Alemanha dá adeus a políticos da geração de 68

Hans Kundnani*
Especial para a Prospect

Quando Gerhard Schröder substituiu Helmut Kohl no cargo de chanceler da Alemanha, no outono de 1998, o evento foi descrito com freqüência como sendo uma importante mudança de uma geração para outra.

Exatamente trinta anos depois de ocuparem as ruas, os integrantes do que se convencionou chamar de "geração 68" --a geração dos que nasceram depois do fim da Segunda Guerra Mundial e que foi politizada pela rebelião estudantil do final dos anos 60-- ascendeu ao poder. Eles haviam completado a "longa marcha pelas instituições" para qual eles haviam sido convocados por Rudi Dutschke, a estrela popular desse movimento.

Além disso, o novo governo incluiu o Partido Verde (ecologista) pela primeira vez. Este parceiro "caçula" da coalizão era uma cria do movimento pacifista dos anos 80, que representava, até mais do que os social-democratas de Gerhard Schröder (SPD), o espírito de 1968. O seu líder, Joschka Fischer, um antigo combatente de ruas de Frankfurt que se tornou ministro das Relações Exteriores e vice-chanceler no novo governo, simbolizou esta odisséia dos protestos ao poder.

Mas o governo da coalizão vermelha e verde tem sido gravemente prejudicado pela sua incapacidade em debelar as elevadas taxas de desemprego que assolam a Alemanha, assim como os bloqueios que impedem toda reforma econômica, sendo quase certo que ela sofrerá uma derrota em setembro.

Os últimos sete anos agora se parecem cada vez mais com o canto do cisne da geração 68, bem mais do que com uma coroação das suas realizações. Em retrospecto, parece claro que a geração 68 exerceu sua maior influência durante as décadas que precederam 1998.

Ela sempre será associada à liberalização da sociedade alemã, à confrontação com o seu passado nazista, ao crescimento das políticas de proteção ambiental e à difusão dos valores pós-nacionais e pós-industriais. Já, os anos em que ela esteve no governo, em comparação, constituem uma espécie de anticlímax.

Contudo, nem todos os membros do governo vermelho e verde eram oriundos da geração 68. Homens tais como Franz Müntefering, o presidente do SPD, Hans Eichel, o ministro das Finanças, e Wolfgang Clement, o ministro da Economia, são social-democratas moderados que se mantiveram praticamente alheios ao radicalismo da geração de 68.

Mas muitas figuras-chave do governo haviam participado dos debates que fervilhavam em torno do movimento: o próprio Schröder, Joschka Fischer, Otto Schily, Herta Däubler-Gmelin e Jürgen Trittin, entre outros.

Qual será a herança que a geração de 68 deixará?

Ainda não se sabe ao certo. Embora alguns dos aspectos do liberalismo engendrado pelo baby boom dos anos 60 estejam agora profundamente enraizados na sociedade alemã, em muitos outros respeitos o radicalismo de 1968 (que se tornou mais moderado com a idade) parece ter passado pelo sistema deixando pouquíssimas marcas sobre a geração que lhe sucedeu.

Se a coligação de centro direita do CDU/CSU, conforme indicam as pesquisas, for vencedora da eleição, os membros da geração pós-1968 acederão ao poder, sendo que muitos deles são indiferentes ou até mesmo hostis aos valores da geração 68.

O fim da "longa marcha" da geração 68 poderia ter sido totalmente diferente. Se o governo vermelho e verde tivesse ascendido ao poder antes da queda do Muro de Berlim, ainda poderia haver dois Estados alemães.

Oskar Lafontaine, o candidato derrotado dos social-democratas na campanha para chanceler na eleição da unificação, em 1990, mal conseguia dissimular seu desprezo pela unificação da Alemanha, ou ainda pelos seus compatriotas da Alemanha Oriental, com o seu nacionalismo completamente fora de moda --uma atitude típica por parte de muitos membros da sua geração (ironicamente, Lafontaine saiu do SPD em maio e, na próxima eleição, dirigirá uma nova aliança de orientação esquerdista com o PDS, que representa os antigos comunistas da Alemanha Oriental).

