O centenário do filósofo, romancista e ativista francês Jean-Paul Sartre, pai do existencialismo

Kevin Jackson*
Especial para Prospect

Confissões de um adolescente existencialista: no início dos anos 70, quando meus colegas e eu estávamos nos preparando para o vestibular, Jean-Paul Sartre era, simplesmente, o mais famoso de todos os filósofos vivos e quase o mais famoso de todos os autores sérios. Ele era inevitável, obrigatório, onipresente.

Henri Cartier-Bresson - 1946/Acervo Folha Imagem 
O filósofo pela lente de Cartier-Bresson
Você não tinha que ser um cdf para ter uma boa idéia de quem era, já que a BBC2 tinha dedicado 13 horas de programação em horário nobre para a dramatização da trilogia dos Caminhos da Liberdade (talvez atualmente impensável).

A gangue do Monty Python fez um esquete de Sartre. Semanas depois, as escolas ecoavam imitações da pergunta, com voz aguda, da Sra. Premise à esposa fictícia de Sartre: "Quand será-t'il libre?" E depois repetiam a resposta: "Ela disse que ele passou os últimos 60 anos tentando responder isso". Como nós ríamos.

Se você acontecesse de ser um cdf e/ou pretenso intelectual, Sartre era ainda mais inevitável -era um dos poucos gurus modernos que podiam competir com Kafka e Beckett no panteão adolescente de heróis lúgubres.

"As Mãos Sujas" era um dos textos do currículo daquele ano para a prova de francês, enquanto meus contemporâneos em outros lugares sem dúvida estavam igualmente ocupados com a "As Moscas" ou "A Náusea" ou "Huis Clos" (texto comum das companhias dramáticas amadoras na época, e fonte da única frase de Sartre que todo mundo conhecia: "O inferno é o outro").

Nenhum neo-existencialista de respeito no sul de Londres deixava de ter uma cópia da edição de Penguin Modern Classics de "A Náusea", com a capa berrante de Salvador Dali; e quando, aos 16 anos de idade, fuir com minha unidade de cadetes para Hebrides, fiz espaço na minha mochila para "As Palavras", a tradução da Penguin de "Les Mots", o relato meio sarcástico meio glacial de Sartre de seus primeiros anos de vida. "Eu odeio minha infância e tudo que resta dela..." eram as palavras da capa, que não tinha mais nada. Irresistível.

Olho para trás, para todo esse sartreanismo adolescente com relativamente pouca vergonha; todo mundo, afinal, tem que começar o complicado papel do amadurecimento com o combustível que sua cultura oferece na época. Ao menos eu não estava mergulhando meu cérebro em formação em Tolkien.

Mesmo assim, hoje sabemos que meus contemporâneos e eu éramos totalmente antiquados no que nós chamávamos de vanguarda. Começamos a ler Sartre quase ao mesmo tempo em que ele parou de escrever: seu último livro de verdade, o terceiro volume de seu estudo monumental de Flaubert, "O Idiota da Família", foi publicado em 1972, e ele ficou completamente cego no verão de 1973. Nós, no entanto, mal conhecíamos qualquer coisa que Sartre escrevera após 1950.

"A Náusea" foi publicado pela primeira vez em 1938; "Huis Clos" foi primeiramente encenado em 1944; a trilogia dos "Caminhos da Liberdade" apareceu entre 1945 e 1949; "As Mãos Sujas" teve sua estréia em 1948. "O Ser e o Nada", um monstro filosófico de 700 páginas, viu a luz do dia em 1943.

E "O Existencialismo é um Humanismo" -pequeno livro que, com sua ênfase na "autenticidade" e na "angústia" da existência, provavelmente fez mais do que qualquer outro para levar gerações de adolescentes a Sartre -foi publicado em 1946. Resumindo, nós estávamos três décadas atrás da vanguarda parisiense.

