas", o que, na França, equivale a ser mergulhado na escuridão do esquecimento.

Este consenso --ou este conformismo-- contribui para manter uma uniformidade da informação. Durante os dez primeiros dias da campanha do referendo, o CSA, o Conselho Superior do Audiovisual que vigia a mídia, descobriu que o campo do "não" tivera direito apenas à metade do espaço de divulgação do qual havia beneficiado o campo do "sim".

Mas, muito recentemente, praticamente da noite para o dia, aquilo que Fachon chama de "feitiço vodu" e que visa a pintar nas cores do demônio o livre mercado na Grã-Bretanha, mudou o tom da campanha.

Em 28 de abril, a revista semanal "Le Nouvel Observateur" publicou um suplemento de seis páginas intitulado: "Por que os ingleses são melhores do que nós?".

No mesmo dia, duas revistas econômicas mensais, "Challenges" e "Capital", publicaram artigos similares. Essas três revistas elogiaram as mesmas coisas (a City, os eficientes centros de orientação empregatícios, a modernização dos serviços de saúde) e criticaram as mesmas coisas (as crianças pobres, as famílias atordoadas pelas dívidas, os transportes).

Na mesma semana, a publicação católica "La Croix" dedicou três páginas a "Tony, o cristão discreto", enquanto o "Le Monde" apresentou um duplo retrato detalhado de Blair e do seu provável sucessor, o ministro da economia Gordon Brown.

Tradicionalmente, os correspondentes em Londres do "Le Monde" sempre se caracterizaram por esbanjar os sintomas os mais agudos de anglofobia, mas agora, Jean-Pierre Langellier não só se esmera em elogiar a política econômica conduzida pela dupla Brown/Blair, como ele utiliza até mesmo os fóruns de debates do site do "Le Monde" para dizer aos seus compatriotas que os seus preconceitos são frutos de uma má informação.

"A realidade do cotidiano na Grã-Bretanha", escreve Langellier, "nada tem a ver com essa visão simplista e demoníaca".

E ele prossegue: "Ao contrário do que muitos acreditam, o 'blairismo' nada tem a ver com o 'thatcherismo'". Ele defende até mesmo aquelas práticas que o seu presidente afirmou que nenhum francês poderia aceitar.

"Não é verdade", disse Langellier quando um leitor emitiu a crítica segundo a qual a redução do desemprego na Grã-Bretanha incidiu apenas sobre os contratos de curta duração e os empregos de meio-período, ou seja, os empregos que os franceses chamam de "precários" --uma vez que eles não consideram um emprego como efetivo, a não ser que ele seja fornecido por completo, com todas as proteções sociais, e que ele seja garantido para o resto da vida, com direito a uma generosa aposentadoria.

Contudo, os seus comentários mais iconoclastas ficam restritos ao seu fórum de debates online, isso porque, conforme o próprio Langellier e o seu editor me deram a entender, até o referendo de 29 de maio havia um limite para aquilo que a imprensa francesa ousava publicar a respeito da Grã-Bretanha na Europa.

A maioria dos jornalistas e dos editores queria a vitória do "sim", e, para que isso acontecesse era crucial que a visão preconceituosa que os eleitores franceses têm da Europa permanecesse intacta: a França no topo, e a Grã-Bretanha, com seus jogadores de golfe defensores do livre mercado, na periferia.

Eles admitem que é um mito, mas quando os seus leitores perceberam de repente a realidade que implicava a diretriz Bolkestein, a qual é favorável à implantação do livre mercado na União Européia, isso provocou num curto espaço de tempo um caos desencadeado por uma série de greves e um aumento dos partidários do "não" no referendo sobre a Constituição.

Castigada, a imprensa francesa agora se limita apenas a repetir o mantra sinistro de Chirac segundo o qual a França, a "creme", é onipotente na Europa, que tudo o que ela precisa fazer é brilhar e tomar as decisões que ela bem entender para que todos em Bruxelas se inclinem diante dela, seja quando ela decide sustentar financeiramente a indústria francesa ou diminuir os impostos sobre as refeições nos restaurantes.

Todo jornalista e todo editor sabem que 15 dos 25 países membros da União Européia estão mais afinados com os pontos de vistas liberais da Grã-Bretanha, e que o pensamento britânico predomina em Bruxelas. Eles sabem que a desregulamentação vai prosseguir, que a enxurrada de têxteis chineses não vai parar, que Bruxelas está manobrando roçar centenas de hectares de vinhedos franceses. Mas o público francês não pode saber disso: a nata não pode ficar coalhada.

*Escritor britânico que vive na França. Política de Chirac e "pensamento único, dominante" da imprensa, alimentam uma concepção equivocada da sociedade britânica Jean-Yves de Neufville

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