Pesquisa escolhe os maiores intelectuais de hoje

David Herman

As duas coisas mais surpreendentes em relação a esta pesquisa --cujo resultado está disponível no endereço http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/prospect/2005/11/01/ult2678u34.jhtm-- são o número de pessoas que dela participaram e a idade dos vencedores. Mais de 20 mil elegeram os seus cinco intelectuais prediletos a partir da nossa lista de 100 nomes, e elas acabaram reforçando as tendências da lista original de sugestões, apresentada pelos organizadores.

O único brasileiro da lista, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ocupa a 43ª posição. Sociólogo e integrante do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o tucano é autor de vasta obra acerca dos fundamentos econômicos do subdesenvolvimento, além de ter sido professor do curso de Ciências Sociais da USP.

Mais da metade dos nomes incluídos entre os 30 mais importantes são de personalidades que vivem na América do Norte. A Europa, por contraste, apresenta surpreendentemente poucos representantes --há um punhado de nomes bastante conhecidos entre os 20 primeiros (Eco, Havel, Habermas), mas, é preciso descer até as profundezas da classificação para encontrar outros, tais como Kristeva (48) e Negri (50). A ausência a mais estupenda é a da França --com um nome apenas entre os 40 mais votados, menos do que o Irã ou o Peru.

Não há uma mulher sequer entre os dez primeiros, e apenas três entre os 20 mais importantes. Os grandes nomes da esquerda tiveram um bom desempenho (Chomsky, Habermas, Hobsbawm), mas o seu número é bastante reduzido. Tanto os cientistas, os críticos literários, os filósofos como os psicólogos obtiveram um péssimo resultado.

Além disso, os eleitores não utilizaram a "bola extra" à qual eles tinham direito para patrocinar novas figuras. Há dois nomes no topo da lista, os de Milton Friedman e de Stephen Hawking, que não representam nem um pouco novas linhas de pensamento (de fato, Friedman havia sido mencionado especificamente em nosso comentário de mês passado sobre "critérios de inclusão" --ao lado de outros grandes intelectuais do passado tais como Soljenitsin-- como um exemplo de personalidade que havia sido deliberadamente descartado da lista geral, com base no fato de que eles não estavam mais contribuindo ativamente para sua disciplina).

De certa forma, a pesquisa foi vítima do seu próprio sucesso. A notícia correu muito rapidamente pela Internet afora, e pelo menos três dos que foram classificados entre os 20 mais (Chomsky, Hitchens e Soroush), ou os seus seguidores, decidiram chamar a atenção para a sua presença na lista, utilizando os seus sites pessoais na Web para criar um link com a página de votação da Prospect. Nos casos de Hitchens e de Soroush, os votos começaram então a afluir em abundância.

Embora seja difícil determinar com exatidão qual é a origem dos eleitores, é muito provável que uma ampla maioria dentre eles seja da Grã-Bretanha e da América, aos quais deve ser acrescentada boa proporção de eleitores de outras regiões da Europa e dos países de língua inglesa. Houve também uma avalanche considerável de votos do Irã, em contraste com uma escassez de eleitores do Extremo-Oriente, o que pode explicar por que quatro dos cinco últimos nomes da lista são pensadores do Japão e da China.

Ainda assim, o que é mais interessante a respeito desta eleição é a idade dos intelectuais que estão no topo da lista. Chomsky venceu com uma pequena dianteira, com mais de 4.800 votos. Ele é seguido por Eco, que obteve pouco menos de 2.500 votos, Dawkins e Havel.

Apenas dois dos nove primeiros --Hitchens e Rushdie-- nasceram depois da Segunda Guerra Mundial. Dentre os 20 primeiros, apenas Klein e Lomborg têm menos de 50 anos. Esta tendência pode refletir a idade dos eleitores, que escolheram nomes familiares.

Contudo, ela certamente nós diz muito sobre a natureza radicalmente volúvel dos intelectuais mais notáveis do Ocidente. Quem são os equivalentes mais jovens de Habermas, Chomsky e Havel?