Então a cultura começou a mudar, e nós com ela. Depois da adolescência, mal toquei em um livro de Sartre por 20 anos. A Universidade abriu as portas para outros filósofos mais hipnotizadores, de Wittgenstine a Hegel. Ao mesmo tempo, em meados dos anos 70, os britânicos começaram a prestar atenção nos pensadores franceses mais recentes, de Levi-Strauss em diante.

Logo mergulhamos no que Barthes estava escrevendo no final dos anos 50; o que Foucault estava chocando no início dos anos 60; e o que Derrida estava pensando em 1967, ano de "De La Grammatologie". Os jovens com cara de maus e jaquetas agora estavam lendo Althusser, cujo fundamentalismo marxista apavorante fazia Sartre parecer um tradicional conservador.

Cinéfilos politizados renunciavam a Leavis e Hitchcock por Godard e Lacan. Quando me graduei, estava apenas uns dez anos atrasado em relação à outra margem, e a admiração por Sartre era inadmissível entre os colegas.

Alguns de nós tínhamos uma leve consciência de que a estrela de Sartre também estava decadente em sua terra natal. Não foi uma rejeição direta: Barthes, por exemplo, tinha elogiado extravagantemente a peça de Sartre "Nekrassov", quando todos os outros a chamavam-na de uma desgraça incompetente e monótona. Mas em outras partes era a temporada de caça ao intelectual.

Foucault, por exemplo, tinha sentimentos violentamente divididos sobre Sartre. Grande parte de seus primeiros trabalhos são um questionamento implícito ao autor mais velho, em termos políticos e filosóficos, e os dois às vezes eram extremamente rudes um com o outro. Mais tarde, chegaram a um entendimento mais camarada, apesar de Foucault ainda ter que ter sido convencido a ir ao funeral de Sartre.

O próprio funeral foi um evento notável: 50.000 pessoas acompanharam o corpo de Sartre ao cemitério de Montparnasse no dia 19 de abril de 1980. Desde Victor Hugo um intelectual francês não recebia tal honraria; outros descreveram a ocasião como a última manifestação de maio de 68. Tributos foram publicados no mundo todo: os rotineiros "morte de um gigante"; os pouco sinceros ("Seu relacionamento com o Partido Comunista não foi fácil", observou L'Humanit), mas alguns genuinamente comoventes.

Os inimigos de Sartre prestaram homenagem de sua própria forma. Conta a estória que um professor de Oxford saudou um colega com as palavras: "Você soube? Sartre morreu!" Os dois então começaram a dançar espontaneamente em pura alegria.

Passemos para o século 21 e o gigante está... bem, não foi totalmente esquecido. No Reino Unido, Sartre ainda consta em catálogo -qualquer livraria decente tem "A Náusea" ou "Os Caminhos da Liberdade"; uma boa livraria também terá a "Crítica da Razão Dialética".

Seu nome, porém, não parece mais excitar os jovens inteligentes; os filósofos britânicos continuam, como quando ele era vivo, a alegar que o que Sartre escreveu tem pouco a ver com filosofia, e que para cada livro publicado sobre Sartre e x, há 60, 70, 100 sobre Foucault e y. Em "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais", John Lechte dedica capítulos inteiros à fauna como Le Doeuff e Pateman-Pateman?- mas mal menciona Sartre.

Pode-se dizer que boa parte de seu declínio deve-se simplesmente aos negócios. Em geral, na primeira década depois da morte de um autor, sua fama declina fortemente. No caso de Sartre, que deveu grande parte de sua celebridade as suas declarações em público, particularmente após os anos 50, não surpreende que esteja esquecido. (A indústria de Foucault mostra poucos sinais de entrar em recessão, entretanto, e ele já está morto há quase quanto tempo quanto Sartre.)

Depois há a questão espinhosa de Sartre e a União Soviética: certas partes do histórico sartreano são bastante difíceis de lidar, como quando voltou de sua viagem à Rússia em 1954 e proclamou que a liberdade de imprensa e o direito à crítica eram absolutos no Estado do Povo.

