Imagens dos crimes cometidos por negros após o furacão Katrina incentivam racismo

Carol M Swain*
Especial para a Prospect

O furacão Katrina teve por efeito de colocar em primeiro plano na opinião internacional, ainda que de forma temporária, os problemas raciais da América. A reação lenta do governo ao desastre e a conduta de algumas das comunidades afetadas foram vistas como emblemáticas das relações raciais na América, as quais são consideradas por muitos como uma catástrofe: de modo sistemático, os negros são marginalizados e deixados para trás.

Diante disso, alguns deles reagem adotando um comportamento que não tem lugar num país civilizado, e apenas uma enxurrada de dinheiro por parte do governo federal, aliada a um sentimento de culpa em nível nacional, poderá sanar o problema.

Mas este simbolismo revela-se essencialmente enganador ou equivocado.

Ao contrário da impressão transmitida pelas imagens de saqueadores negros em ação e do estado de imundice que tomou conta do Superdome (o principal estádio coberto de Nova Orleans onde parte da população se refugiou), a vasta maioria dos negros norte-americanos é constituída por membros da classe operária, da classe média ou, cada vez mais, média alta, todos os quais são defensores do respeito das leis.

E ao contrário da angústia que tomou conta de parte da sociedade em relação a essas questões, a qual as considera como insolúveis, a solução para os problemas raciais remanescentes da América encontra-se ao menos tanto na diminuição do número de comunidades negras problemáticas quanto nas ações do governo.

Além de tudo, este país continua a proporcionar algo que o tornou uma referência para o mundo --oportunidades para as pessoas superarem as desvantagens do seu nascimento.

Acredite em mim, eu estive lá.

Eu nasci na região rural do Estado da Virginia numa família abusiva e empobrecida de doze crianças. Nenhum dos meus irmãos ou irmãs --sete meninos e quatro meninas-- se formou na universidade. Embora eu também tivesse abandonado a escola aos 14 anos, após ter completado a oitava série, consegui, contudo, concluir meus estudos do segundo grau e obtive cinco diplomas de faculdade numa série de instituições, começando num estabelecimento da comunidade local e terminando na universidade Ivy League.

Sou uma mãe divorciada e próspera de dois filhos. Inicialmente andei trabalhando como enfermeira-assistente numa casa de saúde. Fui uma operária não-qualificada numa fábrica de vestuário e atuei como vendedora de porta em porta. Hoje sou uma professora universitária.

E que ninguém venha me dizer que a América não oferece oportunidades às pessoas de superar a pobreza.

Mas o inevitável corolário ao ultraje que representaram as deficiências do governo frente às devastações causadas pelo Katrina tem sido o frenesi e a demagogia que, ainda que elas tivessem permitido enfatizar as esperanças dos negros em contraste com a política do governo, servirão apenas para aprofundar mais ainda os problemas raciais do país. Isso porque, socialmente e economicamente, os negros americanos de Nova Orleans não são representativos dos negros do resto do país.

Se o Katrina se tornar uma desculpa para perpetuar o ciclo da dependência em relação ao Estado de bem-estar social, da corrupção e da irresponsabilidade social que fizeram há muito de Nova Orleans uma mensageira e um símbolo para tudo o que está errado com os guetos da América, uma enorme tragédia terá ocorrido em vão.

A imensa maioria dos afro-americanos conseguiu evitar com sucesso as patologias mais sérias causadas pelos guetos. Até mesmo entre aqueles que podem ser considerados como "pobres do gueto" --isto é, os negros pobres que vivem em áreas urbanas onde a maior parte dos seus vizinhos também é pobre--, existe um grande número de pessoas respeitosas da lei que levam uma vida honesta e direita. Em geral, essas pessoas são as mais religiosas e as que mais freqüentam igrejas, sendo que muitas delas são mulheres que foram abandonadas ou ainda abusadas pelo seu homem, e que estão batalhando sozinhas como arrimos de família.

Mas a maioria dos afro-americanos não é pobre.

De fato, a maior parte das famílias negras vive com uma renda anual muito acima do limite de pobreza definido em 2004 e que se situa em US$ 19.300 (R$ 43.295,69) para uma família de quatro. Em termos absolutos, existem mais brancos pobres do que negros pobres no país. Embora um terço dos negros que constituem 67% da população de Nova Orleans estivessem vivendo abaixo do limite de pobreza, a maioria dos negros americanos ganha mais de US$ 25.000 (R$ 56.082,50) por ano.

