Os horrores do autor francês Michel Houellebecq

Tim King

Daniel é um comediante-solista de sucesso, personagem principal e narrador do quarto romance de Michel Houellebecq, "La Possibilité d'une île". As piadas que ele faz são como a seguinte.

Pergunta: "Como você chama aquela gordura ao redor da vagina?"

Resposta: "Mulher."

Humor ofensivo? Engraçado? Ambos? Mas antes que cheguemos a conclusões sobre baixarias sexistas, tanto o escritor como o próprio personagem comediante se defendem: "O mais estranho é que eu consegui dizer coisas assim, ao mesmo tempo em que recebia boas críticas em revistas como Elle e Tlrama (semanário cultural pseudo-intelectual)." Assim ele admite que a piada é de mau gosto, ao mesmo tempo em que ataca seus críticos.

Muitos na França, especialmente os críticos, alegam que Houellebecq é um mau escritor, enquanto outros, evocando até Balzac e Schopenhauer, dizem que ele é capaz de entender os que têm menos de 30 anos (Houellebecq completará 50 no ano que vem).

Todos concordam que Houellebecq é um fenômeno: entre os 663 romances lançados na França no período entre o começo de setembro e o final de outubro de 2005, o novo Houellebecq será o mais lido e comentado, o que o coloca numa posição de favorito para a conquista do prêmio Goncourt, em novembro.

É esse aspecto do escritor-enquanto-estrela que Denis Demonpion captou em Houellebecq Non Autoris: Enquete sur un Phenomene ("O Houellebecq Não-Autorizado: Investigação sobre um Fenômeno").

Demonpion é um jornalista investigativo no Le Point. Houellebecq propôs colaboração no livro, mas Demonpion declinou - acertadamente, já que ele descobriu que Houellebecq fantasia detalhes de sua vida pessoal com a mesma tranqüilidade com que ele introduz pessoas da vida real em sua ficção. Essa característica começa a partir do próprio nome dele- na verdade é Michel Thomas- e da própria data de nascimento, que aconteceu dois anos antes da que ele declara repetidamente, até mesmo diante da justiça.

Houellebecq já afirmou que a mãe o abandonou quando bebê, alimentando um mito de rejeição. Mas Demonpion descobre que eles se viram regularmente, apesar da pouca freqüência, até que, aos 37 anos, ele enviou à mãe um ultimato: "Enquanto mãe você tem sido abjeta e, já que tem tempo de se corrigir antes de morrer, trate de me enviar dinheiro o bastante para que eu viva uns três anos. Se vier sem um cheque, sua carta irá diretamente para o lixo."

Ele rompeu com o pai quando este lhe criticou por causa dos insultos aos avós paternos em seu romance Atomised, onde o autor divulgou mentiras sobre eles, usando nomes verdadeiros - os mesmos avós que o criaram, com grande dedicação e amor.

Demonpion revela que, após estudar agricultura, Houellebecq fez dois anos de escola de cinema. Formado em 1981, Michel Thomas nunca chegou a trabalhar na indústria cinematográfica. Mas após 18 meses sem trabalho, ele virou técnico em consertos de computadores, trabalhando seis meses no ministério da agricultura e, a partir de 1991, durante cinco anos na assembléia nacional francesa.

Mesmo sendo incansável na tarefa de rastrear todas as pessoas que conheceram Michel Thomas (poucos deles fizeram a conexão entre Thomas e Houellebecq), Demonpion não revela a identidade da primeira mulher do escritor, dizendo apenas que ela é descendente da nobreza européia e que tinha 22 anos quando casou com Michel Thomas, que era dois anos mais velho. Um ano depois, nascia o filho deles - e se no início era um pai coruja, Houellebecq atualmente parece não ter mais relações com ele.

Demonpion não conta nada sobre o subsequente fracasso do casamento, e é igualmente discreto quanto aos hábitos etílicos de Houellebecq --embora isso seja mencionado. Em 1991, Houellebecq foi morar com outra mulher, "Marie-Pierre", que trabalhava no ramo editorial e com quem se casou mais tarde, e a apresentou aos mundo dos clubes de swing e sexo grupal, onde ele agora é uma figura notória.

Os primeiros poemas de Houellebecq foram publicados numa revista em 1988. Em 1991 ele lançou um ensaio sobre HP Lovecraft (1890-1937), escritor americano de histórias de horror e ficção científica, além de admirador de Hitler.