A Alemanha do final dos anos 80 estava pronta para ser governada pela geração 68: ela estava relativamente otimista, ainda bem-sucedida economicamente, disposta a submergir sua soberania nacional numa nova rodada de integração européia, e fervilhava de idéias visando a harmonizar a potência industrial alemã com os objetivos do movimento ambientalista.

Oito anos mais tarde, quando Schröder e Fischer finalmente conseguiram suplantar a coalizão de centro direita liderada por Helmut Kohl, eles herdaram um país menos inclinado a acomodações. O otimismo e o sucesso econômico haviam se esvaído, o que se deveu em parte às difíceis tarefas da unificação, enquanto os valores pós-nacionais e pós-industriais da geração 68 pareciam pertencer a uma era diferente.

Acima de tudo, aquilo que a Alemanha precisava --e ainda precisa-- era de um governo capaz de construir um consenso para as reformas, as quais precisam aumentar a demanda interna, estimular a criação de empregos e remodelar o sistema de proteção social. Mas a ciência econômica pura e dura não era o forte dos expoentes da geração 68. Fazer com que a máquina capitalista caminhasse mais lentamente parecia ser um destino inapropriado para o seu idealismo.

A construção de tal "terceira via" esbarrou na resistência dos ainda poderosos sindicatos alemães e na indiferença de uma facção de expoentes da geração 68 dentro do próprio governo, os quais se mostravam bem pouco inspirados pela retórica então empregada por Clinton e Blair sobre os "direitos e as responsabilidades" e a realização das reformas "aos poucos".

O próprio Schröder abraçou efetivamente a retórica da modernização e da inovação desde o início, mas o seu governo acabou posteriormente seguindo caminhos tortuosos na sua política econômica.

Bodo Hombach, o teórico de Schröder da versão que o SPD tinha da terceira via, prometeu revitalizar o mercado social. Mas, confrontado a oposições por parte dos sindicatos e de adversários dentro do seu próprio partido, Schröder abandonou as reformas em meados do seu primeiro mandato.

Ele as retomou depois da eleição de 2002, apresentando o pacote de reformas intitulado Agenda 2010 e implementando as propostas de Hartz que consistiam em cortar os benefícios dos desempregados de longo prazo e em incentivar as pessoas a aceitarem empregos com remuneração reduzida.

Contudo, na reta final da eleição do Land (Estado) de Renânia do Norte-Vestfália, em maio, a retórica deu uma guinada brutal, novamente para a esquerda: Franz Müntefering, o presidente do SPD, descreveu alguns investidores estrangeiros como sendo "gafanhotos".

A frustração dos "vermelho e verde" é compreensível. As grandes companhias alemãs têm um alto desempenho nos mercados mundiais, enquanto as exportações e os lucros alcançam níveis recordes. Mas o sucesso da indústria não se repercutiu no restante da economia. As companhias competitivas no plano internacional não estão criando empregos no seu próprio país e, assim como ocorre na França, não existe nenhum setor de serviços de menor remuneração, amplo e flexível que o faça.

O governo parece ter se dado conta de maneira bastante tardia que é possível desenvolver um mercado de trabalho mais flexível e mais criador de empregos sem para tanto ter que abraçar o thatcherismo. Mas, naquela altura dos acontecimentos, eles não tinham nem tempo nem margem de manobra para levar as reformas adiante. Até mesmo Daniel Cohn-Bendit, um eurodeputado francês e líder ecologista, e um velho amigo de Fischer, admitiu recentemente que o governo "iniciou suas reformas tarde demais e pareceu fazer as coisas de modo indiferente".

E agora, muito provavelmente, conforme apontou o escritor Peter Schneider recentemente, está chegando a hora "de pagar o preço por não resolver os problemas que interessam aos eleitores mais do que quaisquer outros neste exato momento: o desemprego e a economia paralisada".

Distantes das reformas econômicas, os membros da geração 68 no governo podem ainda assim reivindicar algumas realizações limitadas. Os Verdes negociaram o encerramento do programa de produção de energia nuclear, embora eles se vissem obrigados a permitir que as companhias energéticas sigam operando algumas centrais de energia nuclear até ao menos 2023.

