Preconceito e evolução

Natasha Walter*
Especial para a Revista Prospect

Alguns anos atrás, a igualdade entre os sexos parecia estar avançando --não em disparada, mas pelo menos com certo ímpeto. Quando escrevi o livro "The New Feminism" [O Novo Feminismo], em 1998 (logo depois da publicação de "Fire with Fire", de Naomi Wolf, que identificou uma sensação de otimismo semelhante nos Estados Unidos nos primeiros anos do governo Clinton), havia um forte sentimento de que as antigas tradições estavam se fragmentando e dando lugar a uma sociedade mais igualitária.

Muitos dos motivos desse otimismo permanecem entre nós. Nenhuma das oportunidades e liberdades que as mulheres conquistaram nas últimas gerações se perderam. Mas a sensação de energia que acompanhava aquelas mulheres que viram abrir-se portas que estiveram fechadas para suas mães começou a se transformar em um fatalismo silencioso.

Quando as mulheres olham em volta, podem ver que a igualdade ainda é uma promessa distante. No Reino Unido, as mulheres com empregos em período integral ganham apenas 85% da média do salário de período integral dos homens; as mulheres constituem apenas 4% dos diretores executivos de todas as companhias na Bolsa; somente um dos 12 juízes mais antigos é mulher.

As mulheres também têm uma probabilidade muito maior que os homens de ganhar menos: em 2001, 30% das funcionárias mulheres ganhavam menos de 4,86 libras por hora, comparadas com 18% dos homens. Enquanto isso, as mães gastavam duas vezes mais tempo que os pais em trabalho doméstico não-remunerado.

E cada vez mais mulheres estão falando sobre a dificuldade de combinar a vida profissional com a familiar. Se as mulheres se recolhem ao lar, muitas vezes isso é comemorado como uma vitória da opção, mas as pressões que influem sobre essas opções não são levadas em conta. Kate Reddy, a heroína da novela tristemente cômica "I Don't Know How She Does It" [Não sei como ela faz isso], de Allison Pearson, é um modelo da conquista feminina contemporânea.

Ela encontrou um caminho para o trabalho bem remunerado, em contraste com seu passado familiar, em que as mulheres estavam habituadas ao trabalho não-qualificado e mal ou não-remunerado em casa.

Embora Kate tenha se beneficiado das mudanças que dão às mulheres maior acesso ao poder e à riqueza --a expansão da educação superior, o adiamento da maternidade--, ela ainda abandona sua brilhante carreira profissional. Por quê? "Porque eu tenho duas vidas, e não tenho tempo para desfrutar nenhuma delas" e "Porque tornar-se um homem é desperdiçar uma mulher".

Essas decisões de afastar-se do mundo do trabalho são geralmente forçadas, como no caso de Kate Reddy, pelo fracasso dos homens em assumir um papel mais pleno em casa, ou dos empregadores em criar vidas profissionais flexíveis. Mas tornou-se moda entre comentaristas afirmar que diferenças inatas entre os homens e as mulheres são responsáveis por seus estilos de vida diferentes.

Por exemplo, no ano passado Catherine Hakim, da Escola de Economia de Londres, publicou "Key Issues in Women's Work" [Questões chaves no trabalho feminino], um livro que examina por que as mulheres se comportam de maneira tão diferente dos homens na força de trabalho.

Ela sugeriu que, mesmo em uma sociedade com políticas que permitem que mulheres e homens se comportem da mesma maneira, muitas mulheres preferem abandonar o trabalho pago quando têm filhos: "Mesmo que a discriminação sexual fosse completamente eliminada, as diferenças de sexo no emprego continuariam".

As evidências citadas no livro de Hakim foram citadas como prova de que em qualquer sociedade as mulheres fazem opções livres que as afastam do poder. Ela tomou como exemplo a Suécia, onde foram implementadas políticas que garantem a igualdade, no entanto a desigualdade persiste, com as mulheres constituindo apenas 7% dos diretores de companhias privadas.