"Foi escrevendo esse artigo", Houellebecq disse depois, "que eu descobri o racismo". Os dois escritores tem outras coisas em comum: Lovecraft tinha um "desprezo pela vida e um ódio pela humanidade"; e também estava convencido de que o ser humano foi criado por extraterrestres- uma idéia que Houellebecq explora em seu novo romance.

Em 1994, Houellebecq publicou seu primeiro e possivelmente melhor romance: Extension du Domaine de la Lutte (traduzido no Brasil como "Extensão do Domínio da Luta"). Quatro anos depois, seu segundo romance, conhecido em inglês como Atomised, o projetou definitivamente, primeiro na França - onde ele foi saudado como o melhor romancista francês vivo - e depois no resto do mundo, onde foi aclamado como o único romancista francês vivo.

No mínimo pode se dizer que ele revitalizou a ficção francesa. Da condição de arte escrita pelos sofisticados e lida por poucas pessoas, a literatura francesa foi subitamente lançada no mundo da mídia, do marketing e do dinheiro. Apresentadores de programas de debates na televisão passaram a discuti práticas como fellatio e cunnilingus com o pálido, suarento e monossilábico Houellebecq, que ainda se parece mais com o nerd eletrônico que foi durante 11 anos do que propriamente com um aventureiro sexual.

Em 2001 veio Plateform (publicado em inglês como "Platform" em 2002, e lançado depois no Brasil como "Plataforma"), propalando as virtudes do turismo sexual na Tailândia como um caminho para acabar com a pobreza do terceiro mundo. No romance, extremistas muçulmanos, furiosos com esse sinal ostensivo do imperialismo ocidental, explodem um dos hotéis especializados em comércio sexual.

Houellebecq agitou a campanha de lançamento desse livro ao fazer comentários ofensivos na mídia a respeito do Islã - e em duas semanas o livro vendeu inéditas 200 mil cópias na França. Seus editores, embora tivessem se aproveitado do escândalo, se sentiram obrigados a pedir desculpas pelos comentários dele - foram, de boné na mão, a uma mesquita em Paris...na manhã do 11 de Setembro.

Ao saírem da mesquita, viram pela tevê, como se fosse um filme dirigido por Houellebecq, as imagens da destruição das torres gêmeas. Um ano depois, fundamentalistas islâmicos bombardearam casas noturnas em Bali, matando 202 hedonistas ocidentais, construindo para Houellebecq a reputação de profeta.

E agora chega o quarto romance, com o título em inglês de The Possibility of an Island (em português, literalmente, "A Possibilidade de uma Ilha"), a ser lançado na Grã- Bretanha em novembro. Novamente, na França há um absurdo falatório precedendo o lançamento - foi divulgado que ele recebeu 1,3 milhão de euros (cerca de R$ 3,8 milhões) como adiantamento por parte de um novo editor, que se recusou a enviar cópias para críticos de mais de meia dúzia de publicações selecionadas - o jornal Le Monde foi excluído, e a revista Prospect contemplada.

Uma trama de marketing, você poderia pensar, concebida para vender um livro medíocre, embora esse romance seja na verdade melhor que os dois anteriores e muito engraçado em determinadas passagens.

Há duas narrativas dentro do romance. A primeira envolve Daniel, o provocante comediante-solista citado lá em cima. Como Houellebecq, ele é um cínico. Como Houellebecq, ele se transformou num multimilionário às custas de muita polêmica.

Daniel abandona sua primeira mulher assim que ela engravida, e depois vai viver com Isabelle, editora de Lolita, aparentemente uma revista para pré-adolescentes, mas que na verdade é lida por mulheres da faixa dos trinta anos aterrorizadas pela perspectiva do envelhecimento. Diversão e sexo também se tornam o objetivo de Daniel, e o pavor de ficar mais velho é o tema central do romance.

A segunda narrativa em The Possibility of an Island, entremeada com a primeira, acontece daqui a mil anos - Daniel 24, um neo-humano, está no futuro, analisando a primeira narrativa, e as memórias de seu ancestral, o humano Daniel 1. Neo-humanos, clonados, vivem em moradias especiais, numa terra devastada por ataques nucleares e mudanças climáticas.

