A favor e contra Noam Chomsky

Robin Blackburn, da New School for Social Research em NY e
Oliver Kamm, colunista do "The Times

A Favor de Chomsky

Robin Blackburn elogia um intelectual corajoso, que diz a verdade aos poderosos


A grande votação no lingüista e ativista político americano Noam Chomsky (http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/prospect/2005/11/01/ult2678u34.jhtm) como o maior "intelectual público" do mundo não deveria ser motivo de surpresa. Quem poderia se equiparar a ele em termos de desempenho intelectual e coragem política?

Pouquíssimos intelectuais transformam todo um campo de investigação, como Chomsky fez na lingüística. O trabalho científico de Chomsky ainda é controverso, mas ninguém pode duvidar das suas realizações imensas, como se pode facilmente comprovar ao se consultar o recente livro da série Cambridge Companion sobre Chomsky. Ele não só transformou a lingüística nas décadas de 1950 e 1960, mas também permaneceu na linha de frente da controvérsia e da pesquisa.

A grande admiração por Chomsky, evidenciada na pesquisa da "Prospect", obviamente não é apenas, e nem mesmo principalmente, uma resposta ao seu trabalho intelectual. Tal admiração está vinculada a um pensador brilhante, que se dispõe a sair da sua esfera de estudos para se dedicar a expor os grandes crimes e contravenções perpetrados pelo país mais poderoso do mundo, assim como a cumplicidade dessa nação com governantes venais e brutais em quatro continentes, por um período de meio século ou mais.

Alguns acreditam - como disse certa vez Paul Robinson, ao escrever para o "The New York Times Book Review" --que existe um "problema Chomsky". Por um lado, ele é autor de contribuições profundas, embora proibitivamente técnicas, à lingüística. Por outro lado, as suas declarações políticas são, com freqüência, "enlouquecedoramente ingênuas".

Na verdade, não é difícil perceber as conexões entre as estratégias intelectuais adotadas por Chomsky na ciência e na política. A forma como Chomsky aborda a sintaxe chama atenção para a economia de explicações que poderia ser alcançada caso as similaridades na estrutura das linguagens fossem vistas como derivadas de capacidades humanas e biologicamente enraizadas da mente humana.

E, acima de tudo, da habilidade recursiva de gerar um número infinito de proposições a partir de um conjunto finito de palavras e símbolos. Muitos críticos modernos da academia radical estão prontos a lamentar o desprezo desta para com o método científico e as evidências. Mas essa não é uma crítica que possa ser dirigida a Chomsky, que procurou se colocar em uma posição naturalista e reducionista, segundo aquilo que ele chama, no título do seu livro de 1995, de "O Programa Minimalista".

As análises políticas de Chomsky também procuram se ater ao simples, mas não às custas das evidências, que ele é capaz de citar em grande quantidade, caso o desafiem. Mas isto é, não obstante, "enlouquecedor", assim como o seu programa minimalista pode ser para alguns dos seus colegas da academia.

A aparente franqueza das avaliações políticas de Chomsky --a sua oposição "previsível", ou até mesmo "automática", ao Ocidente, e especialmente aos Estados Unidos e suas intervenções militares - poderia ser tida como simplista. Mas elas se baseiam em uma montanha de evidências, e em uma análise econômica da maneira como o poder e a informação são compartilhados, distribuídos e negados. De forma característica, Chomsky começa com uma alegação extremamente simples, que ele depois elabora, criando um relato intrincado dos diferentes papéis do governo, das forças armadas, da mídia e das empresas na tarefa de administrar o mundo.

A postura política aparentemente simples de Chomsky está enraizada em um anarquismo e um coletivismo que geram o seu próprio senso de individualidade e complexidade. Ele foi atraído para o estudo da língua e da sintaxe por um mentor, Zellig Harris, que também aliou pensamento libertário e lingüística. A idéia-chave de Chomsky de uma capacidade lingüística inata e compartilhada para a cooperação e a inovação é uma negação positiva, e não puramente normativa, do argumento straussiano de que a desigualdade humana natural corrompe a democracia.

O conto de Andersen de um garoto que, para a fúria dos cortesões, afirma que o imperador está nu, possui um sabor chomskiano, não só porque o tema consiste em dizer a verdade aos poderosos, mas também porque a visão simples e infantil se mostrou mais aguçada do que a do olho adulto sofisticado. Eu estava presente quando Chomsky participou do seminário de Popper na Escola de Economia de Londres, na primavera de 1969, e enalteceu os poderes intelectuais das crianças (Chomsky garantiu a minha participação no seminário, em um momento em que perdi o meu emprego naquela instituição).