Além disso, eles conseguiram aumentar a taxa sobre combustíveis no quadro do programa de imposição de uma "taxa ecológica", embora o seu valor não fosse tão elevado quanto eles queriam.

A outra reforma que caracteriza a geração 68 e que foi adotada durante o primeiro mandato (1998-2002) foi uma revisão das leis de cidadania alemãs, com medidas que tornaram mais fácil para alemães não-nativos, e em particular aqueles de origem turca ou curda, o processo de aquisição da cidadania.

Aqui, mais uma vez, os planos foram por água abaixo. Depois de ser derrotado na eleição do Land de Hesse, em fevereiro de 1999, perdendo, com isso, a maioria parlamentar da qual eles precisavam para aprovar uma lei que garantiria a dupla cidadania para os imigrantes de segunda geração, o governo viu-se impelido a determinar que a dupla cidadania para os filhos de não-alemães só poderia ser obtida a partir da idade de 23 anos, um limite a partir do qual eles precisam escolher.

Em parte, o objetivo dos vermelho e verde era obter o reconhecimento de que a Alemanha é de fato um país de imigração e que o governo deveria se esforçar mais no sentido de promover a integração da minoria turca e curda. Mas aquela minoria, por sua vez, também fazia ressalvas em relação à sua integração. Depois de um pico inicial que ocorreu logo depois da aprovação da lei, a quantidade de pessoas que adquiriram a cidadania diminuiu sensivelmente, passando de 187 mil em 2000 para 141 mil em 2003.

Foi no plano da política externa que o governo vermelho e verde deixou sua marca mais profunda, embora, também neste caso, ele tivesse seguido caminhos bastante tortuosos. Fora da Alemanha, o governo de Gehrard Schröder será lembrado, sobretudo, pela sua oposição à guerra no Iraque.

Se houve um momento em que ele pareceu fazer jus à sua reputação de ser um governo da geração 68, foi justamente aquele. Até então, a maioria dos comentaristas vinha enfatizando o quanto Schröder e Fischer haviam abandonado seus ideais de estudantes.

Afinal, em 1999 eles haviam enviado tropas do exército alemão ao combate, pela primeira vez desde 1945, como parte de uma intervenção da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Kosovo (alguns anos antes, em 1995, o SPD e os verdes opuseram-se ao envolvimento da Alemanha nas operações de manutenção da paz da ONU na Bósnia).

A geração que havia sido galvanizada pela guerra do Vietnã estava protestando contra uma outra intervenção militar americana 35 anos depois, desta vez não como estudantes e sim como membros do governo. Entretanto, a oposição à invasão do Iraque tomou duas formas diferentes muito distintas, que refletiram a influência de duas figuras-chave nos bastidores do governo: Schröder e Fischer.

O predecessor de Schröder, Helmut Kohl, nascido em 1930, pertencia à chamada "Flakhelfergeneration", daqueles que haviam sido membros da Juventude hitleriana e que haviam operado as baterias anti-aéreas nos últimos dias da guerra.

Embora eles não tivessem nenhuma responsabilidade em relação aos atos perpetrados pelo regime nazista, eles assistiram em primeira mão ao desmoronamento da Alemanha nazista. Por sua vez, Schröder, nascido em 1944, assim como os outros integrantes da sua geração, não tinha quaisquer recordações dos eventos de 1945 --a "hora zero" da Alemanha.

Essas diferenças entre gerações, assim como o passado radical de alguns membros do gabinete Schröder, criaram a expectativa em 1998 de que uma nova era estava começando, principalmente no plano da política externa.

Este sentimento foi fortalecido em 1999 quando, uma década depois da reunificação, o governo começou sua mudança de Bonn para Berlim. Conforme analisou Willie Paterson, de Universidade de Birmingham: "Paradoxalmente, os membros da geração 68, que pertenciam inicialmente ao movimento pós-nacional mundial da esquerda, podem ser considerados... como aqueles que mais contribuíram para o desenvolvimento do mais alemão entre os governos do pós-guerra".