Deve-se registrar, porém, que dois anos depois, na época da invasão da Hungria pela URSS, ele fez o que quase todos os intelectuais decentes fizeram: rompeu ligações com o partido Comunista francês. Seu casamento também foi mal.

E é difícil escapar à conclusão de que Sartre está sofrendo as conseqüências de ofensas ideológicas das outros foram liberados: Brecht, Neruda, Picasso -assim como os antigos fãs de Mao Tse Tung, de Philippe Sollers até Andr Glucksmann, cujos rostos ainda vagam pela cultura francesa.

Em suma, quando fui enviado pela Rádio 3 da BBC a Paris com a produtora Kate Bolton para fazer um documentário para o centenário de Sartre (ele nasceu no dia 21 de junho de 1905), eu esperava encontrar, no melhor dos casos, o pesar de seus amigos e desprezo de seus inimigos. Dizia-se no canal que havia ataques ao homem: "Precisamos queimar Sartre?" perguntava um jornal reputado.

"Eles estão tirando piolhos da barba de Sócrates!" Foi a resposta furiosa a esses críticos de Sartre de Annie Cohen Solal, autora de uma biografia parcial, mas de primeira classe. Ela me disse que, apesar de ter encontrado Sartre apenas poucas vezes quando era estudante, ficou permanentemente inspirada pela forma que a aceitou como sua igual e por sua recusa em assumir o papel de grande homem.

Os sentimentos de Solal foram corroborados por muitos, de todos os lados.

A primeira coisa que Michel Contat (crítico de jazz respeitado e primeiro bibliógrafo de Sartre) e Olivier Todd (biógrafo) me disseram foi sobre a absoluta falta de pompa de Sartre ("muito raro em um intelectual francês", murmurou Todd em seu inglês com sotaque), seu sentido agudo de humor (impressionante novidade para a maior parte de nós anglófonos) e seu gosto robusto e terreno por comida, vinho, mulheres... e, sim, gostava de canções também, especialmente o tipo de canções que se ouvia nos bares de St. Germain-des-Pres.

Esta é uma imagem de Sartre tão diferente dar caricatura de sapo míope, estrábico, cerebral que comecei a pensar se não estavam de brincadeira. Mas não: o fato é que Sartre conseguia inspirar devoção entre homens e mulheres.

E muitos que não amavam Sartre hoje se dispõem a respeitá-lo. Cartazes por toda Paris anunciam uma exibição grandiosa, talvez excessivamente solene, dedicada ao intelectual na Biblioteca Nacional. (Sinal dos tempos: o cigarro de Sartre foi cuidadosamente tirado da imagem, de forma que parece prestes a fazer um gesto rude.)

As livrarias estão carregadas de suas obras, jornais estão publicando suplementos sobre ele e, quando liguei a televisão em meu quarto de hotel, a primeira coisa que vi foi Bernard-Henry Levy, intelectual da mídia, desdizendo sua rejeição a Sartre quando jovem e alegando que tudo que há de bom nos pensadores dos anos 60 já estava presente no pensamento de Sartre.

Será essa erupção sartreana repentina, gerada por seu centenário, apenas outra bolha no mercado de ações cultural, ou será que marca o início de uma revalorização do homem e sua obra?

Se for este o caso, pode ser exatamente o tipo de admiração que ele não queria. Defensores e críticos parecem acreditar que, independentemente de nossa lealdade ou nosso menosprezo, ele acrescentou ao menos dois clássicos à literatura francesa: "A Náusea" e "As Palavras".

Ou seja: independentemente da política, saboreie a prosa. Isso era o que os radicais chamavam de "recuperação": anule o questionamento revolucionário do trabalho de Sartre chamando-o de "literatura", embalsamando-o de respeito e colocando-o na prateleira, onde não pode fazer mal algum. Pode ser comparada à tática que o velho general De Gaulle usou quando a direita francesa, revoltada com Sartre quando pediu às tropas na Argélia que desertassem, exigiu que ele fosse preso.