Conforme me recordo, Chomsky explicou como a alteração de vogal, ocorrida na última etapa do inglês medieval, foi parte de uma transformação derivada de uma dinâmica entre gerações. A geração dos pais falava usando pequenas inovações introduzidas por conta própria, às quais se chegou de forma espontânea e improvisada. Jovens em crescimento, devido à sua capacidade sintática inata, ordenaram a língua que ouviram os pais usar por meio de uma estrutura gramática mais inclusiva, que por si própria tornou possível uma mudança mais sistemática.

Na política, o olho da criança pode enxergar diretamente através das insinceridades travestidas de humanitarismo e democracia, percebendo os resultados funestos das intervenções militares ocidentais - Estados destroçados, gangsterismo, narcotráfico, competição das elites favorável aos ocupantes do poder, ódio comunitário e religioso cruel.

Chomsky admite abertamente que prefere as "platitudes pacifistas" à mendacidade beligerante. Isso faz com que alguns o acusem erroneamente de ser "passivo frente ao mal". Mas nem o apartheid na África do Sul, nem o Stalinismo na Rússia, nem os regimes militares da América Latina foram derrotados ou desmantelados por bombardeios ou invasões. Chomsky não teve dificuldade alguma em apoiar a campanha bem sucedida contra o apartheid, ou a retirada indonésia de Timor Leste. Ele simplesmente se opõe a colocar soldados norte-americanos em situação de risco --o que também significa em situações nas quais eles causem danos e aprendam a gostar de agir belicosamente.

A vitória de Chomsky em uma pesquisa na Internet não deve ser supervalorizada. Mas, assim como a vitória de Marx no início deste ano em uma competição promovida na BBC Radio 4 para determinar quem é o "maior filósofo", ela mostra que as cabeças pensantes ainda se sentem atraídas pelo impulso crítico, acima de tudo quando este é dirigido de forma consistente rumo a um pensamento global único.

A lista da Prospect não incluiu muitas críticas à política externa dos Estados Unidos, algo que poderia ter aumentado um pouco a liderança de Chomsky. Mas nenhuma modificação na lista provocaria uma diferença no resultado. Os editores avaliaram mal o espírito e o discernimento dos seus próprios leitores.

Contra Chomsky

Oliver Kamm deplora os seus argumentos toscos e desonestos


No seu livro "Public Intellectuals: A Study of Decline" ("Intelectuais Públicos: Um Estudo do Declínio"), Richard Posner observou: "Um acadêmico bem-sucedido pode ser capaz de usar o seu sucesso para atingir o público em geral ao falar de assuntos sobre os quais ele é um idiota".

A julgar pelas observações cáusticas feitas em outras partes do livro, ele estava pensando em Noam Chomsky. E não estava errado.

Chomsky continua sendo a figura mais influente na lingüística teórica, conhecido junto ao público pelas suas idéias de que a linguagem é um sistema cognitivo e a concretização de uma faculdade inata. Embora essas idéias sejam amplamente populares, muitos lingüistas as rejeitam. As suas teorias foram alvo de críticas por parte daqueles, tais como o pesquisador da capacidade cognitiva Steven Pinker, que já foram ligados a Chomsky.

Paul Postal, um dos primeiros colegas de Chomsky, enfatiza a tendência ao aumento da grandiloqüência nas alegações de Chomsky quando este se dirige a platéias compostas por leigos. Frederick Newmeyer, que apoiou as idéias de Chomsky até meados da década de 1990, observa: "Temos a impressão de que a retórica cada vez mais triunfalista de Chomsky é inversamente proporcional aos resultados verdadeiramente empíricos que ele é capaz de apresentar".

Os leitores da "Prospect" que votaram em Chomsky sabem da sua proeminência no campo da lingüística, mas é mais provável que tenham lido as suas numerosas críticas populares à política externa ocidental. A conexão, se é que existe alguma, entre a lingüística de Chomsky e a sua política é uma questão para debate, mas um vínculo óbvio é o fato de em ambos os campos ele lançar argumentos dúbios, reforçados por uma retórica extravagante. É isso que faz com que a noção de que Chomsky seja um intelectual público preeminente possa ser considerada anacrônica, assim como injustificada.

O primeiro livro de Chomsky sobre política, "American Power and the New Mandarins" ("O Poder Americano e os Novos Mandarins"), de 1969, foi derivado dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Mas Chomsky foi além da crítica esquerdista padrão do imperialismo norte-americano, chegando à seguinte conclusão: "O que é necessário nos Estados Unidos é um tipo de 'desnazificação'".

Este diagnóstico é fundamental para os trabalhos políticos de Chomsky. Embora não descreva os Estados Unidos como uma sociedade abertamente repressora - em vez disso, é um local onde "dinheiro e poder são capazes de filtrar as notícias para adequá-las à imprensa e marginalizar o dissenssão -, ele compara a conduta do país à da Alemanha nazista. No seu recém-publicado "Imperial Ambitions" ("Ambições Imperiais"), ele afirma: "Os pretextos para a invasão do Iraque não são mais convincentes do que aqueles utilizados por Hitler".