Grandes nomes são gerados por grandes eventos. Ora, não foi registrada nenhuma diminuição da ocorrência de terríveis eventos ao longo dos últimos dez anos e alguns dos nomes que constam da lista (Ignatieff, Fukuyama, Hitchens) são tão proeminentes precisamente por causa do que eles disseram a respeito deles. Entretanto, apenas um deles é europeu e, ainda assim, ele mora em Washington DC.

Esta edição da Prospect traz mais informações e artigos a respeito de Chomsky. Mesmo para quem discorde dos seus ataques contra a política externa americana, há pelo menos duas razões que explicam por que não é nenhuma surpresa vê-lo no topo desta lista.

Em primeiro lugar, a sua dimensão como intelectual. Assim como um bom número de outras figuras classificadas entre os dez mais, ele ocupa uma posição de destaque em diversas disciplinas do conhecimento.

A trajetória de Havel é a de um dramaturgo e de um homem de Estado; Eco acumula as atividades de crítico literário e de autor de best-sellers; por sua vez, Diamond atuou como professor de fisiologia e agora tem uma cadeira de geografia na UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles). Os seus livros dizem respeito a vastas questões que abrangem períodos de tempo muito extensos.

Em segundo lugar, e da maneira mais importante, Chomsky pertence a uma tradição que remonta a Zola, Russell e Sartre: um pensador, ou um escritor de marca maior que se manifesta sobre as questões públicas as mais importantes do seu tempo, e que se opõe ao governo do seu país, sobretudo em questões de consciência, e nem tanto em relação a assuntos puramente políticos.

Eu escrevi no mês passado, no meu comentário sobre a lista inicial de 100 nomes propostos por Prospect/Foreign Policy que ela parecia representar a morte daquela grande tradição dos intelectuais de oposição. A vitória esmagadora de Noam Chomsky sugere que nós ainda damos valor a tais figuras --nós só parecemos ser incapazes de encontrar alguma que tenha menos de 70 anos.

OS MAIORES INTELECTUAIS DO MUNDO

A seguir, curtos perfis dos maiores intelectuais do mundo, que foram escolhidos pelos leitores da "Prospect" e do portal Foreign Policy.

  • NOAM CHOMSKY

    Nascido em 1928 em Filadélfia, Chomsky conquistou suas distinções acadêmicas quando ainda era um jovem professor de lingüística no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos anos 50. A sua teoria da gramática transformacional, que ele desenvolveu naquela época, postula que a capacidade de formar uma linguagem estruturada é inata ao ser humano.

    Mas o grande público veio a conhecer Chomsky pela sua oposição declarada à guerra do Vietnã. Por mais de 40 anos, ele tem sido o crítico mais barulhento e mais consistente da academia contra as políticas seguidas pelos Estados Unidos, tanto dentro de casa como no exterior. Chomsky escreveu mais de quarenta livros e até hoje dá palestras com freqüência, e continua sendo um provocador mais prolífero do que nunca.

  • UMBERTO ECO

    Por mais que Umberto Eco seja mais conhecido como um medievalista, talvez seja mais adequado chamá-lo de um homem do renascimento. Embora este italiano de 73 anos atue formalmente como professor de semiótica contratado pela Universidade de Bologna, o conjunto da sua obra é um desafio para quem pretende atribuir-lhe um único rótulo.

    Ele escreveu sobre a filosofia de Tomás de Aquino, sobre a relevância da estética através do tempo, e ainda sobre a influência cultural das histórias em quadrinhos. E isso, falando-se apenas da sua obra de não-ficção.

    Eco tornou-se conhecido no mundo inteiro com os seus romances "O Nome da Rosa", "O Pêndulo de Foucault", "A Ilha do Dia Anterior" e "Baudolino", sendo que o primeiro se transformou num importante filme de Hollywood, estrelado por Sean Connery.