Esse é um argumento superficialmente forte. Mas mesmo na Suécia as condições para a plena igualdade não estão implementadas. Muitas mulheres são frustradas pelo fato de que os homens não estão caminhando em direção ao lar, para espelhar o trajeto das mulheres para o local de trabalho.

Os esquemas de cuidados infantis, supostamente abrangentes, consistem apenas em creches inflexíveis, por isso ainda é quase impossível para as mulheres que têm filhos assumir cargos intensivos no setor privado. A livre escolha ainda não existe, como me disseram vários grupos de mulheres suecas quando visitei o país no início deste ano.

O mesmo é claramente verdadeiro na Grã-Bretanha. Simplesmente não podemos dizer que as desigualdades que ainda existem são conseqüência de diferenças inatas entre homens e mulheres, quando as pressões externas ainda pesam muito -- desde a inflexibilidade do trabalho bem-remunerado e as maneiras desiguais de concessão de licença-maternidade/paternidade, até expectativas sociais que recompensam certos comportamentos nos homens e outros nas mulheres.

A crença na natureza inata e inflexível da desigualdade foi reforçada por teorias evolucionárias sobre a natureza humana e teorias genéticas sobre características herdadas, que muitas vezes se baseiam em idéias muito tradicionais das naturezas masculina e feminina. Embora nem todos os que defendem essas teorias as utilizem para afirmar que é impossível haver mais mudanças sociais, é difícil resistir à inércia que as teorias ajudam a gerar.

Quando Lawrence Summers, o presidente de Harvard, fez seu famoso discurso em janeiro sobre a sub-representação das mulheres nos departamentos de ciência e engenharia, ele expressou de maneira enfática a idéia de que essa desigualdade persistente se baseia em diferenças inatas.

Summers disse que seu "melhor palpite" sobre o que há por trás da desigualdade em ciência e engenharia é que o "fenômeno maior" seria "o choque geral entre as aspirações familiares legítimas das pessoas e o atual desejo dos empregadores de alta potência e alta intensidade". Mas ele também disse que havia "questões de aptidão intrínsecas". Embora tenha apontado na direção da "socialização e permanência da discriminação", ele as considerou "fatores menores".

Em muitos lugares, mesmo na esquerda, Summers foi elogiado pelo que disse. Um colunista do jornal "The Guardian" disse que ele havia ousado defender uma "teoria impopular". "O furor da livre expressão irrompeu nos Estados Unidos", disse a televisão árabe al-Jazeera. "Summers estava certo", afirmou Helena Cronin, da Escola de Economia de Londres.

O mais influente defensor de Summers disse até que ele havia quebrado um tabu: Steven Pinker, professor de psicologia de Harvard, escreveu na revista "New Republic": "Em algum ponto da história do movimento de mulheres moderno, a crença de que os homens e as mulheres são psicologicamente indiferenciáveis tornou-se sagrada... A tragédia é que essa mentalidade tabu coloca desnecessariamente uma causa elogiável em rota de colisão com as conclusões científicas e o espírito de livre investigação".

Seria de fato uma pena se as feministas estivessem barrando o caminho das descobertas científicas e o espírito de livre investigação. Mas elas não estão. As feministas variam das que acreditam que toda diferença de gênero é criada socialmente até as que afirmam que as mulheres são naturalmente mais empáticas e pacíficas, menos lógicas e dominadoras, melhores para tecer e sonhar que os homens, e que por isso elas devem governar o mundo.

Muitas feministas provavelmente concordariam que pode haver diferenças inatas, mas ainda não estamos em condições de saber quais são. Longe de ser um tabu, a idéia de que diferenças psicológicas inatas conduzem o comportamento masculino e feminino é algo muito claro em nossa cultura.

Diz-se que Summers tirou suas idéias de um capítulo do livro muito aplaudido de Steven Pinker, "The Blank Slate" [A lista em branco]. Nesse livro Pinker usa uma miscelânea de observações sobre a cultura atual e alegações sobre os efeitos dos genes e hormônios para afirmar que os homens e as mulheres são programados de modo muito diferente para fazer coisas muito diferentes na vida.

Infelizmente para Pinker, enquanto suas observações sobre as muitas diferenças no comportamento de homens e mulheres na cultura atual são verdadeiras --as mulheres prestam mais atenção no choro de seus bebês e os homens são melhores em atirar coisas--, ele precisa ser muito seletivo com as evidências para ligar essas muitas diferenças à atividade de genes e hormônios, e não à criação e às expectativas sociais.

Pinker afirma que as diferenças intelectuais entre homens e mulheres são tais que "o fato de um número maior de homens que de mulheres ter capacidades excepcionais em raciocínio matemático e manipulação mental de objetos em três dimensões é suficiente para explicar que não haja uma proporção equivalente de ambos os sexos entre engenheiros, físicos, químicos e professores de alguns ramos da matemática".

Sua opinião de que isso é conseqüência dos hormônios, mais que da socialização, é sustentada pela alegação de que as garotas com uma condição chamada hiperplasia adrenal congênita (CAH na sigla inglesa), que significa que elas são expostas no útero a um excesso de hormônio sexual masculino, "se transformam em meninas masculinizadas, com brincadeiras mais rudes e um interesse maior por caminhões do que por bonecas, melhores capacidades espaciais".

Mas Melissa Hines --a professora de psicologia que montou os estudos que mostram que as garotas com CAH têm maior interesse por caminhões do que por bonecas-- nota em seu livro "Brain Gender" [Gênero cerebral], de 2004, que "de sete estudos que avaliaram as capacidades espaciais de mulheres com CAH, somente três encontraram evidências de que as mulheres com CAH têm melhor desempenho que o das mulheres não afetadas", e os estudos maiores não mostram esses resultados --na verdade, o segundo maior estudo encontrou o efeito contrário. Ela acha frustrante que a variedade das conclusões seja ignorada: "Os autores tendem a escolher os dados que preferem", ela me disse.

Isso quer dizer que Pinker geralmente recorre a citações escolhidas sobre as evidências dos efeitos dos hormônios e genes sobre a cognição e a personalidade.

Por exemplo, ele cita um homem dizendo que depois de uma injeção de testosterona sente-se agressivo e cheio de desejo, mas não cita os estudos que mostram que não há diferença entre os níveis de agressividade dos homens que receberam testosterona e dos que receberam placebo.

Ele disse que as forças e fraquezas cognitivas das mulheres variam conforme a fase de seu ciclo menstrual, de modo que suas capacidades espaciais são mais fracas quando os níveis de estrogênio estão altos. Mas ele não cita os estudos que medem os níveis de hormônio, em vez de relatos das mulheres sobre em que ponto estão do ciclo menstrual, que mostraram resultados conflitantes.

Se Summers confiou no trabalho de Pinker para defender sua tese, foi infeliz --ele fez seu discurso em um lugar onde muitas pessoas sabiam que a hipótese de que a desigualdade se explica por diferenças inatas é simples demais para ser convincente.

A bióloga Nancy Hopkins, que saiu no meio da palestra, me disse: "No início eu não podia acreditar no que estava escutando. Ele dizia que um dos motivos principais para haver um pequeno número de mulheres nas faculdades de ciência, matemáticas e engenharia é que elas não têm capacidade para esses assuntos --ele dizia que as mulheres simplesmente não a possuem. Mas não há a menor evidência para sustentar isso, apesar de décadas de pesquisa.

Em comparação, existem décadas de pesquisa que mostram que a socialização e a orientação de gêneros exercem um papel poderoso para afastar as mulheres desses assuntos".

Muitos colegas de Hopkins concordam, porque embora existam diferenças entre as capacidades intelectuais de homens e mulheres --conhecidamente nas habilidades espaciais e em fluência verbal--, essas diferenças são pequenas.

As grandes diferenças se reduzem a áreas quase absurdamente limitadas da cognição: testes envolvendo a rotação de objetos tridimensionais mostram uma diferença significativa a favor dos homens, mas tarefas relacionadas com construir mentalmente formas a partir de blocos tridimensionais, ou imaginar como formas desdobradas ficariam quando dobradas, mostram diferenças desprezíveis.

De maneira semelhante, embora se diga que as mulheres superem os homens em fluência verbal, elas se sobressaem em uma avaliação que pede para escrever o maior número possível de palavras com determinadas letras, mas não em avaliações de vocabulário ou compreensão de leitura.

Elizabeth Spelke, uma psicóloga de Harvard que é uma líder reconhecida no campo de cognição infantil, me disse: "Trinta a 40 anos de experimentos no campo do desenvolvimento cognitivo em crianças pequenas não mostraram evidências consistentes de diferenças cognitivas entre sexos a favor dos homens.

Pelo contrário, as meninas parecem se sobressair aos meninos em testes de consciência espacial precoce. Mais tarde na vida surgem algumas diferenças em certos testes de raciocínio matemático, mas apenas em áreas limitadas, provavelmente não são produzidas por fatores biológicos e não dão qualquer vantagem aos homens de modo geral".

Embora seja verdade que existem diferenças nas capacidades de homens e mulheres em certas áreas, não há motivo para supor que isso seja imutável.

O teste de matemática feito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com 250 mil jovens de 15 anos em 2003 descobriu que os meninos superavam as meninas na maioria dos países, mas em sete dos 30 países da organização não houve uma diferença de desempenho significativo entre os gêneros, e na Islândia as meninas superaram os meninos por uma margem significativa. Como é improvável que as garotas islandesas tenham níveis hormonais diferentes das garotas americanas, por exemplo, há uma grande probabilidade de que a cultura tenha uma influência maior.

Existem muitos estudos que mostram como a cultura reforça os estereótipos masculinos e femininos e exagera as suposições sobre conquistas masculinas.

Por exemplo, pesquisadores de Princeton descobriram que quando músicos faziam testes para orquestras, se tocassem atrás de uma tela as mulheres tinham 50% a mais de probabilidade de ser escolhidas do que quando os candidatos estavam visíveis.

Pesquisa recente mostrou que a Universidade de Oxford discrimina as candidatas mulheres, aceitando mais homens que mulheres entre candidatos com notas equivalentes, aparentemente porque os educadores acreditam que as mulheres que se saem bem nos exames são mais aplicadas do que inteligentes.

Melissa Hines nota que, embora os defensores da diferença inata façam questão de indicar o melhor desempenho dos meninos em testes de avaliação escolar nos Estados Unidos, eles desprezam com facilidade o melhor desempenho das meninas em exames na Grã-Bretanha.

E embora mais homens que mulheres recebam notas muito altas na parte de matemática dos testes escolares nos Estados Unidos, esse não é o motivo pelo qual as meninas não escolhem ciências e engenharia como profissão. Summers aceitou a opinião de que as pessoas que entram nesses campos devem ter notas de matemática muito altas, e como não muitas meninas têm essas notas isso bastaria para explicar sua menor representação.

Mas Catherine Weinberger, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, recentemente descobriu que apenas um terço dos homens brancos na força de trabalho de ciência e engenharia nos Estados Unidos tem notas de matemática muito altas, e que as mulheres com notas mais altas têm apenas 50% da probabilidade dos meninos com notas mais altas de entrar em ciência ou engenharia. Existe portanto uma reserva de talentos não utilizada, de mulheres que têm aptidão e que não entram nesse campo por outros motivos.

Quando se examina a pesquisa de Weinberger pode-se ver por que muitas pessoas nesse campo ficaram furiosas com o discurso de Summers. O que realmente irritou os cientistas dessa área foi que, embora Summers não tenha levado em conta os fatores sociais que podem atrapalhar as mulheres, existe um grande volume de pesquisa que mostra os efeitos negativos persistentes da socialização e dos estereótipos no desempenho das mulheres em muitos campos.

Veja-se um estudo realizado recentemente na Universidade de Waterloo em Ontário, Canadá, em que dois grupos de homens e mulheres americanos com aptidão equivalente em matemática receberam o mesmo teste.

O primeiro grupo foi informado de que a aplicação anterior do teste havia demonstrado que os homens e as mulheres tinham desempenho equivalente. O outro grupo não recebeu essa informação. Os pesquisadores, Diane Quinn e Steven Spencer, descobriram que os homens e as mulheres se saíram igualmente bem no primeiro grupo, mas no segundo grupo as mulheres tiveram desempenho inferior ao dos homens.

Isso nos dá uma percepção da maneira como as expectativas podem prejudicar o desempenho das mulheres: na ausência de outras informações, as mulheres do segundo grupo atuaram sob a expectativa habitual de que elas têm menor capacidade em matemática do que os homens.

No mundo real as mulheres não experimentam esses estereótipos simplesmente em uma situação de teste, mas em base cotidiana e sob muitos aspectos. Uma recente análise feita por Diane Quinn de parte da pesquisa mostrou que essas expectativas são transmitidas através das gerações: as mães tendem a subestimar as capacidades matemáticas das filhas e a superestimar as capacidades dos filhos.

Um estudo com estudantes de segundo grau descobriu que o "feedback" que os meninos diziam receber de suas mães, pais e professores sobre sua capacidade matemática era mais favorável do que o relatado pelas meninas.

Essas expectativas não desaparecem quando as mulheres superam os preconceitos: mulheres que trabalham em campos nos quais são minoria --em toda a ciência e engenharia, assim como no topo da maioria das profissões-- ainda falam sobre as barreiras que enfrentam.

Nancy Hopkins liderou um estudo em 1999 no MIT que mostrou que os recursos oferecidos a cientistas homens e mulheres -- incluindo salários, verbas de pesquisa e espaço em laboratório -- eram desiguais, e que as cientistas graduadas no campus se sentiam marginalizadas e afastadas da tomada de decisões.

O mais surpreendente nesse estudo é como os homens ficaram surpresos com ele. "Eu fiquei paralisado em minha cadeira", disse o presidente do MIT, Charles Vest, depois de ouvir as evidências. Antes desse estudo, as pessoas supunham que a ausência de mulheres no corpo docente do MIT se devesse à falta de aptidão e interesse --assim como elas supõem em toda a Grã-Bretanha e nos Estados Unidos.

O discurso de Summers não foi um exemplo especialmente raro da crença preguiçosa nas diferenças inatas para explicar as realidades de nossa cultura. Ele causou comoção por causa de quem o estava escutando e pelo fato de Summers ter dito isso diretamente às mulheres, em vez de simplesmente deixar que afetasse suas expectativas e seu comportamento.

Mas em toda parte encontra-se a mesma insistência de que a cultura que nos cerca se baseia no comportamento de nossos genes, nas estruturas evoluídas de nossos cérebros e na influência de nossos hormônios.
Quando Simon Baron-Cohen publicou no ano passado o livro "The Essential Difference" [A diferença essencial], em que afirma que "o cérebro feminino é predominantemente capacitado para a empatia, o cérebro masculino é predominantemente capacitado para sistemas de compreensão e construção", ele captou o clima do momento.

O experimento de sua equipe com bebês de poucos dias, e a conclusão de que os bebês homens olhavam durante mais tempo para um móbile e os bebês mulheres olhavam mais para um rosto, foi freqüentemente citado na imprensa desde a publicação do livro.

Elizabeth Spelke é uma especialista que tem dúvidas sobre se esse experimento merece tanta atenção. "É um experimento isolado", ela me disse.

"Suas conclusões contrastam com as de dezenas de estudos sobre aspectos semelhantes da cognição realizados com bebês durante décadas. É surpreendente o quanto esse estudo foi citado, quando os muitos estudos que não mostram diferenças entre os sexos, ou uma diferença no outro sentido, são ignorados."

Um dos outros principais grupos de evidências de Baron-Cohen sobre a distribuição desigual entre homens e mulheres dos chamados tipos cerebrais E e S se baseou em questionários autodescritivos preenchidos por adultos --o tipo de testes conhecidos pelos leitores de revistas femininas e tablóides.

Essas avaliações refletem diferenças formadas por suposições culturais e socialização; é difícil ver o que eles nos dizem sobre diferenças inatas. No entanto, tornaram-se um ponto de referência muito usado, e no início deste ano a princesa real da Grã-Bretanha, em um discurso em nome das Mulheres na Ciência e na Engenharia, citou a pesquisa de Baron-Cohen como prova de que seis em cada dez homens têm um cérebro sistematizante. Esse tipo de ciência penetrou na cultura popular, muitas vezes superando as intenções dos que fizeram o trabalho original.

Mas está sendo usado para reforçar modelos de comportamento tradicionais, especialmente em relação ao trabalho.

As expectativas sociais são muito importantes para os homens e mulheres jovens, e de certa forma as expectativas são mais convencionais hoje do que dez ou 20 anos atrás. Especialmente quando têm filhos, as mulheres descobrem como a sociedade reforça as expectativas tradicionais de seu comportamento.

Elas descobrem que muitas pressões -- incluindo o padrão de trabalho de seu parceiro homem, as expectativas do empregador e a estrutura da licença-maternidade/paternidade -- tornam difícil combinar trabalho e lar sem dar menor prioridade ao trabalho pago do que seus colegas homens.

Nesse contexto, a reiteração dos estereótipos sobre o poder maior dos homens de sistematizar e competir combina-se a outras pressões sobre o comportamento feminino, produzindo resultados muito diferentes para homens e mulheres.

As pressões para que os homens mantenham um estilo de vida tradicional são igualmente poderosas. Alguns educadores afirmam que hoje o temor da feminilidade nos rapazes é maior que nunca e atrapalha o desempenho educacional, já que estudar é muitas vezes considerado "coisa de menina".

Mais tarde na vida, o impulso para a competitividade no local de trabalho é mitificado como algo ligado a altos níveis de testosterona e masculinidade. Os homens ouvem dizer que os grandes realizadores atraem mais mulheres, embora evidências mostrem que enquanto as mulheres lentamente se tornam mais iguais no trabalho elas começam a se importar menos com a situação econômica de seus companheiros.

Os homens muitas vezes hesitam em tomar a decisão de se aprofundar na vida doméstica por sentir que isso não tem status e aprovação pública. Enquanto os ganhos de fazer uma revolução social eram claros para as mulheres --elas poderiam adquirir posição social, renda e visibilidade ao ultrapassar o lar--, os ganhos na revolução social paralela são mais difíceis de ver para os homens, já que envolvem perda de status, visibilidade e renda.

A idéia de que os homens são naturalmente menos empáticos também leva a um fatalismo sobre seu papel. Mas há muitas evidências que mostram que até ser empático e eficiente para criar filhos é um comportamento aprendido.

É verdade que, como notou Steven Pinker, em nossa cultura as mulheres reagem mais rapidamente ao choro de seus filhos, mas nada diz que isso signifique outra coisa além de prática e socialização.

Em uma cultura em que a maioria dos homens volta ao trabalho imediatamente depois do nascimento de um filho, seria extraordinário se eles conseguissem continuar tão alertas a suas necessidades quanto as mulheres que ficam em casa.

Em um teste realizado com adolescentes, embora as garotas tenham dito que gostavam de crianças mais do que os meninos disseram, quando deixados sozinhos com um bebê chorando suas reações não eram diferentes. As mulheres podem confirmar o fato de que a maternidade é um processo difícil e complexo, um papel nem sempre fácil e natural; é algo que as mulheres aprendem com grande esforço e frustração.

Para reanimar o ímpeto do movimento em direção à igualdade, precisamos contestar a influência da escola da "natureza humana". As diferenças cognitivas entre homens e mulheres que podem ser observadas são pequenas, se são inatas ou não é uma questão em aberto e mesmo que sejam inatas não precisam ser imutáveis. A maioria dos cientistas dessa área concorda que a discussão natureza/criação é insolúvel, já que as duas interagem constantemente.

É fácil utilizar a ciência, especialmente a psicologia e a biologia, a serviço da ideologia. O próprio Darwin disse que algumas características das mulheres "são típicos das raças inferiores, e portanto de um estado de civilização passado e inferior". Ele concluiu que um homem atinge "uma maior eminência, em qualquer coisa que realize, do que as mulheres são capazes -- quer elas exijam pensamento profundo, raciocínio ou imaginação, quer simplesmente o uso dos sentidos e das mãos".

A ciência evolucionária da época observou essa situação e supôs que nada jamais mudaria. Mas as feministas que fizeram campanha por reformas tiveram um tal grau de sucesso em transformar as expectativas da sociedade sobre as mulheres que os cientistas de cem anos atrás provavelmente as considerariam uma mudança da natureza humana.

Felizmente, apesar das atuais pressões sobre os jovens para preencher as expectativas tradicionais, não vivemos em uma sociedade simples. Embora o otimismo de uma década atrás não seja mais evidente, o movimento para a igualdade não estagnou completamente. Uma participação mais igual no cuidado de crianças e até em tarefas domésticas ainda é desejada por muitos homens, assim como por mulheres.

Em pesquisas, os rapazes dizem que querem ser pais melhores do que seus pais foram. Quase três quartos dos jovens britânicos --e a mesma porcentagem de garotas-- dizem que se fosse financeiramente possível eles gostariam de ficar em casa para cuidar de suas famílias. E três quartos dos rapazes dizem a pesquisadores que o valor da licença-paternidade na Grã-Bretanha é muito baixo.

O governo está propondo políticas mais iguais para a licença-paternidade, sabendo que a pressão continua sendo para a frente, e não para trás. E lembre-se de que na Grã-Bretanha os rapazes com trabalho em período integral passam cerca de uma hora por dia cuidando de seus filhos. Pode parecer pouco, mas não comparada aos 15 minutos que passavam 30 anos atrás: se o tempo continuar aumentando quatro vezes a cada 30 anos, uma parceria igualitária será uma realidade para nossos netos.

Em uma recente palestra que fiz na Suécia sobre o futuro do feminismo, o embaixador britânico disse no período de perguntas posterior que eu realmente deveria aceitar que os homens não foram programados para cuidar dos filhos como as mulheres.

A pergunta seguinte foi de um jovem funcionário da embaixada britânica, que disse que queria mais de duas semanas de licença-paternidade quando seu filho nasceu, mas não conseguiu porque a embaixada tinha de seguir as leis trabalhistas britânicas, e não as suecas. "As feministas vão apoiar o desejo dos homens de cuidar dos filhos?", ele perguntou, causando embaraço ao embaixador. A tensão na sala entre a velha guarda e os desejos da nova era evidente.

Se os seres humanos são qualquer coisa inatamente, somos inatamente adaptáveis: embora possamos ter evoluído para nos adequar a certo ambiente, ao longo dos milênios as pessoas aplicaram paixão, energia e inteligência para transformar esse ambiente de acordo com suas insatisfações e desejos.

Nada diz que essa transformação não deva continuar. Se escutarmos as vozes da esperança em vez das da inércia, poderemos lembrar que não somos apenas servos do passado, mas também arquitetos do futuro.

*Natasha Walter é autora de "The New Feminism" (Virago) e colunista do jornal "The Guardian". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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