Mesmo antes da sua eleição, em 1998, Schröder havia sido associado com a idéia de uma nova nação "desinibida", menos embaraçada pela culpabilidade histórica. Enquanto Kohl falava da integração européia como de uma questão envolvendo as noções de guerra e paz e como uma condição necessária para a reunificação da Alemanha, Schröder queixou-se dos pagamentos desproporcionais da Alemanha para a União Européia e deixou claro que ele não teria problema algum em defender os interesses nacionais da Alemanha "sem qualquer complexo".

Além disso, no outono de 1998, Schröder deu até mesmo a impressão de nutrir certa simpatia pelo escritor Martin Walser, que havia criticado a continuada contrição da Alemanha em relação a Auschwitz.

Mas, enquanto Schröder criava uma expectativa de mudança, Fischer, nascido em 1948, fez todo o possível para enfatizar a continuidade da política externa da Alemanha. Assim que ele assumiu sua função, Fischer logo começou a adotar um discurso que lembrava muito o de Helmut Kohl.

"A mudança mais importante está no fato de que nada mudará nos aspectos fundamentais da política externa da Alemanha", declarou o ministro, em entrevista à "Die Zeit", em novembro de 1998.

Mas as coisas acabaram mudando de fato. Quando, na primavera de 1999, a Otan bombardeou Belgrado na tentativa de deter a limpeza étnica que Slobodan Milosevic vinha promovendo no Kosovo, Schröder e Fischer concordaram em enviar um avião Tornado da Luftwaffe (Força Aérea Alemã) em missões de combate no céu da Sérvia.

Durante um congresso carregado de emoção, promovido pelo Partido Verde em Bielefeld, em maio de 1999, Fischer foi chamado de "fomentador de guerras" e um manifestante o atingiu com uma bomba de tinta, perfurando seu tímpano. Ainda trajando seu terno cinza manchado de tinta, Fischer foi convincente o suficiente para fazer com que o partido o apoiasse, e a coalizão sobreviveu.

As razões que motivaram Fischer a apoiar o envolvimento da Alemanha no Kosovo foi característica da estranha trajetória política dos membros da geração 68. Para muitos dos estudantes que manifestaram em 1968, como parte do que foi chamado de "revolta anti-autoritária", aquilo também era um protesto contra o que eles acreditavam ser uma conspiração do silêncio em relação ao passado nazista.

Tendo crescido na Alemanha Ocidental de Adenauer nos anos 50 e no início dos 60, eles detectavam indícios perturbadores do regime nazista por baixo da superfície opulenta e democrática da sociedade alemã ocidental.

"Nós tivemos a sensação de estar cercados pelos nazistas", explica Christian Semler, um estudante ativista em Berlim Ocidental, em 1968, e que hoje atua como editor no jornal "Tageszeitung" em Berlim, uma publicação bastante representativa da geração 68.

Depois do drama que ocorreu em 2 de junho de 1967, quando um estudante foi morto com um tiro em Berlim pela polícia durante uma passeata contra uma visita do xá do Irã, o ambiente geral tornou-se bastante pesado, sombrio, adquirindo um contorno quase apocalíptico.

Para os estudantes, parecia que o Estado aparentemente democrático da Alemanha Ocidental havia se transformado num Estado "pré-fascista". O nazismo não havia sido derrotado em 1945. Em vez disso, sob as aparências de uma sociedade de consumo capitalista, ele havia se transformado naquilo que uma estudante de Berlim Ocidental, Gudrun Ensslin, chamou de "Reich Framboesa".

Ensslin foi presa em abril de 1968 por ter armado uma bomba numa loja de departamentos em Frankfurt, no que veio a ser a primeira ação da gangue Baader-Meinhof. Durante o seu processo, o seu advogado, o radical Otto Schily, que hoje é ministro do Interior, defendeu a idéia segundo a qual a violência contra o Estado ocidental-alemão constituía uma "resistência" justificável contra a "geração Auschwitz".

Fischer mudou-se para Frankfurt em 1968 para juntar-se à rebelião, e, no decorrer da década seguinte, flertou com a violência política. Junto com Cohn-Bendit, ele fez parte de um grupo "espontaneísta" baseado em Frankfurt, chamado "Luta Revolucionária" que travava batalhas intensas com a polícia.

Mas, em meados dos anos 70, no momento em que a violência da oposição não-parlamentar contra a Alemanha Ocidental estava ficando cada vez mais acirrada, Fischer começou a repensar aquilo que o movimento estudantil havia justificado como sendo uma resistência antifascista.

O seu arrependimento tornou-se definitivo quando ele soube que o seu antigo amigo, Wilfried Böse, e os seus amigos palestinos haviam "selecionado" passageiros judeus do vôo da Air France que eles seqüestraram em Entebbe, em 1976, com marcas nas orelhas para sua execução.

"O que me deixa chocado", disse ele mais tarde, "é que nós não vimos o quão rapidamente nós estivemos a ponto de fazer exatamente aquilo que havíamos rejeitado com tanta força em relação à geração dos nossos pais".

Fischer nunca se tornou um pacifista, diferentemente de muitos dos seus colegas ecologistas, mas ele adotou o seu mantra de "guerra nunca mais" --isto é, até a sua próxima mudança radical de pensamento.

O massacre pelos sérvios de 8 mil muçulmanos bósnios em Srebenica, em julho de 1995, convenceu Fischer de que a Alemanha --mais do que qualquer nação-- não poderia se omitir nem permitir que um genocídio ocorra na Europa.

"Eu aprendi não só o lema 'guerra nunca mais' como também o lema 'Auschwitz nunca mais'", contaria ele mais tarde. A história da Alemanha fizera dele um intervencionista liberal.

Em outras palavras, apesar de ter forjado a reputação, dentro do Partido Verde, de ser um político realista, a abordagem que Fischer desenvolveu da política externa alemã foi movida, sobretudo, por uma visão idealista na qual o Holocausto, e a responsabilidade que a Alemanha tivera na sua realização, talvez seja até mesmo mais importante do que para Kohl.

Daí também o entusiasmo de Fischer pela "conclusão" da integração européia. Este alcançou o seu ápice por ocasião do seu discurso na Universidade de Humboldt, em maio de 2000, o qual originou o debate que desembocou na fracassada Constituição européia (nos últimos dois anos, Fischer reviu sua concepção, rejeitando a idéia de uma Europa "fundamental" pressionada a acelerar a integração dos imigrantes, e dando mais ênfase para o papel estratégico da Europa e para a importância da sua ampliação, a qual, segundo ele, deveria comportar a inclusão da Turquia. Essas idéias estão detalhadas no seu recente livro, "O Retorno da História").

Diferentemente de Fischer, Schröder não exerceu nenhum papel efetivo nos grupos radicais esquerdistas durante os anos 70, e nem passou pelas crises sucessivas de consciência que Fischer tivera. Schröder era um estudante de Direito em Göttingen em 1968, mas ele se tornou um líder proeminente dos jovens socialistas no final dos anos 70, ilustrando-se no seu conflito com o então chanceler Helmut Schmidt, a respeito da implantação de mísseis de cruzeiro na Alemanha.

Nem o passado nazista do seu país parecia ser uma ameaça tão grande para Schröder quanto era para Fischer. Ainda assim, apesar de adotarem pontos de partida diferentes --a preocupação de Fischer com o passado e busca de Schröder por uma "normalização"-- eles chegaram a um entendimento em relação à utilização do exército alemão para missões no exterior e promoveram mudanças históricas na política externa.

Então, ocorreram os atentados de 11 de setembro de 2001. Havia muita ironia implícita na idéia de a geração 68 alemã estar no poder num mundo pós-11 de setembro. Não só os ataques terroristas contra os Estados Unidos haviam sido planejados em Hamburgo, como os grupos terroristas alemães ocidentais dos anos 70, tais como a gangue Baader-Meinhof, haviam brotado diretamente do mesmo movimento estudantil que havia inspirado muitos membros do governo alemão.

Oito meses apenas antes de 11 de setembro, o próprio Fischer havia comparecido na qualidade de testemunha ao processo de Hans-Joachim Klein, um membro do grupo terrorista liderado por Carlos "o Chacal", com quem Fischer havia compartilhado um apartamento em Frankfurt durante os anos 70 (para "aquecer" sua cobertura do processo, a revista "Stern" publicou fotos de Fischer atacando um policial em 1973).

Enquanto isso, Otto Schily, que, na função de ministro do Interior, introduziu uma série de duras medidas de segurança interna depois de 11 de setembro, havia sido no passado um dos fundadores do Partido Verde e ainda o advogado da defesa que defendera a idéia de que a violência empregada pela gangue Baader-Meinhof era justificada.

Schröder ofereceu imediatamente aos Estados Unidos a "solidariedade incondicional" da Alemanha assim como o seu apoio na guerra contra o terror. Ele sobreviveu a uma votação de desconfiança no Bundestag (Parlamento alemão) em torno da questão do envio de tropas ao Afeganistão, e, após terem agonizado com discussões intermináveis durante uma outra conferência do partido, desta vez em Rostock, os Verdes mais uma vez apoiaram seu ministro das Relações Exteriores.

Finalmente, 3.900 soldados alemães participaram da Operação Liberdade Duradoura no Afeganistão. A Alemanha também se viu atribuir o comando da operação de manutenção da paz na Macedônia, quando as tropas que lá estavam estacionadas foram transferidas para o Afeganistão.

Mas, quando ficou claro, durante o ano de 2002, que os Estados Unidos estavam planejando atacar o Iraque, tanto Schröder como Fischer manifestaram sua oposição ao projeto, embora fossem movidos por razões diferentes.

Fischer se opunha à guerra no Iraque porque, diferentemente do que ocorrera na guerra no Kosovo, aquela não era, em primeiro lugar, uma intervenção humanitária visando a prevenir um genocídio, e, em segundo lugar, porque, ao contrário do que ocorrera na guerra no Afeganistão, ela não teria a participação das tropas da Otan nem de qualquer outra organização internacional, e sim apenas dos Estados Unidos, auxiliados por uma "coalizão da boa-vontade" sob medida.

Schröder, que estava batalhando para ganhar terreno durante a campanha para a sua reeleição, em outono de 2002, foi mais longe do que Fischer (ou, mesmo, nesta questão, que Jacques Chirac). Com uma maioria de alemães se opondo à guerra, Schröder deixou claro que a Alemanha não apoiaria uma invasão do Iraque, pouco importando qual seria a decisão do Conselho de Segurança da ONU.

A divergência entre Fischer e Schröder em relação ao Iraque eram em parte de ordem temperamental e em parte de natureza tática --Schröder sempre foi um político mais populista e, como chanceler, ele precisava agradar um número mais amplo de pessoas. Contudo, a linguagem mais nacionalista de Schröder, em particular a sua referência ao Deutscher weg, o jeito alemão, parece ter pouco a ver com 1968 (havia, entretanto, um pequeno grupo da geração 68 em volta de Rudi Dutschke, a quem o sociólogo Wolfgang Kraushaar chama de "um nacionalista de esquerda", que dedicou pouquíssimo tempo para a contrição em relação ao Holocausto e apoiou a unificação da Alemanha).

De fato, a política externa do governo Schröder tem sido uma combinação de duas visões diferentes --o idealismo de Fischer baseado nas lições de Auschwitz, e o realismo de Schröder baseado nos interesses da Alemanha.

Esta dicotomia é ilustrada pelas diversas controvérsias que cercaram os dois políticos nos últimos meses do seu governo. Schröder tem sido criticado pelo seu estreito relacionamento com Vladimir Putin e pelo seu apoio à suspensão do embargo da União Européia sobre a venda de armas para a China.

Em contrapartida, os delitos de Fischer são mais apropriados, por parte de um membro cosmopolita da geração 68. Em abril, ele enfrentou uma audiência parlamentar na qual ele teve de explicar o seu envolvimento na operação secreta destinada a suavizar as exigências legais para atribuir os vistos aos visitantes oriundos do leste europeu, condições essas que haviam sido introduzidas em 1999.

Ele foi também criticado por ter dado a ordem, no ministério das Relações Exteriores, para parar de publicar obituários de diplomatas alemães que haviam servido durante o período nazista --exatamente o tipo de pessoas contra cujas reabilitações os estudantes radicais viviam protestando.

O governo vermelho e verde deixará um legado ambivalente no campo da política externa. A Alemanha deixou para trás a era Kohl, conforme ilustra o seu atual lobby para obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Mas, qual será a direção que a Alemanha seguirá daqui para frente?

Uma política de tendência Fischer, centrada em torno das responsabilidades históricas da Alemanha, que tomará novas formas, mais intervencionistas?

Ou uma política de tendência Schröder, centrada nos interesses nacionais da Alemanha?

Ainda é difícil responder a estas perguntas.

Possíveis sucessores da geração 68

A resposta será determinada pela geração pós-68, por aqueles nascidos durante os anos 50 ou mais tarde, tais como Christian Wulff, a nova estrela do Partido Democrata-Cristão (CDU). Wulff derrotou o candidato apoiado por Schröder, Sigmar Gabriel, em 2003, tornando-se o premiê da Baixa-Saxônia.

Segundo apuraram pesquisas de opinião, Wulff, um homem de forte personalidade, já superou Fischer como o político mais popular da Alemanha (Fischer havia sido até então o político mais popular da Alemanha desde 1998, e assim permaneceu mesmo quando o seu passado radical estava sendo destrinchado pela mídia).

A popularidade de Wulff está tão alta que alguns acreditam que, apesar da sua inexperiência, ele deveria ter sido escolhido como o candidato a chanceler da CDU, no lugar de Angela Merkel.

Levando-se em conta que este partido ajudou a aprovar algumas das reformas do mercado de trabalho que foram propostas por Schröder, é pouco provável que a política econômica da CDU seja radicalmente diferente daquela dos social-democratas.

A sua promessa de uma renovação cautelosa da economia de mercado e social é similar àquela que havia sido prometida pelo SPD em 1998. A vantagem da coligação CDU/CSU é que ela deverá obter uma maioria de representantes tanto na Câmara alta quanto na baixa, pelo menos para os próximos dois anos, o que lhe dará uma chance de aprovar reformas mais fundamentais, caso ela tiver a vontade política para tanto.

No plano de política externa, a centro-direita promete reconstruir o relacionamento da Alemanha com os Estados Unidos, o qual havia sido prejudicado pelo eixo Berlim-Paris-Moscou defendido por Schröder.

"Um governo liderado pela coligação CDU/CSU deverá retornar à idéia de uma política externa integrada, em vez de procurar estabelecer 'relacionamentos especiais' com países específicos", anuncia Matthias Wissmann, o presidente do Comitê do Bundestag para os assuntos europeus. Isso pode também significar um estreitamento das relações com Tony Blair e algum apoio a certas medidas visando a reformar a União Européia.

No entanto, Merkel vai governar num mundo muito diferente daquele que conheceu Helmut Kohl, o seu mentor original: a busca de um equilíbrio entre o atlantismo e a integração européia tornou-se mais difícil. Por exemplo, Merkel opõe-se à integração da Turquia na UE --pelo menos em torno desta questão, os membros da geração 68 estão mais identificados com os americanos do que a CDU.

Filha de um pastor protestante que se mudou de Hamburgo para a Alemanha Oriental em 1957, Merkel não poderia ser mais diferente de Schröder e de Fischer. A data-chave do seu desenvolvimento político não é 1968, e sim 1989.

É provável que o passado nazista seja menos central nas políticas que ela adotará do que havia sido com Fischer, ou mesmo, ao menos em relação a esta questão, com Kohl.

Ela chegou a se referir de maneira positiva aos valores conservadores da era Adenauer - a Alemanha contra a qual os membros da geração 68 se revoltaram.

Ainda assim, o fato de ela se encontrar nesta posição --sendo a primeira mulher a ser candidata a chanceler-- se deve de certa forma à influencia liberalizante desta geração de 1968 que está agora iniciando sua longa marcha fora das instituições.

*Hans Kundnani é jornalista freelance. Está trabalhando num livro sobre a geração de 1968 na Alemanha. Em 1998, trinta anos após as insurreições estudantis que politizaram o mundo, a esquerda alemã forjada em 1968 entrou no governo com Schröder. Apesar das expectativas, suas realizações foram limitadas Jean-Yves de Neufville

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