  • RICHARD DAWKINS

    Richard Dawkins surgiu no cenário com o seu livro de 1976, "O Gene Egoísta", no qual o gene é apresentado como a unidade central da seleção natural. Hoje, professor de compreensão pública da ciência na Universidade de Oxford, Dawkins, 64, é um crítico formidável da religião organizada --conforme demonstra o seu artigo sobre o "óleo Gerin" (ou gerinol, poderosa substância alucinógena que teria sido usada pelos autores dos atentados de 11 de setembro de 2001), para a edição do mês passado da Prospect --e hoje, é possivelmente o ateu o mais ouvido em todo o mundo.

    Por meio de livros, de ensaios e intervenções na mídia, Dawkins mostra a importância da ciência para o grande público de uma forma que poucos conseguem igualar. Segundo notícias recentes, ele está trabalhando atualmente num documentário sobre a religião, cujo título provisório é "A Raiz de Todo Mal".

  • VÁCLAV HAVEL

    Nascido em 1936 em Praga, Havel ganhou destaque durante os anos 70 ao escrever peças que ridicularizavam os absurdos da vida numa ditadura. O seu envolvimento com a iniciativa da Carta 77 (petição dos dissidentes contra o processo de "normalização" comunista da sociedade tchecoslovaca) conduziu à sua prisão e ao banimento da sua obra.

    Em 1989, com a queda do Muro de Berlim, Havel despontou como o líder da "revolução de veludo" e, um ano mais tarde, foi eleito presidente da Tchecoslováquia.

    Então, depois do desmembramento do seu país, em 1992, ele atuou como presidente da República Tcheca de 1993 até 2003. Hoje, ele continua ativo na Europa, açoitando a União Européia pelo seu tratamento passivo da questão dos direitos humanos em países tais como Burma e Cuba.

  • CHRISTOPHER HITCHENS

    Como jovem trotskista, Christopher Hitchens chamou a atenção durante os anos 70 pelos seus artigos de política no "New Statesman". Depois de se dar conta de que pouco lhe importava quem de Tony Benn ou de Denis Healey se tornaria o secretário-geral do Partido Trabalhista, ele mudou-se para os Estados Unidos em 1980, onde ele escreveu inicialmente para o "The Nation" e, mais tarde, para "Vanity Fair" e "The Atlantic".

    Uma série de ataques contra Madre Teresa de Calcutá, Bill Clinton e Henry Kissinger rendeu-lhe certa notoriedade, mas Hitchens, 56, é hoje mais conhecido pela sua ruptura confusa com a esquerda anti-guerra em torno da Bósnia e, mais tarde, do Afeganistão e do Iraque, e pelo apoio que ele dá alto e bom som à guerra contra o terror de Bush.

  • MILTON FRIEDMAN

    Esta filho de imigrantes húngaros que foi criado em Nova Jersey é famoso, sobretudo por ser o grande defensor da liberdade individual e por defender a idéia segundo a qual os impostos deveriam ser cortados "toda vez que isso for possível".

    A sua teoria do monetarismo, que sublinha a importância do controle da emissão de moeda, substituiu o keynesianismo durante certo período como a concepção dominante na teoria econômica.

    O trabalho de Friedman na Universidade de Chicago projetou suas idéias na cena política mundial, e, em 1976, ele foi contemplado com o prêmio Nobel de Economia. As suas concepções, transmitidas pelo intermédio de Keith Joseph (1918-1994, político conservador britânico) e do IEA (Instituto de Assuntos Econômicos), influenciaram as políticas dos primeiros governos de Margaret Thatcher. A lista dos 100 intelectuais os mais notórios do planeta, elaborada pelos leitores da Prospect e do portal Foreign Policy, sugere que a era dos grandes pensadores contestadores está encerrada, mas a vitória marcante de Noam Chomsky mostra que muitos cultivam certa nostalgia daqueles tempos Jean-Yves de Neufville
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