"Não se prende Voltaire", disse De Gaulle. Os detratores de Sartre dirão que sua fama sempre foi extremamente exagerada e que ele era um produto da política cultural francesa do pós-guerra. Foi uma moda; que apodreça.

Mas agora que a poeira está sentando, pode-se dizer que ninguém, nem mesmo Camus, incorporou o papel de intelectual público com tamanho fervor. E se suas declarações pró-soviéticas agora parecem vulgares, suas observações sobre o colonialismo e o terceiro mundo parecem proféticas e visionárias.

Quanto aos outros aspectos de seu legado, suas opiniões filosóficas parecem fora de moda. Em "O Ser e o Nada", que contém o centro de seu pensamento, Sartre usou os instrumentos da fenomenologia de Husserl para fornecer um relato da liberdade, consciência e subjetividade humanas.

Ele enfatizou a diferença entre o ser consciente e livre, que age independentemente, e o ser não consciente, que é um fato do mundo físico, e introduziu a noção de "má fé", uma forma de auto-ilusão dos que tentam negar ou não conseguem lidar com a extensão de sua própria liberdade.

Entrevistei Simon Blackburn, professor de filosofia da Universidade de Cambridge sobre Sartre o filósofo. Para minha surpresa, já que Blackburn trabalha em uma tradição estrangeira ou até hostil a Sartre, ele expressou simpatia pelos primeiros trabalhos, citando "A Náusea" como raro exemplo de um romance filosófico que consegue uma união convincente de ficção e idéias, e elogiou os momentos em "O Ser e o Nada" --a famosa passagem sobre o garçom atento que Sartre usa como parábola da má fé, é um caso-- onde os poderes de romancista de Sartre animam seu pensamento e alçam vôo imaginativo.

Como estilista filosófico, Sartre poderia ser comparado a Kant, segundo Blackburn: nos dois, páginas de exposição seca repentinamente dão lugar a um flash de incrível lirismo, sagacidade ou incongruência.

Essa observação me fez lembrar de algo que Sartre confessou a Michel Contat em 1975: ele disse ter escrito suas obras filosóficas sem hesitação (no caso da "Crítica", movido a anfetaminas), mas suas obras literárias com lentidão agonizante e muitas revisões.

"As Palavras", que ele descreveu como seu adeus a um sonho burguês de literatura a Flaubert, é seu trabalho mais flaubertiano: como o autor de Madame Bovary, ele se torturou com cada palavra, esperando alcançar uma grande síntese de simplicidade lapidar e profundidade semântica --ele queria que cada frase tivesse ao menos quatro níveis de nuances, disse.

E, assim como Flaubert declarou: "Madame Bovary c'est moi" (Madame Bovary sou eu), o Sartre de "As Palavras" e de "O Idiota da Família" poderia ter dito "Flaubert, c'est moi" (Flaubert sou eu). Annie Cohen Solal demonstrou como cada uma das biografias feitas por Sartre -de Mallarmé, Genet, Flaubert e até Tintoretto- era um auto-retrato disfarçado.

Durante décadas, a fama de Sartre foi mais composta por clichês e boatos do que por julgamentos bem fundados, mas, na França ao menos, sua presença triunfantemente sobreviveu à hostilidade e à indiferença. Em 2005, seu nome é usado quase tanto quanto era em 1945, seu ano mirabile. É hora de começarmos a lê-lo de forma adequada, também: pode haver todo um continente a ser descoberto.

*Kevin Jackson é autor de "Humphrey Jennings". Quando eu era adolescente existencialista nos anos 70, adorava Sartre. O pensador já estava fora de moda em Paris, mas agora, no centenário de seu nascimento, a França volta a apreciá-lo Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos