A jornada muçulmana

Ehsan Masood*
Especial para a Prospect

Como cidade natal de H. G. Wells (que lá escreveu "A Guerra dos Mundos"), George Bernard Shaw, Peter Gabriel e as Spice Girls, Woking ocupa um lugar especial na história cultural da Grã-Bretanha. A cidade também tem um lugar especial na história do islã britânico, pois abriga a mesquita mais antiga da Grã-Bretanha.

O edifício, que foi inaugurado em 1889, não é maior que uma casa e tem uma cúpula verde em forma de cebola e minaretes da mesma cor. Hoje ele fica escondido entre muitas casas e ruas, mas na época deve ter sido uma visão e tanto, rodeado por campos e visível da ferrovia recém-construída.

A uma curta distância da mesquita de Woking fica o cemitério de Brookwood, de 160 hectares. Entre suas 230 mil sepulturas estão os restos de Marmaduke Pickthall e Abdullah Yusuf Ali, cada um dos quais escreveu uma tradução do Corão de grande vendagem na década de 1930.

O trabalho de Yusuf Ali é o mais próximo que os muçulmanos têm de uma tradução autorizada em inglês. Seu biógrafo é Jamil Sherif, um paquistanês-britânico cujo livro "Searching for Solace" [Em busca de consolo] nos diz que Yusuf Ali foi um ardente reformista que acreditava que o islã precisava aprender com o Ocidente, acompanhar os tempos e desenvolver uma forma claramente britânica, assim como tem as formas bósnia, chinesa ou paquistanesa.

Eu pensei em Yusuf Ali e em Pickthall no início de julho, quando ouvi a notícia de que os quatro homens-bombas de Londres eram muçulmanos britânicos. Quão decepcionados ficariam os dois autores, não apenas pelos homens-bombas propriamente ditos, mas pela situação do mundo muçulmano britânico de que saíram os terroristas.

Os muçulmanos britânicos raramente estiveram fora dos noticiários desde o 11 de Setembro, e da posterior descoberta de uma corrente de jovens muçulmanos nascidos na Grã-Bretanha dispostos a matar no exterior em nome do islã.

Mas as bombas de Londres chamaram a atenção para os muçulmanos britânicos com uma intensidade inédita desde 1989, quando muitos de nós fomos às ruas protestar contra os "Versos Satânicos" de Salman Rushdie. Dezesseis anos atrás, a maioria dos muçulmanos comuns estava irada e na defensiva. A reação predominante foi pedir mais censura, desconsiderando as tradições britânicas de livre expressão.

Quando Rushdie foi condenado à morte pelo aiatolá Khomeini, vários imãs na Mesquita Central de Londres tentaram intervir a seu favor, mas foram acusados de traidores. Lembro-me vividamente dos relatos de uma reunião na mesquita que Yusuf Islam (ex-Cat Stevens) tentou dominar em protesto contra a decisão dos imãs de conversar com Rushdie. Parecia haver uma lacuna insuperável entre a mágoa sentida pela pequena --mas em rápido crescimento --comunidade muçulmana da Grã-Bretanha e a incompreensão da sociedade em geral.

Nos anos seguintes ao caso Rushdie, os muçulmanos britânicos pareceram se isolar ainda mais, com os líderes comunitários afirmando que se o governo era surdo às suas preocupações os muçulmanos deveriam cuidar de seus próprios assuntos. Entre outras experiências, isso levou ao lançamento de um "parlamento" muçulmano separado em 1992.

O parlamento foi criação de Kalim Siddiqi, um ex-subeditor do jornal "The Guardian" e o homem que alertou o aiatolá Khomeini sobre Rushdie. O parlamento deveria ser a peça central de uma rede de instituições, incluindo um tesouro, um "halal" (autoridade alimentar) e uma rede de escolas religiosas.

A sessão inaugural de dois dias desse parlamento, em janeiro de 1992 (na prefeitura de Kensington), foi um evento para a mídia internacional, muito teatral e cuidadosamente coreografado por Siddiqi, que deu a si mesmo o título de líder da câmara. Mas o parlamento não sobreviveu à morte de Siddiqi, de infarto, em 1996.

Como em 1989, nós, muçulmanos britânicos, estamos novamente enfrentando a violência e o rancor entre nós. Mas que diferença uma década e meia pode fazer! Os homens-bombas vieram em uma época em que o governo está comprometido a abrir portas para os muçulmanos.

Foram atendidas antigas exigências muçulmanas, como verbas estatais para algumas escolas e, mais polêmica, uma legislação que torna a incitação ao ódio religioso uma ofensa criminosa. O governo central procurou e promoveu jovens muçulmanos inteligentes na máquina política.

E quem teria pensado, 15 anos atrás, que os muçulmanos teriam a representação que temos hoje no Parlamento e que seríamos juízes e advogados na Suprema Corte; astros da economia, da mídia e dos esportes. Isso, é claro, é em parte efeito do tempo --uma nova geração, ou pelo menos parte dela, cresceu com as capacidades e a educação para ter sucesso, e o sentimento de que tem direito ao sucesso e à aceitação.

Enquanto isso, uma nova geração de líderes comunitários também assumiu as rédeas. Muitos foram moldados pelo caso Rushdie, mas alguns, reconhecendo os limites da política de protesto, hoje estão prontos a fazer perguntas dolorosas sobre o que há na experiência islâmica britânica que leva alguns jovens ao terrorismo.

Segundo o último censo, hoje há 6 milhões de muçulmanos britânicos (2,7% da população), cuja grande maioria é sunita. A Grã-Bretanha tem cerca de mil mesquitas, 120 escolas muçulmanas privadas e centenas de centros comunitários. Salas de oração para os muçulmanos no trabalho -- antes consideradas exóticas --hoje são comuns, especialmente no setor público e nas grandes companhias privadas.

Mais de dois terços dos muçulmanos britânicos são do sul da Ásia. Cerca da metade vem das regiões mais pobres, sobretudo rurais, de dois países: Paquistão e Bangladesh. Seus lares originais são lugares que ainda não têm a infra-estrutura da vida moderna, como eletricidade, água corrente, atendimento à saúde; lugares onde a metade das meninas não vai à escola.

A maioria dos migrantes econômicos paquistaneses dos anos 60 ocupou empregos não qualificados em Londres ou na indústria têxtil no norte da Inglaterra. Os mais empreendedores montaram pequenas empresas. Os paquistaneses com qualificações profissionais foram principalmente para os Estados Unidos, mas alguns vieram para a Grã-Bretanha, e meu pai foi um deles.

Aos 22 anos ele chegou de Karachi em 1963 para ser treinado como atuário, um especialista em estatísticas de seguros. Ele encontrou moradia em Earl's Court, onde já estava instalado um grupo de seus contemporâneos de Karachi. Mal ele imaginava que Londres ainda seria seu lar quatro décadas depois.

Hoje Londres abriga quase 40% dos muçulmanos britânicos --cerca de 600 mil. A maior densidade está em Tower Hamlets, ao lado da City de Londres, onde vivem 70 mil muçulmanos, na maioria originários de Bangladesh. Os paquistaneses predominam entre os 140 mil muçulmanos de Birmingham e entre os 75 mil que vivem em Bradford. Blackburn, Burnley, Dewsbury, Glasgow, Leeds, Manchester, Oldham e Luton também têm grande número de muçulmanos.

Paquistão, Bangladesh, norte da África, Turquia e países africanos como a Nigéria ainda constituem uma fonte constante de imigrantes, mas os novos migrantes muçulmanos têm maior probabilidade de vir de países que vivem conflitos: Afeganistão, Argélia, Bósnia, Iraque, Kosovo e Somália.
Os muçulmanos estão entre os grupos minoritários de menor êxito.

Comparados com a população em geral, os muçulmanos têm três vezes mais probabilidade de estar desempregados (15% contra 5%), maior probabilidade de não ter qualificações formais (43% contra 36%) e maior probabilidade de viver em áreas carentes (15% dos muçulmanos vivem nos dez bairros mais pobres, contra 4,4% da população em geral).

As imagens de televisão das últimas semanas de paquistaneses em Leeds vivendo em ruas de casas geminadas sem quintal, mulheres vestindo túnicas largas e homens em empregos não qualificados tornaram-se familiares em todo o país. Em mais de 60% das residências muçulmanas, o principal provedor tem baixa renda. De fato, sobretudo por causa de seu ponto de partida social e educacional, o quadro é ainda pior para os paquistaneses e bengaleses, cujo desempenho é pior que o da maioria dos demais muçulmanos e formam um dos grupos imigrantes menos integrados na Grã-Bretanha.

O desempenho das crianças muçulmanas nas escolas fica abaixo da média, mas está melhorando, com as garotas se saindo melhor que os meninos. As escolas muçulmanas particulares têm bons resultados em testes comparativos. Mas a criminalidade está crescendo: 8% da população prisional é muçulmana, aproximadamente o triplo da proporção total da população.

Em comparação, também há uma crescente classe média em empresas, direito, contabilidade e assim por diante. Foram criadas associações de médicos e advogados muçulmanos, e uma revista elegante de estilo de vida, "Emel", foi lançada recentemente para esse público.

Essa é a imagem geral. Mas como é a vida nos lares muçulmanos? Não posso falar por todas as nacionalidades, mas nos lares das famílias sul-asiáticas (especialmente de Bangladesh e do Paquistão) a prática da religião continua sendo um aspecto importante da identidade e da vida cotidiana. Paquistão significa "terra dos puros", e assim como Israel e a Arábia Saudita é um Estado cuja identidade básica é religiosa e que foi criado em parte porque seus cidadãos queriam viver junto com correligionários.

As famílias muçulmanas asiáticas também podem ser muito mais autoritárias que as de outros grupos muçulmanos, e ainda mais que a maioria britânica. Muitos pais ainda querem controlar estritamente as carreiras de seus filhos, ou obrigá-los a casar-se com uma prima no exterior. Em 2004, 1% dos casamentos de paquistaneses britânicos foi com pessoas de outra etnia. (Um quinto dos afro-caribenhos se casa "fora", assim como 17% dos chineses britânicos.)

As férias familiares anuais no Paquistão ou em Bangladesh são geralmente uma oportunidade de apresentar rapazes e moças a outras famílias, prevendo casamento. Trinta anos atrás, os jovens se considerariam felizes se lhes pedissem a opinião.

Hoje existe um certo grau de opção, mas para muitos jovens muçulmanos ele parece contrastar desfavoravelmente com a liberdade muito maior desfrutada por outros britânicos. Alguns estão se libertando da tradição, especialmente as mulheres.

É fácil compreender por que as relações entre pais e filhos em muitas famílias muçulmanas britânicas sofrem tensões. E as barreiras culturais e de geração às vezes são ampliadas por uma lacuna na comunicação. A metade dos muçulmanos britânicos tem menos de 24 anos e a metade nasceu na Grã-Bretanha. Em muitas dessas famílias, os filhos geralmente falam inglês como primeira língua e não conseguem se expressar em bengali ou urdu, as línguas mais usadas por seus pais.

Com freqüência os filhos que são pressionados para seguir a orientação paterna buscam no islamismo uma teologia da libertação. A maioria dos pais tem pouco conhecimento detalhado da história ou teologia islâmicas além do mínimo necessário para os rituais como orações, jejuns e festas.

Nos 20 anos em que observei muçulmanos britânicos, vi cada vez mais jovens descobrirem que o Corão é um antídoto útil contra pais dominadores. Sendo capazes de citar o Corão sobre o islamismo e o casamento, os filhos podem contestar as opiniões dos pais sem cortar os laços.

Outra história conhecida de conflito envolve os jovens, geralmente homens, que se encontram divididos entre os prazeres materiais da vida britânica --bebida, drogas e sexo-- e sua herança muçulmana mais puritana. Esse conflito pode ser exacerbado por viagens ao Paquistão ou Bangladesh, que podem fazê-los ver a sociedade britânica em geral como rasa e materialista, reforçando uma "mentalidade de enclave".

Em alguns casos, jovens muçulmanos confusos buscam a leitura fundamentalista da fé por conta própria. Em outros casos podem ser influenciados por um dos muitos grupos evangélicos muçulmanos que surgiram nas últimas duas décadas.

Durante toda a história muçulmana, a prática do islamismo foi fortemente influenciada pelo sufismo --uma espécie de versão popular do islamismo. A maioria dos muçulmanos sunitas paquistaneses britânicos, por exemplo, pertence à tradição barelwi, um ramo do sufismo que surgiu nas cidades de Bareilly e Budaun, no norte da Índia, no século 19. Minha própria família tem ali suas raízes religiosas.

Os barelwis acreditam em santos (vivos e mortos) e em sua capacidade de realizar milagres. O sufismo barelwi tem uma forte tradição musical e muitos antigos costumes e festividades. O calendário sufi é cheio de eventos que comemoram a vida e a morte do Profeta e celebrações de santos sufis. Alguns sufis barelwis também eram grandes proprietários de terra na Índia sob o domínio colonial, e na mente de alguns muçulmanos eram considerados colaboradores dos britânicos.

Um movimento anti-sufi indiano, às vezes conhecido como revivescência muçulmana, surgiu no final da década de 1860 com a organização de um seminário islâmico em Deoband, cerca de 150 quilômetros ao norte de Déli -- daí o termo "deobandis". Os revivescentes dão maior ênfase a recuperar os muçulmanos para a mais antiga prática do islamismo, acreditando que seja a mais próxima do que o Profeta desejaria.

Eles afirmam que o Profeta reprovaria a música, as comemorações ou a tentativa de contato com os mortos. Afora isso, tanto os sufistas como os revivescentes são sobretudo "literalistas" --eles acreditam que o Corão é a palavra não mediada de Deus e verdadeira em todos os aspectos, que (juntamente com os Hadith) contém tudo o que um muçulmano precisa saber para conduzir os assuntos humanos, e não há necessidade de ler o livro em seu contexto histórico.

A maior presença revivescente na Grã-Bretanha é de longe o Tablighi Jamat (Partido dos Pregadores), um movimento evangélico próximo ao seminário de Deoband. Os tablighis hoje têm dezenas de milhões de membros em todo o mundo e um quartel-general europeu em Dewsbury. Eles são politicamente moderados, mas juntamente com os barelwis exerceram um papel importante no caso Rushdie em defesa da honra do Profeta.

Muitos grupos mais dominantes na Grã-Bretanha, como o Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha e seus afiliados mais influentes como a Sociedade Islâmica da Grã-Bretanha e a Associação Muçulmana da Grã-Bretanha, têm raízes na revivescência islâmica --mas alguns estão se afastando de uma leitura literal do Corão, um processo que poderá ser acelerado depois dos atentados em Londres.

Uma leitura revivescente e literal da teologia também é encontrada entre grupos extremistas da Grã-Bretanha, como o Hizb ut-Tahrir (Partido da Libertação), ou sua filial mais radical, al-Muhajiroun (os Emigrantes), e os Salafis/Wahhabis (os Ancestrais), inspirados nos sauditas. Esses grupos surgiram no final dos anos 80, numa época em que eu editava um jornal estudantil chamado "Muslim Student News". Eles nunca interessaram à maioria dos estudantes muçulmanos, mas suas certezas simples sempre atraíram alguns. Nenhum deles apóia a violência na Grã-Bretanha, mas muitas vezes a apóiam no exterior.

Examinando o extremismo de maneira mais geral, hoje acredita-se que até 3 mil muçulmanos nascidos na Grã-Bretanha ou que vivem no país passaram por campos de treinamento da jihad ["guerra santa"] no exterior. Um dossiê do governo que vazou recentemente situa o número de muçulmanos britânicos que realmente apóiam o terrorismo em cerca de 15 mil (mas fontes antiterroristas acreditam que o número de muçulmanos britânicos com o desejo e a capacidade de cometer atos terroristas é de no máximo 40).

A extensão da simpatia pelos objetivos de alguns extremistas pode ser avaliada com base numa pesquisa do jornal "The Guardian" de março de 2004, que revelou que 13% dos muçulmanos britânicos acreditavam que os ataques da al Qaeda aos Estados Unidos foram justificados.

Como os grupos de extrema-esquerda dos anos 60 e 70 com que muitas vezes se parecem, o Hizb ut-Tahrir (HT), os salafis e os muçulmanos da corrente dominante disputaram o controle de sociedades universitárias muçulmanas nos anos 90. O HT hoje está proscrito pela União Nacional dos Estudantes, mas isso não prejudicou sua capacidade de recrutar estudantes através de seu site na web e de suas muitas organizações de fachada.

A organização, que é proibida em muitos outros países, atraiu 10 mil pessoas para sua última grande conferência em 2003, mas provavelmente tem apenas cerca de 3 mil membros. O HT é contra a integração na Grã-Bretanha e quer a restauração do califado islâmico na maior parte do mundo possível. (O grupo dissidente do HT al-Muhajiroun, dirigido pelo exilado sírio Omar Bakri, apóia mais abertamente a al Qaeda e a luta violenta, pelo menos fora da Grã-Bretanha. Ele foi desbaratado no ano passado.)

Grupos como o HT não restringem seu recrutamento às universidades. Os extremistas também podem encontrar jovens insatisfeitos nas mesquitas, em escolas secundárias e cada vez mais nas prisões. Para nós, que os evitamos, nem sempre é fácil compreender o que atrai aqueles que aderem a grupos extremistas.

É o conforto de ouvir que o Corão tem respostas claras para todos os problemas da vida? É a libertação do controle dos pais? É a emoção de fazer parte de um movimento político heróico, que promete uma nova ordem mundial? Provavelmente é uma combinação de tudo isso e um pouco mais.

Uma das organizações mais desprezadas pelos grupos extremistas é o Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha (MCB), que busca transcender os diferentes grupos religiosos e apresentar, na medida do possível, uma única voz muçulmana --pelo menos em nível político.

A influência do MCB no governo aumentou drasticamente nos últimos anos. Seu secretário-geral eleito, Iqbal Sacranie, é sua face pública, mas o MCB --que tem mais de 400 organizações comunitárias afiliadas-- é dirigido por centenas de voluntários bem organizados que trabalham em comitês responsáveis por quase todos os aspectos da vida muçulmana britânica, da mídia à saúde mental.

A organização é na verdade um dos legados do movimento anti-Rushdie. Muitos de seus fundadores estiveram envolvidos em uma aliança de organizações de cunho semelhante que coordenou uma campanha para que os "Versos Satânicos" fossem proibidos e que o governo aprovasse leis tornando a incitação ao ódio religioso uma ofensa criminosa.

Foi uma longa campanha, mas o lobby da MCB por uma nova lei sobre ódio religioso hoje chegou ao parlamento. O projeto poderá se tornar uma vitória vã, pois se baseia em um instinto de censura que a maior parte da Grã-Bretanha liberal rejeita. Eu também temo que a constante repressão à islamofobia --uma tentativa de imitar a "arma" do anti-semitismo usada por grupos judeus-- seja demasiado eficaz e acabe colocando muitos muçulmanos na posição de vítimas, o que os tornaria mais suscetíveis ao extremismo.

A pressa do Partido Trabalhista para aprovar a legislação sobre ódio religioso foi sem dúvida uma tentativa de melhorar sua relação com os muçulmanos britânicos, que ficou tensa depois do 11 de Setembro e em particular depois do envio de tropas britânicas ao Iraque.

Pelo menos até 7 de julho, um grande número de muçulmanos descrevia o envolvimento britânico no Afeganistão e no Iraque simplesmente como uma guerra contra os muçulmanos. Enquanto isso, grupos comunitários queixavam-se repetidamente de que os muçulmanos estavam sendo abordados, revistados e detidos em número desproporcional ao dos que eram condenados.

"O islã é paz" era o nosso mantra; por isso os muçulmanos britânicos não podiam ser terroristas. Eu mesmo acreditava que as advertências da polícia, do governo e da mídia sobre terroristas internos não dariam em nada.

Mas os sinais estavam lá para quem quisesse ver. Lembro-me de que não fiquei surpreso com a pesquisa do "Guardian" que descobriu 13% de aprovação entre os muçulmanos britânicos aos atentados nos Estados Unidos. De todas as pessoas do mundo, os muçulmanos são possivelmente os mais inquietos com o poderio americano.

Em minhas viagens pela Grã-Bretanha muçulmana no início dos anos 90, era muito fácil encontrar alguém pronto para me dar uma citação a respeito da "fatwa" [condenação] de Khomeini. E na última década, como escritor científico no Oriente Médio e na África, sempre encontrei pessoas de todos os níveis de vida que diziam achar que Osama bin Laden fez bem em atacar os Estados Unidos.

Mas como podemos impedir na Grã-Bretanha que essa hostilidade banal pela potência ocidental leve ao extremismo? E como ela se relaciona ao problema maior das "vidas paralelas"? A frase é do relatório de Ted Cantle sobre os tumultos de 2001, segundo o qual alguns muçulmanos, especialmente paquistaneses, haviam se tornado menos integrados nos últimos 20 anos. (No entanto, os três homens-bombas paquistaneses tinham alguma experiência de educação superior, geralmente associada a uma boa integração.)

O modelo francês é um anátema para muitos muçulmanos britânicos, especialmente por causa da proibição do "hijab" [véu], mas um papel maior do Estado pode ser parte da resposta. Na Grã-Bretanha, dever-se-ia dar mais atenção às mesquitas, que se desenvolveram com um mínimo de supervisão. Muitas mesquitas são uma confusão, dirigidas por idosos bem-intencionados mas ineficazes. São muito comuns os choques entre facções diferentes, e a comissão beneficente tem um arquivo crescente de casos problemáticos.

Seria o caso de uma nova autoridade reguladora das mesquitas, ou algum outro tipo de órgão supervisor organizado com estreito envolvimento muçulmano, cuja tarefa será ao mesmo tempo proteger o público e ajudar as mesquitas a desempenhar melhor seu serviço.

Essa autoridade também poderia fornecer orientação sobre a questão dos imãs e o que se ensina às crianças nas aulas extracurriculares (ver abaixo). A questão dos imãs é muitas vezes reduzida erroneamente a se devemos parar de importá-los. Alguns dos imãs mais importantes da Grã-Bretanha (como Zaki Badawi) não nasceram no país. O mais importante é educação, um bom inglês e conhecimento da sociedade moderna.

Uma segunda área que precisa urgentemente de atenção é a educação religiosa islâmica -- não as escolas privadas muçulmanas, que em geral fazem um bom trabalho e já são inspecionadas pelo Departamento de Padrões na Educação. É preciso dar mais atenção às escolas baseadas nas mesquitas, conhecidas como madraças, onde muitos jovens muçulmanos britânicos passam duas horas quase todas as tardes depois da escola, aprendendo a recitar o Corão. Muitas vezes a madraça é o único lugar onde uma criança vai aprender sobre o islã de maneira formal, mas não há verificações ou padrões definidos sobre o que deve ser ensinado.

A discussão de como o Corão é ensinado às crianças nas mesquitas deve ser abordada com cuidado; é um assunto profundamente polêmico. Mas para mim essa é claramente uma das principais causas do extremismo muçulmano. O Corão é ensinado em todo o mundo muçulmano (incluindo a Grã-Bretanha) como um conjunto de verdades eternas, com pouca referência a seu contexto histórico.

Qualquer pessoa que saiba citá-lo é vista com reverência numa cultura que ainda é fortemente oral. Isso significa que quando Osama bin Laden despacha suas vítimas com versos corânicos, muitos muçulmanos têm dificuldade para condená-lo. É também por isso que grupos como o MCB até recentemente relutavam em condenar publicamente extremistas não violentos como o HT.

Mas a menos que o Corão seja lido em contexto, nem Bin Laden nem o Partido Nacionalista Britânico estão errados quando afirmam que o islã glorifica a violência. O que uma criança deveria pensar quando lê um verso que diz que os muçulmanos devem derrotar os infiéis e ao mesmo tempo lhe dizem que o Corão é a verdade literal falada ao Profeta, tão relevante hoje quanto o era 1.300 anos atrás?

O MCB está em condições ideais hoje para promover uma compreensão mais ampla do Corão entre a juventude muçulmana. Ele tem credibilidade na comunidade, e seus membros sabem o que deve ser feito. O MCB até agora resistiu a se envolver em disputas teológicas porque sabe que isso tem o potencial de quebrar o consenso sobre o qual a organização funciona. Mas os atentados em Londres significam que essa posição não é mais sustentável.

Em 1991 eu fiz parte da equipe que organizou a revista muçulmana britânica "Q News". Uma de minhas responsabilidades era editar uma seção de perguntas e respostas em que um sábio religioso muçulmano respondia às perguntas dos leitores sobre que aspectos da vida moderna eram permissíveis sob o islamismo para os muçulmanos praticantes.

A cada 15 dias eu telefonava para o falecido xeque Syed Mutwalli Darsh, um antigo imã da mesquita do Regent's Park em Londres, e percorríamos uma lista de perguntas enviadas por leitores. As respostas de Darsh eram sempre curtas e geralmente instantâneas.

Assim como a maioria de seus contemporâneos, Darsh não desejava exercer seu próprio raciocínio ou julgamento quando respondia a uma pergunta. Em vez disso, aplicava o princípio do precedente. Isso significava encontrar uma resposta nos relatos da vida do Profeta. Quando não havia, ele procurava em sua biblioteca de decisões jurídicas, algumas das quais remontavam aos séculos 7º ou 8º.

A dificuldade disso era que a maioria das perguntas era de pessoas que se esforçavam para praticar o islamismo na Europa do século 20. Muitas vezes não havia precedente para as perguntas que faziam. Uma decisão do século 8º não é muito boa para um garoto de 12 anos de Oldham que quer saber se é pecado jogar videogame durante o Ramadã.

Um leitor perguntou se os muçulmanos podiam beber Coca-Cola ou se eram verdadeiros os rumores de que essa bebida continha traços de álcool. Darsh disse que não, apesar de eu argumentar que o álcool, quando processado em uma bebida gasosa, é tecnicamente muito diferente da substância encontrada numa lata de cerveja.

Questionar as respostas de Darsh muitas vezes me causou problemas, por isso eu não o fazia com muita freqüência. Ele via nossa relação com a de um aluno (eu) e professor (ele).

Ao questionar suas respostas, eu estava violando um princípio básico do ensinamento muçulmano tradicional, o de que nunca se deve questionar a sabedoria de uma pessoa mais culta. Esse é um estilo de aprendizado que deixou um profundo legado em todo o mundo muçulmano e pode ser encontrado em todo tipo de academia, desde escolas até centros avançados de ensino e pesquisa.

Quinze anos depois de meus encontros com Darsh, as sessões de perguntas e respostas com religiosos muçulmanos passaram para a televisão, onde são populares em canais muçulmanos do mundo todo. O rei das perguntas e respostas islâmicas é o egípcio Yusuf al-Qaradawi, cuja visita à Grã-Bretanha em julho de 2004 provocou polêmica em torno de suas opiniões sobre os homens-bombas.

O livro de certos e errados de al-Qaradawi, "The Lawful and the Prohibited in Islam" [O legal e o proibido no islamismo], é um enorme campeão de vendas e ele tem um lugar de "fatwa ao vivo" no site da web islamonline.net, assim como na TV al-Jazeera.

Mas a mudança está chegando. E parte dela está sendo gerada na Grã-Bretanha. O Canal 4 transmitiu duas temporadas do programa de fim de noite "Shari'ah TV", em que um grupo de especialistas responde a perguntas de uma platéia de jovens muçulmanos.

Ao contrário das seções convencionais de perguntas e respostas dos programas muçulmanos, o Canal 4 incentiva os que fazem perguntas a debater com os especialistas, em vez de aceitar suas respostas sem discussão --algo que claramente perturba os especialistas.

Revisar aspectos da lei Sharia para acompanhar os tempos modernos é uma coisa --reconsiderar os significados do Corão/Hadith e o papel da autoridade no islã é outra muito diferente. Mas aqui também há esperança. Sobretudo três pessoas --o filósofo suíço-egípcio Tariq Ramadan, o escritor e crítico britânico-paquistanês Ziauddin Sardar, e o filósofo da ciência iraniano Abdolkarim Soroush -- estão liderando um novo pensamento entre os muçulmanos britânicos.

Dos três, Ramadan tem a maior influência na Grã-Bretanha. Isso ocorre em parte porque ele é a coisa mais próxima que os revivescentes muçulmanos têm da realeza --é neto de Hassan al-Banna, fundador da Irmandade Muçulmana. E isso lhe dá um enorme prestígio, porque ele não é considerado um estranho tentando impor valores alienígenas aos muçulmanos: é alguém de dentro que está convencido de que o islã precisa mudar a partir de dentro.

Soroush vem do xiismo, que historicamente foi mais receptivo às reformas do que muitas escolas de pensamento sunitas. Isso em parte porque os xiitas britânicos -- cerca de um quarto dos muçulmanos do país -- são menos perturbados por dilemas teológicos: há uma tradição de seus religiosos tentarem se envolver (nem sempre com sucesso) com o mundo moderno.

Sardar tem mais influência fora da Grã-Bretanha. Ele é amplamente lido em países onde os muçulmanos vivem junto de pessoas de outras religiões, como o sudeste da Ásia e a África, assim como a Turquia e a Europa. Em comparação, ele teve menos influência no Paquistão e nos países de língua árabe.

Como ponto de partida, os três acreditam que muitos aspectos da lei Sharia não fazem mais sentido, especialmente aqueles que deixam de proteger os direitos humanos e os direitos das crianças e de minorias. E os três afirmam de maneiras diferentes que o Corão deve ser lido em seu contexto histórico.
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Isso significa que nem todas as palavras do livro serão relevantes para os muçulmanos de hoje. Isso pode não parecer muito para um liberal ocidental --de fato, Ramadan, Sardar e Soroush continuam sendo crentes--, mas para a maioria dos muçulmanos é uma posição extraordinariamente radical e vai contra o consenso literalista. Poucas de suas idéias poderiam ter sido articuladas em um país muçulmano -- na verdade, não é de surpreender que os três vivam e trabalhem em países ocidentais (Soroush teve de fugir do Irã).

Até muito recentemente, eu não tinha certeza se Ramadan, Sardar e Soroush poderiam influenciar a corrente dominante muçulmana na Grã-Bretanha, para a qual todo o conhecimento está contido nas páginas do Corão. Mas hoje alguma coisa parece estar mudando.

Oito dias depois dos atentados em Londres, fui convidado para falar em uma reunião de muçulmanos organizada pelo City Circle, um grupo de profissionais baseados na City. Ao meu lado na mesa estava Abu Muntasir, um dos fundadores do salafismo britânico, que conheci quando ele era um líder estudantil muçulmano na Politécnica de Kingston em 1984.

Com a voz trêmula, Abu Muntasir leu uma longa lista de antigos preceitos sobre como o islã significa paz e justiça, e como os atentados eram uma aberração dos verdadeiros ensinamentos da fé. Eu não achei que fosse suficiente. Virando-me para Abu Muntasir, disse que ele fazia parte do problema, e que a al Qaeda poderia com a mesma facilidade encontrar dez citações de antigos textos muçulmanos para defender a validade da guerra.

Então veio o choque: falando para a platéia, Abu Muntasir disse que concordava e acreditava que nos últimos 20 anos ele havia seguido o caminho errado. Quando a reunião se aproximava do fim, Abu Muntasir chorou pela memória dos que haviam morrido.

Abu Muntasir não é o único radical que está repensando. Pouco depois do 11 de Setembro, Ghayasuddin Siddqui, um fundador do parlamento muçulmano e um leal braço-direito de Kalim Siddiqi durante 30 anos, fez algo semelhante: rejeitou completamente a ideologia de seu mentor, e hoje é uma das vozes mais fortes em oposição à lei de incitamento ao ódio religioso.

Os reformistas devem se preparar para uma posição concertada de uma aliança que incluirá os barelwis, deobandis, alguns wahabitas com suas verbas sauditas e seitas extremistas como o HT. Eles vão afirmar, como sempre fizeram, que essa é mais uma maldita tentativa de modificar o islã para satisfazer o Ocidente.

Dirão que o Corão foi revelado à humanidade como um testamento final, superando os livros do cristianismo e do judaísmo. E vão afirmar que qualquer compromisso com a verdade absoluta do Corão levará ao despenhadeiro da descrença em que tantos cristãos caíram.

A história certamente está do lado dos opositores da reforma. Os reformistas até agora falharam em alcançar as massas islâmicas, seja no 2º século do islã ou no século 19 e início do 20. No máximo eles permaneceram uma voz elitista e minoritária. Mas existe uma diferença crítica entre então e hoje.

Em todas as tentativas anteriores de reformar o islã, os países ocidentais não tinham motivos para se envolver. Isso mudou. Os países europeus em particular hoje abrigam milhões de muçulmanos, e os países ocidentais estão envolvidos em um amplo processo de reformas políticas nos países árabes e muçulmanos.

A presença de pessoas como Sardar, Soroush e Ramadan nos países ocidentais significa que eles podem atrair um público global. Ramadan, em particular, aprendeu a utilizar o poder das comunicações modernas para atingir milhões de pessoas.

A chegada de homens-bombas muçulmanos britânicos teria consternado a geração de Yusuf Ali e Pickthall. Mas talvez eles também tivessem se animado com os primeiros sinais de que, à sombra desses atentados, o islã britânico e europeu pode finalmente estar começando a abrir suas asas.

*Ehsan Masood é diretor de projetos do Gateway Trust. O islã britânico é dominado por asiáticos do sul, cultural e teologicamente conservadores. Mas os atentados em Londres poderão ajudar a torná-lo mais aberto para os que querem se integrar ao mundo moderno

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