Em 2002, 27% dos negros ganharam mais de US$ 50.000 (R$ 112.165) por ano, enquanto em 1980, apenas 16,8% tinham uma renda equivalente. A porcentagem de negros que ganham acima de US$ 100.000 por ano (R$ 224.330) aumentou, passando de 1,5% em 1980 para 6,4% em 2002, após ter alcançado um pico de quase 7% em 2000.

Em 2002, a renda média de uma família negra da classe média era de US$ 29.036 (R$ 65.136,45), bem abaixo da renda média de uma família branca, de US$ 45.086 (R$ 101.141,42). Mas, em 2003 e em 2004, os brancos não-hispânicos eram o único grupo racial a se caracterizar por um crescimento de sua taxa de pobreza.

Parte do aumento da pobreza entre os brancos (e os negros) pode ser atribuída à presença de milhões de residentes ilegais no país que arrastam para baixo as remunerações dos trabalhadores, incentivam a instauração de baixos salários e de empregos de baixa competência, e deslocam ao mesmo tempo os trabalhadores nativos para empregos tradicionalmente exercidos por pessoas com níveis reduzidos de educação.

No passado, a competição com trabalhadores imigrantes permanecia confinada a alguns poucos Estados-chave tais como Califórnia, Nova York, Illinois e Texas. Agora, ela se espalhou por lugares tais como Geórgia, Carolina do Norte, Virgínia e Tennessee.

Os negros têm uma probabilidade muito maior de sofrer com o desemprego do que trabalhadores de outros grupos raciais e étnicos. E embora os níveis educacionais para os negros e os hispânicos tivessem sido aprimorados ao longo das últimas décadas, ambos os grupos ficam longe atrás dos brancos em termos de porcentagens de obtenção de diplomas universitários e de prosseguimento dos estudos com cursos de pós-graduação.

Em 2003, 89% dos brancos, 80% dos negros e 57% dos hispânicos tinham concluído o ensino médio. Esses números podem ser comparados com os de 1993, quando as porcentagens eram, respectivamente, de 84% para os brancos, 70% para os negros e 53% para os hispânicos.

Também em 2003, cerca de 50% dos asiáticos, 30% dos brancos, 17% dos negros e 11% dos hispânicos tinham diplomas universitários. Em meio à população negra, as mulheres tiveram um desempenho melhor, no nível significativo, do que os homens.

Outros indicadores de bem-estar para os negros incluem os percentuais de proprietários de casa própria, que têm aumentado desde 1996 para todos os grupos. Em 1996, 44% dos negros e 71,7% dos brancos não-hispânicos eram donos do seu próprio imóvel. Em 2004, os percentuais eram de 49% para os negros e 76% para os brancos, enquanto os hispânicos subiram para 48% e os asiáticos para 49%.

Um dos avanços os mais visíveis para os negros veio da arena política, na qual o número de oficiais negros eleitos tem aumentado sensivelmente, mesmo se, enquanto isso, comunidades urbanas negras tais como a do Estado da Louisiana seguem atoladas na pobreza e na desesperança.

Infelizmente, a presença de centenas de prefeitos e deputados estaduais negros, e da maior delegação de negros já vista no Congresso tem feito muito pouco para mudar o status sócio-econômico dos mais pobres.

Quaisquer que sejam os benefícios que resultaram deste poder político crescente, eles se repercutiram de maneira desproporcional sobre as classes média e média/alta negras. Os cidadãos comuns negros da América, que na sua maior parte são encontrados no Sul, ganharam pouco com a campanha em prol da "Ação afirmativa" ("Affirmative action", nome dado ao conjunto das iniciativas e das políticas públicas que visam a contribuir para a eliminação de toda e qualquer discriminação passada ou presente baseada em raça, cor, religião, sexo ou origem) desenvolvida em Harvard, ou ainda com a presença de oficiais negros tais como Condoleezza Rice e Colin Powell nos corredores do poder.

A má notícia para a América negra é a persistência da pobreza e dos sofrimentos de um segmento particular desta categoria da população. Altos índices de crimes violentos, de consumo abusivo de drogas, de mães solteiras, de crianças ilegítimas, de mortalidade infantil, de dependência da ajuda do governo e de doenças infecciosas continuam a diferenciar algumas comunidades negras, inclusive grande parte daquela de Nova Orleans, dos outros americanos --negros e brancos.