De volta ao presente, Isabelle, aos 40 anos, está mostrando sinais de que está ficando meio passada. Como prova de amor, Daniel1 se casa com ela, mas tarde demais. Ela é substituída por uma atriz de 22 anos. Agora aos 47 anos, o cínico, exaurido e muito rico Daniel 1 finalmente descobre os verdadeiros prazeres do sexo e, através deles, uma felicidade intensa.

Já os neo-humanos como Daniel 24, e depois o Daniel 25, perderam todo o seu desejo sexual. Eles discutem a enlouquecida condição humana com desapego e sem humor, com um desprezo reforçado pela visão dos poucos remanescentes da espécie humana, na verdade selvagens que se agitam por detrás das barreiras que protegem a Cidade Central.

Nesse ponto do romance, Daniel 1 tem seu primeiro encontro com os Elohimitas- uma seita semelhante aos Raelianos. Os Elohimitas aproveitam o sexo livre e compartilhado, sem culpas, numa sociedade reclusa como as que Houellebecq descreveu em dois de seus romances anteriores, o acampamento hedonista de Atomised e os hotéis do circuito turístico asiático em Platform.

Para os Elohimitas, o sexo está já dissociado de suas conseqüências atuais, porque a reprodução é obtida através da clonagem. Isso não ajuda muito o descrente Daniel. Reconhecendo-se ridículo, e incapaz de controlar sua própria obsessão pela jovem atriz, que passa a traí-lo com homens que têm a metade da idade dele, Daniel se mata - não sem antes fornecer seu DNA para os Elohimitas.

Houellebecq é o autor mais conhecido da França, mas qual é o real valor dele? Seu último livro é uma sátira, gênero que não está entre as melhores tradições na literatura francesa. Alguns o acusam de não ter nada profundo para dizer. E o fato de seus livros serem exaltados em outros países como um ponto alto da ficção na França parece irritar alguns críticos franceses. Quase todos eles debocham do estilo dele, ou da falta de estilo, como disse um crítico do jornal Figaro a respeito de Plateforme: "Os livros de Houellebecq são escritos como os memorandos de empresas de porte médio - talvez seja por isso que todo mundo os lê".

Ou talvez o crítico não tenha lido o título Plataforma como se fosse Plataforma -Estilo Simples. Na França, "la littrature" é algo de muito elevado, misterioso. Acima de tudo, o Francês escrito não deve guardar semelhanças com a linguagem falada: "A Literatura não tem nada a ver com facilidade e disponibilidade. Ela exige um esforço", escreve Eric Naulleau em seu livro mais recente Au Secours! Houellebecq revient! ("Socorro! Houellebecq voltou!"), atacando Houellebecq. "Para justificar o sofrível Francês... utilizado por alguns de nossos mais notáveis escritores, começando por Houellebecq, autores como Cline apelam para introduzir a linguagem falada na literatura..."

A simplicidade das estruturas frasais de Houellebecq pelo menos servem de fonte para traduções fluidas, e essa pode ser uma razão para o fato de ele vender mais em outros países que seus contemporâneos de sintaxe mais elaborada.

O estilo em seu novo romance está mais rico e complexo. As descrições dos atos sexuais são precisas, não complicadas por hipérboles e são divertidas, se forem lidas dentro do espírito em que foram escritas. Ele é provocador, fica bem claro: "Como todas as garotas bonitas, ela basicamente era boa só para trepar, e seria estúpido utilizá-la para qualquer outra finalidade". Mas a opinião de Houellebecq sobre os homens, e particularmente em relação a ele mesmo, é ainda pior.

Talvez a boa sacada desse romance é que, apesar de sua vulgaridade, Daniel conquista nossa simpatia. Infelizmente, os outros personagens não convencem e são bidimensionais, sabotando a comparação com Balzac que o próprio Houellebecq sempre estabelece. Talvez se ele pudesse se libertar de sua própria imagem tão lapidada teria condições de escrever alguns romances muito bons.

"O Mundo de Houellebecq", uma conferência internacional, irá acontecer nos dias 28 e 29 de outubro na Biblioteca de Poesia Escocesa, em Edimburgo, na Escócia. O evento é organizado por Gavin Bowd, tradutor de "The Possibility of an Island". Houellebecq em pessoa falará na sessão de encerramento. Muitos na França, sobretudo os críticos, alegam que o escritor, que está lançando seu 4º romance, "A Possibilidade de uma Ilha", é um mau autor. Outros, evocando até Balzac e Schopenhauer, dizem que ele é capaz de entender as pessoas com menos de 30 anos Marcelo Godoy

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