Pensando globalmente

David Herman*
Especial para a Prospect

As listas muitas vezes dizem mais sobre as pessoas que as elaboram do que sobre o mundo real. Se essa lista (http://www.prospect-magazine.co.uk/intellectuals) tivesse sido feita pela seção feminina do jornal "The Guardian", conteria muito mais mulheres. A "London Review of Books" teria olhado com mais carinho para as brasas fumegantes da revolução teórica e da nova esquerda. "Le Monde" teria incluído mais pensadores franceses, e assim por diante.

Essa lista é em parte uma reflexão sobre as preocupações do centro anglo-americano em um determinado momento. Alguns poderão dizer que os organizadores se esforçaram para incluir pensadores não-ocidentais.

Afinal, uma lista baseada em medições mais "objetivas" de realização intelectual --prêmios Nobel, citações acadêmicas, etc.-- teria uma inclinação ainda mais acentuada para o Ocidente.

Haveria tantos africanos e árabes dez anos atrás? Isso é uma conseqüência do 11 de Setembro? É consciência pesada ou simplesmente má intenção? Ou é uma tentativa honesta de fazer justiça a idéias que são sub-representadas pela mídia ocidental, concentrada no mundo anglófono? (Entre os indicados do Ocidente, o Japão e a Europa ocidental/Rússia estão estranhamente sub-representados.)

Seja qual for o viés dos organizadores, a lista tem coisas reveladoras a dizer sobre a situação atual de nossa cultura intelectual. Primeiro, o papel excessivo da mídia na promoção de certos nomes e na definição da agenda cultural. Alguns dirão que Fukuyama e Baudrillard, Paglia e Greer devem demais ao entusiasmo da mídia. Eles são conhecidos porque são conhecidos.

Um grande número de nomes vem dos EUA e da Grã-Bretanha. Quase um terço deles são cidadãos americanos; um em cada sete é britânico. Mas a verdadeira história não tem a ver com nacionalidade: quase a metade dessas pessoas vive nos EUA.

Onde quer que se olhe na cultura intelectual --de DNA e IA aos novos romances de Rushdie e Zadie Smith, da teoria literária à economia--, é na América que as coisas acontecem.

Na Grã-Bretanha, a maioria dos nomes vem de Oxbridge e Londres. Nos EUA, do nordeste, de Washington DC a Harvard e MIT. A Europa tornou-se a prima pobre intelectual dos EUA. Não apenas há relativamente poucos nomes europeus, como sua qualidade é dúbia. Um número excessivo de nomes repousa sobre antigos louros, ou são idiossincráticos (Negri? Sloterdijk? Zizek?).

O quase completo desaparecimento de Paris como centro global de idéias é o mais surpreendente. Durante mais de 30 anos, de Sartre e Beauvoir a Barthes e Foucault, Paris foi uma das capitais intelectuais do mundo. Essa era terminou. Os grandes nomes morreram, as grandes idéias estão fora de moda. Paris tem apenas um punhado de representantes.

Ainda mais impressionante é como a lista é masculina (contém apenas dez mulheres). Tão preocupantes quanto as omissões são os nomes das mulheres que entraram na lista: Klein, Scarry, Kristeva (certamente uma figura do passado distante?).

Isso reflete em parte a predominância do mundo masculino dos estudos estratégicos e institutos de políticas. Mas onde está a nova geração para substituir Juliet Mitchell, Jane Jacobs e Nadine Gordimer?

Também estão sub-representadas as ciências, especialmente as ciências médicas. Isso também pode dizer mais sobre os compiladores do que sobre os compilados. Demasiados nomes pertencem ao debate político e econômico; e muito poucos aos laboratórios e institutos de pesquisa. Os grandes avanços nas ciências cognitivas, na biologia molecular e na cosmologia foram refletidos com justiça?

A outra grande história por trás dessa lista é o declínio da esquerda. Nenhuma lista no século 20 teria apresentado tão poucos socialistas e comunistas. Trinta anos atrás essa lista seria drasticamente diferente, independentemente de quem a tivesse compilado. Não apenas ela inclui poucos nomes da esquerda tradicional, como muitos dos citados têm bem mais de 70 anos: Hobsbawm, Habermas, Chomsky.

Da mesma maneira, há poucos nomes da direita, antiga ou nova. Os velhos rótulos não servem mais. Como definiríamos Eco, Hitchens ou Ignatieff?

Batalhas sobre Kosovo, Afeganistão ou Iraque, as duradouras repercussões de 1989/1991 e a derrota dos sindicatos e da esquerda sobre a estratégia econômica em todo o Ocidente abalaram não apenas a esquerda, mas toda a paisagem ideológica.

Marx não é o único grande perdedor aqui. Freud também foi derrotado. Não somente Freud, mas todo o espectro da psicologia, psicanálise e psiquiatria. Trinta anos atrás, essa lista teria incluído Laing e Szasz, Anna Freud, Lacan e Lionel Trilling. Agora Howard Gardner e Daniel Kahneman são os dois únicos psicólogos. O que aconteceu? Talvez eles tenham sido substituídos pelos ciber-filósofos, dos quais há pelo menos três.

Com a saída de Freud e Marx, o que restou da revolução teórica? Fora da academia, virtualmente nada. Brochuras envelhecidas cheias de longas palavras incompreensíveis. Nada de Homi Bhabha ou Gayatri Spivak, nem Hartman, Bloom ou Fish. Baudrillard, Eco, Gates, Paglia e Slavoj Zizek são os últimos atores, e que estranho elenco eles formam.

A filosofia também foi arrasada. Dennett, Habermas, Nussbaum, Rorty, Singer e Walzer. Quatro do nordeste americano. Mais uma vez, essa lista seria inconcebível em quase qualquer momento do século 20.

A lista sugere uma transformação na noção de intelectual público. Durante quase um século, de Zola e Freud a Chomsky e Said, o intelectual público escreveu prolificamente, defendeu causas impopulares e esteve com freqüência ligado à esquerda revolucionária.

Em suas Conferências Reith em 1993, o falecido Edward Said falou sobre "As representações do intelectual". Seu panteão incluía todos os grandes nomes: Gramsci e Benjamin, Russell e Sartre. De maneira interessante, ele não mencionou ninguém nascido depois de 1935 (exceto numa nota de rodapé citando Christopher Hitchens).

Said percebeu que a grande tradição do intelectual de oposição estava chegando --ou tinha chegado?-- ao fim. Ele era o último sobrevivente. Essa lista sugere que Said tinha razão?

[Nota: pode-se votar em até cinco candidatos dessa lista. O único brasileiro é Fernando Henrique Cardoso.]

*David Herman é escritor e produtor de televisão. Lista da "Foreign Policy" com cem principais intelectuais do mundo é dominada pelo Ocidente e sobretudo pelos EUA. Há 30 anos, a Europa ainda estaria na competição. Marxistas e freudianos teriam muito mais visibilidade. Essa lista poderia marcar realmente o fim da era do grande intelectual público? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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