Se este for o julgamento feito a respeito dos Estados Unidos, será difícil acreditar que o intervencionismo norte-americano possa, em alguma circunstância, servir a fins humanitários. Mesmo assim, os julgamentos políticos de Chomsky só se tornaram mais assustadores no decorrer da última década.

Em "The Prosperous Few and the Restless Many" ("Os Poucos Prósperos e os Muitos Inquietos"), de 1994, Chomsky indagou se o Ocidente deveria bombardear acampamentos sérvios a fim de conter o desmembramento da Bósnia, e, por uma rota absurdamente tortuosa, conclui que "isso não é simples".

À época da guerra em Kosovo, este profeta do quietismo amoral do "grande governo" progrediu no sentido de definir o regime de Milosevic como sendo alvo de injustiças: "A Otan não tinha a intenção de honrar os pedaços de papel que assinou, e agiu rapidamente no sentido de violá-los".

Após o 11 de setembro, Chomsky lançou mão de uma aritmética fantástica para traçar uma equivalência entre a destruição das Torres Gêmeas e o bombardeio do Sudão sob o governo Clinton - um episódio no qual uma fábrica de produtos farmacêuticos, erroneamente identificada como uma fábrica de bombas, foi destruída, e um vigia noturno morto.

Quando a coalizão liderada pelos Estados Unidos bombardeou o Afeganistão, Chomsky afirmou que o uso da fome maciça como arma é uma escolha consciente da política norte-americana, e declarou: "Planos estão sendo feitos e programas implementados segundo a suposição de que eles possam causar a morte de vários milhões de pessoas nas próximas semanas... de forma bem casual, sem que se pense detalhadamente sobre isso". A sua avaliação foi oferecida sem evidências.

Em "A New Generation Draws the Line: Kosovo, East Timor and the Standards of the West" ("Uma Nova Geração Traça a Linha: Kosovo, Timor Leste e os Padrões do Ocidente"), de 2000, Chomsky desafia ironicamente os defensores da intervenção da Otan em Kosovo a pedirem um bombardeio contra Jacarta, Washington e Londres, em protesto contra a subjugação de Timor Leste pela Indonésia.

Se necessário, os cidadãos deveriam ser encorajados a fazerem eles próprios os bombardeios, "talvez se juntando à rede de Bin Laden". Pouco após o 11 de setembro, o cientista político Jeffrey Isaac escreveu sobre este ensaio de pensamento, afirmando: "Embora a intenção tenha sido metafórica, ficamos pensando se Chomsky já considerou a possibilidade de que alguém que não conte com um rigor lógico como o dele possa ler o livro e, descuidadamente, chegar a conclusão de que o bombardeio de Washington é necessário".

Esse episódio é uma indicação da destrutividade da militância de Chomsky, até mesmo naquelas questões em que ele está certo. Chomsky foi um crítico de primeira hora da brutal anexação de Timor Leste, em 1975, face à indolência, na melhor das hipóteses, da administração Ford.

O problema não são essas críticas, mas o uso posterior delas, por parte de Chomsky, no sentido de racionalizar a sua oposição às medidas do Ocidente para impedir o genocídio em outras áreas (aliás, Chomsky reforça este argumento com uma manipulação peculiarmente desonesta de material usado como fonte.

Ele manipula uma referência auto-irônica nas memórias do então embaixador dos Estados Unidos na ONU, Patrick Moynihan, ao expor em conjunto passagens diferentes, como se elas fossem seqüenciais, a atribuindo a Moynihan comentários que este não fez, a fim de expor a conclusão de que Moynihan se orgulhava de políticas de natureza nazista. As vítimas da política real da Guerra Fria são suficientemente reais sem que se precise usar tais expedientes de natureza retórica).

Se os escritos políticos de Chomsky expressassem meramente uma idéia fixa, eles seriam uma anotação de pé de página na sua carreira de intelectual público. Mas Chomsky possui seguidores dedicados entre o público de formação universitária, e especialmente junto aos jovens de idade universitária, que assimilam avaliações que trazem o verniz da academia, mas razões que beiram o patológico.

Ele certa vez descreveu a tarefa da mídia da seguinte forma: "Selecionar os fatos, ou inventá-los, de forma a fazer com que as conclusões exigidas não sejam nitidamente absurdas - pelo menos para as mentes propriamente disciplinadas". Esta não poderia ser uma melhor descrição da sua própria prática.

O autor agradece Bob Borsley e Paul Postal pelos conselhos. O maior intelectual público do mundo é um brilhante expositor da lingüística e da enganosa política externa dos Estados Unidos? Ou ele seria um antiamericano que age de forma automática, e que desdenha as suas fontes? Danilo Fonseca

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