Os governos federal, estaduais e locais tentaram enfrentar essas condições, com resultados mitigados. O problema mais grave é o nível elevado de atividade criminosa. Os homicídios são a causa principal de mortes entre os homens negros com idade de 15 a 24 anos, o mesmo grupo demográfico que é o mais duramente atingido pelo desemprego. Os homens negros, que representam 6% da população total, são suspeitos na proporção de 40% de cometerem homicídios. Além disso, os negros acumulam as mais altas taxas de crimes violentos, tanto na condição de vítimas quanto na de autores desses crimes.

O fato de a situação ter degenerado tão rapidamente em partes de Nova Orleans pode também ser um sinal da pobreza espiritual de uma pequena parcela de cidadãos dentro da comunidade negra.

A violência foi particularmente desalentadora para mim porque acredito que quando uma pessoa negra comete algum ato infame, é a comunidade como um todo que sofre do estigma decorrente daquele crime. Em minha opinião, esses eventos sublinham uma necessidade que a população tem de ser guiada por alguns princípios morais e éticos tais como os que podem ser encontrados nos dez mandamentos da Bíblia hebraica/cristã.

O pior cenário que poderia acontecer agora, neste período pós-Katrina, é o de um possível aumento dramático das tensões raciais à medida que a multidão dos "refugiados americanos" for desovada em cidades já congestionadas para competir com milhões de residentes ilegais que já se encontram ali.

Infelizmente, a resposta das lideranças negras a esta situação combina as acusações previsíveis de racismo por parte dos brancos com uma cautela excessiva visando a evitar toda condenação séria dos infratores.

Mas não foi o racismo dos brancos que provocou o desastre em Nova Orleans, e sim a pobreza, a inépcia das lideranças políticas, a indiferença por parte dos intermediários do poder em Washington e o comportamento irresponsável de muitos indivíduos, os quais foram combinados entre si para criar uma situação que é um verdadeiro pesadelo.

O que mais me preocupa é o dano duradouro provocado pela imagens veiculadas pela mídia mostrando saqueadores, atiradores e estupradores negros. Essas imagens vêm alimentar diretamente as invectivas dos nacionalistas brancos que acreditam que tais comportamentos são "genéticos".

Enquanto muitos líderes americanos, negros e brancos, têm abdicado das responsabilidades que lhes são atribuídas pela sua posição de liderança em relação às questões raciais, líderes nacionalistas brancos tais como Jared Taylor se apoderaram da linguagem da pluralidade cultural e da defesa dos direitos civis para convencer os cidadãos americanos brancos comuns de que eles precisam se organizar no sentido de se proteger da minoria criminosa e da "Ação afirmativa".

Assim como eu cheguei a alertar inicialmente os leitores do livro que eu publiquei em 2002, que tem por título "O Novo Nacionalismo Branco na América", acredito que a América está se movendo em direção a níveis sem precedentes de conflitos e distúrbios raciais, que vêm sendo atiçados pelo afluxo continuado de imigrantes não-brancos nos Estados Unidos, pelo iminente status de minoria que pesa sobre os americanos brancos, pela diminuição drástica da quantidade de empregos bem remunerados e dos postos que requerem uma baixa qualificação, pelo ressentimento dos brancos em relação às preferências raciais, e o temor generalizado em relação à minoria criminosa. Além disso, tudo isso vem sendo exacerbado por um governo que favorece os ricos.

Hoje, bem no momento em que o país despertou para os efeitos desmoralizantes e criadores de guetos das preferências raciais que determinam a admissão em empregos e a atribuição de vagas na universidade, e dos danos causados pela influência étnica ilegal exercida pela organização das circunscrições eleitorais, as quais determinam as eleições dos representantes no Congresso, já se foi o tempo em que os líderes negros exploravam os argumentos que valorizam sua posição de vítimas, o fatalismo e a dependência, um discurso que acaba cultivando a maldição que pesa sobre os negros nas cidades do interior do país.

Isso porque o mundo está acompanhando tudo de perto. Meses atrás, fui convidada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos a dar uma série de palestras no sudeste da Ásia: em Burma, na Malásia, nas Filipinas e no Vietnã.

Fiquei estarrecida com as concepções dramaticamente equivocadas que as pessoas desses países têm a respeito da América, e em particular da América negra. Hoje, só posso imaginar a reação dessas pessoas ao assistirem à televisão no mês passado, quando elas viram cada um dos estereótipos negativos ser reforçado.

*Carol M Swain é professora de direito e de ciência política na Universidade Vanderbilt. A América negra vai bem melhor do que sugerem as conseqüências do desastre em Nova Orleans. Mas os problemas podem estar apenas começando Jean-Yves de Neufville

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